‘Bolsonaro é o principal, mas não o único responsável pelas mortes por Covid-19’, diz epidemiologista

Para Pedro Hallal, na gestão de Mandetta houve mais acertos do que erros, mas com Pazuello é um fracasso absoluto

Presidente, em plena pandemia, se aglomera. Foto: Alan Santos/PR

Presidente, em plena pandemia, se aglomera. Foto: Alan Santos/PR

Política,Saúde

No início da pandemia, a convite do ministro Henrique Mandetta, o epidemiologista Pedro Hallal coordenou uma das primeiras pesquisas sobre o mecanismo de propagação da Covid-19 no Brasil.

Mandetta perdeu o cargo e a fonte de financiamento secou, mas o cientista continuou a acompanhar, com apreensão, a evolução da doença.

 

 

Os meses de estudo do vírus o levaram a publicar um artigo contundente na revista médica Lancet a respeito do descaso de Bolsonaro e companhia. A franqueza fez dele um alvo da ira bolsonarista. As ameaças não o intimidam.

“Bolsonaro é o principal culpado, mas não o único”, declara na entrevista a seguir. “Não há como eximir o ministro da Saúde. O comandante que não assume responsabilidade não tem moral para seguir no comando.”

 

CartaCapital: No início da pandemia, o senhor coordenou uma pesquisa que mapeava a propagação da Covid-19. Qual foi o resultado?

Pedro Hallal: O objetivo do estudo, o EPICOVID-19, foi avaliar a evolução da pandemia no Rio Grande do Sul e no Brasil. No estado, completamos oito fases e testamos 4,5 mil voluntários. Nacionalmente, foram quatro fases espalhadas por 133 municípios, mais de 125 mil avaliados. Os principais resultados resumem-se em cinco pontos. Primeiro, a pesquisa mostrou que o número real de brasileiros que havia tido contato com o vírus era seis vezes maior do que mostravam as estatísticas oficiais em meados de 2020. Segundo, as crianças têm o mesmo risco de contaminação que os adultos. Terceiro, os mais pobres têm o dobro do risco de contaminação dos mais ricos. Os indígenas têm risco 4,7 vezes maior em comparação aos brancos e, por último, a equivocada percepção que tivemos no início da pandemia, quando se acreditou que a maioria dos casos era de assintomáticos. Na verdade, são ocorrências leves, mas os infectados apresentam sintomas.

 

CC: O ministério da Saúde utilizou esses parâmetros no planejamento de combate à doença?

PH: Em março de 2020, fomos procurados pelo ministério para expandir o estudo por todo o País. Infelizmente, na gestão de Eduardo Pazuello, a parceria terminou. Um dos argumentos foi de que a pasta faria outras pesquisas similares. Não tenho conhecimento desses estudos, nem se foram iniciados. O único resultado que parece ter sido utilizado adequadamente foi o maior risco de Covid-19 entre os indígenas, visto que essa população foi incluída como grupo prioritário no Plano Nacional de Imunização. De resto, os dados foram ignorados. Posso citar um diagnóstico que, certamente, poderia ter sido utilizado com sucesso: conectar o sistema de monitoramento de sintomas a uma política de testagem nacional. Sem dúvida, a circulação do vírus seria menor.

 

CC: Quando o País começou a perder o controle?

PH: A condução da pandemia foi trágica desde o início e continua assim. Uma combinação de negacionismo, gritaria em torno de pautas irrelevantes, silêncio sobre assuntos relevantes e estímulo à discórdia. Na gestão Mandetta houve mais acertos do que erros. A gestão Teich foi muito curta. Mas esta do Pazuello é um fracasso absoluto. Equívocos sobre tratamento, distanciamento, carência de dados epidemiológicos e, mais grave, falta de planejamento para a campanha de vacinação.

 

“O ATAQUE À CIÊNCIA É UM PROJETO POLÍTICO”

 

CC: Quais são os principais erros?

PH: A falta de testagem em massa e do rastreamento de contatos. A testagem em larga escala não é importante para quantificar casos, mas para identificá-los precocemente, impedindo que o vírus seja transmitido. No início, os laboratórios precisavam ser equipados e havia carência de testes. Desde o meio do ano passado, não há mais justificativa para não se ter uma política de testagem em larga escala. A situação do rastreamento de contatos é ainda mais lamentável. Ninguém pergunta a um diagnosticado com quem teve contato entre os sete e dez dias anteriores. Se a pergunta fosse feita, seria possível abordar aqueles que tiveram contato e fazer os testes. Isso auxiliaria na identificação precoce dos casos e, certamente, reduziria a transmissão.

 

CC: Bolsonaro é o maior responsável pelas mais de 200 mil mortes?

PH: É o principal, mas não o único responsável. Suas declarações são vexatórias, mas o enfrentamento brasileiro à pandemia é ainda mais vergonhoso. Não há como eximir o ministro da Saúde, que, no limite, é o responsável pela criação de uma política nacional. O governo culpa o Supremo Tribunal Federal pelo fracasso, mas o STF não o impediu de ter um plano nacional de testagem em larga escala, não proibiu a criação de uma política de rastreamento de contatos, nem desestimulou a vacinação. E nunca sugeriu que a Covid-19 fosse uma gripezinha. Comandante que não assume responsabilidade não tem moral para seguir no comando.

 

CC: Seu artigo na Lancet, “SOS Brasil: Ataques à Ciência”, causou comoção entre os bolsonaristas, não?

PH: Há anos, o financiamento para a ciência brasileira tem despencado. Semanalmente, temos acesso a notícias sobre cortes de bolsas de pesquisa e de verbas, contingenciamento de recursos nas universidades. Mais recentemente, o negacionismo passou a ocupar os noticiários, seja pelos defensores do terraplanismo ou de grupos antivacina. Essa campanha orquestrada contra o conhecimento, contra a ciência, contra as universidades e contra os serviços públicos precisa ser combatida. Aliás, não fossem a ciência, as universidades e o SUS, a tragédia seria ainda maior.

 

CC: Destruir a ciência, a pesquisa em geral, é um projeto político ou ignorância funcional?

PH: Um projeto político, sem dúvida. Lembra do ministro da Educação, Abraham Weintraub? Seu ódio às universidades era nítido. E as declarações do ministro do Meio Ambiente? Governo que desestimula a vacinação tem uma agenda bem explícita de ataque à ciência. Não podemos cair no discurso de que os ataques são fruto de incompetência. Ao contrário, os ataques são coordenados. O governo precisa dessas polêmicas para manter sua base radical de apoio.

CC: O drama de Manaus ameaça repetir-se em outras cidades. Como vamos superar esta pandemia?

PH: O País segue sem rumo no enfrentamento da pandemia. Situações como em Manaus podem se repetir. Enquanto a vacinação não atingir um grande porcentual da população, só nos resta seguir as medidas de prevenção, incluindo o distanciamento social. Enquanto isso, o Ministério da Saúde é advertido pelo Twitter por propor tratamentos inadequados. Em qualquer país sério, o ministro seria demitido no mesmo dia.

 

Publicado na edição n.º 1142 de CartaCapital, em 29 de janeiro de 2021.

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