Aval do CFM interrompe tendência de recuo em relação à cloroquina

Conforme a pandemia e as pesquisas avançam, promessas milagrosas perdem força. Os Estados Unidos vivem um cenário parecido

Presidente exibe medicamento ineficaz contra Covid-19 durante live semanal. 

Foto: Reprodução/Youtube

Presidente exibe medicamento ineficaz contra Covid-19 durante live semanal. Foto: Reprodução/Youtube

Saúde

Ao primeiro sinal de mortes por coronavírus nos EUA, o presidente Trump passou a propagandear os supostos poderes curativos da cloroquina, um velho remédio para a malária. Jair Bolsonaro, no Brasil, fez o mesmo.

O ex-capitão falou do medicamento dezenas de vezes de lá pra cá. Empolgado, exibiu caixinhas da cloroquina a jornalistas e líderes do G-20. Antes de derrubar Mandetta, conseguiu dele o afrouxamento das recomendações para o uso da droga. Agora, tenta capitalizar o aval do Conselho Federal de Medicina aos doutores que receitam o remédio.

 

O CFM apresentou seu parecer a Bolsonaro nesta quarta-feira 23. Mas, conforme consta no documento disponível no site do CFM, o estudo foi concluído no dia 16 de abril, data da demissão de Luiz Henrique Mandetta.

O conselho concluiu em favor do uso da cloroquina mesmo nos casos sintomas leves e medianos, embora ressalte não haver, até o momento, “estudos clínicos de boa qualidade que comprovem sua eficácia contra a covid-19”. Quem prescrever fica obrigado a explicar ao paciente efeitos colaterais e dizer que a eficácia da droga não tem comprovação científica.

Médicos ouvidos por CartaCapital dizem que, embora condenável, o parecer não é exatamente uma aval ou recomendação. Serve mais como salvaguarda contra eventuais punições éticas e jurídicas.

O caso quebra uma tendência de recuo na postura de Bolsonaro em relação à droga. Nos últimos 30 dias, o ex-capitão fez em média um post por dia sobre a cloroquina no Twitter. Um deles, na qual dizia que o medicamento “está dando certo em tudo quanto é lugar”, chegou a ser removido pela rede. 

Depois de vários dias de silêncio em relação ao medicamento, o ministro Nelson Teich afirmou, durante coletiva nesta quinta-feira 23, que o Ministério da Saúde não recomenda o uso da cloroquina, mas o autoriza, conforme o parecer do CFM.

Conforme avança a pandemia e vem à luz os primeiros resultados das pesquisas com a droga, menos animadores são os prognósticos. No dia 19 de abril, a operadora Prevent Senior tornou público o rascunho de uma pesquisa com a droga. A falta de rigor metodológica foi duramente criticada por cientistas.

Muitos voluntários sequer tinham diagnóstico de covid-19. Além disso, puderam escolher se tomariam ou não a droga, um aberração em termos de pesquisa. Na semana seguinte, o estudo acabou suspenso. A Comissão Nacional de Ética em Pesquisa descobriu que os testes começaram antes da autorização da entidade, prática proibida no Brasil.

Nos Estados Unidos, ocorre movimento semelhante. Conforme os casos e as mortes sobem, o tema empalidece nas coletivas na Casa Branca. Na terça 21, experts convocados pelo Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas — agência com poder equivalente ao do Ministério da Saúde no Brasil — desaconselharam o uso de hidroxicloroquina (versão mais leve de composto) e azitromicina em pacientes da covid-19. O motivo? O coquetel aumenta os riscos de ataque cardíaco.

No mesmo dia, um estudo com veteranos de guerra apontou que pacientes tratados com hidroxicloroquina morreram mais que os que não tomaram o remédio. Uma outra promessa parece ganhar força. Na quinta, contrariando qualquer indicação científica, Trump sugeriu que as pessoas recebam injeções de desinfetante. Técnicos do governo reagiram indignados.

Ganham repercussão as histórias de vítimas fatais que haviam feito o uso da cloroquina. Na Bahia, um médico que receitou a si mesmo a combinação morreu de infarto. Um jovem doutor de São Paulo, de 32 anos, também tomou o coquetel, mas não resistiu. 

A pedido de Bolsonaro, o Exército concentra esforços para produzir 2 milhões de compridos da cloroquina. Antes, eram entregues 250 mil a cada dois anos. Faltou combinar com a ciência. O principal estudo brasileiro com a cloroquina, coordenado pelo Sírio Libanês, HCor e outras dezenas de hospitais, só trará resultados no fim do mês de maio – isso, na hipótese mais promissora.

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