Saúde

Aumento da Covid é resultado da flexibilização acelerada e seria melhor manter máscaras em locais fechados

Em entrevista a CartaCapital, a infectologista Nilse Querino fala sobre as perspectivas de controle da doença no Brasil

(Foto: Arquivo Pessoal)
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Desde a confirmação do primeiro caso de Covid-19 no Brasil, em fevereiro de 2020, mais de 28 milhões de casos já foram registrados no País. Após dois anos de idas e vindas, o avanço das vacinas e a consequente queda das mortes, um aumento exponencial no número de infectados volta a chamar atenção.

Na última sexta-feira 3, o País registrou 39.657 casos e 41 óbitos por Covid-19 em um único dia, de acordo com o Conselho Nacional dos Secretários de Saúde, o Conass. O que significa que, em duas semanas, a média de infecções cresceu 28,88%.  

Outro estudo que confirma este cenário é o do Boletim InfoGripe, da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz). Segindo o estudo, a Covid-19 já é motivo de 59,6% das hospitalizações por infecções nas vias aéreas registradas nas últimas semanas.

Em paralelo, o números de vacinados patina. Mesmo com 77% das pessoas com duas doses da vacina, a primeira dose de reforço não atingiu sequer 50% da população adulta, apontam os dados do Ministério da Saúde.

A nova onde de infecções levou as prefeituras de São Paulo, do Rio de Janeiro e o governo do Distrito Federal a recomendarem ao retorno do uso de máscaras em ambientes fechados.

Para Nilse Querino, diretora do Instituto de Infectologia da Bahia e professora da Universidade Federal da Bahia, o poder público se precipitou. Os primeiros registros de queda de transmissão, defende, não eram suficientes para uma maior flexibilização das medidas de proteção. “O número de pessoas internadas e de mortes diminuíram muito, mas o número de infectados voltou a crescer de uma forma preocupante”, explica. “Se você também tem muita gente infectada, vão acontecer óbitos e aumento de internação hospitalar.”

Confira a seguir.

CartaCapital: O que explica esse crescimento no número de infectados? O aumento de casos de Covid após a flexibilização das medidas de proteção já era esperado?

Nilse Querino: Eu sempre chamo de efeito sanfona. É o que acontece quando os índices caem, mas ainda não era o suficiente para que se libere tudo. Seria melhor pelo menos continuar com o uso das máscaras em ambientes fechados. O número de pessoas internadas e de mortes diminuíram muito, mas o número de infectados voltou a crescer de uma forma preocupante. Se você também tem muita gente infectada, vão acontecer sim óbitos e um aumento de internação hospitalar. 

CC: Qual a gravidade desse novo pico de transmissão?

NQ: O olhar nesse momento está na vacinação. No momento em que caíram as infecções, mortes e casos graves, as pessoas também deixaram de tomar o reforço da vacina. Então, sabemos, a imunidade também cai. Evidentemente, há pessoas que, mesmo com a vacinação incompleta, não pegam a forma grave da doença. Mas aqueles mais vulneráveis, os mais velhos, mesmo com esquema vacinal completo, estão começando a sofrer com isso. Estão voltando a ter internações e casos mais graves. O importante é a prevenção, em conjunto com o retorno do uso de máscaras em ambientes fechados, e que a gente consiga uma maior adesão à vacinação. 

CC: Como agem as doses de reforço da vacina no organismo? 

NQ: O que acontece é que, depois de cinco meses, os níveis de proteção da escala caem bastante. Por isso [é preciso] fazer reforço, para que esses níveis sejam iguais. É possível que a vacinação ocorra em uma periodicidade semelhante à da influenza ou até mais curta, enquanto ainda nós não nos estabilizarmos em relação a essa doença. É importante relembrar que os estudos estão sendo feitos em pleno andamento da Covid. É uma doença muito nova, com vacinas também novas.

CC: Caso a flexibilização continue, o que pode se esperar para o Brasil nos próximos meses?

NQ: Estávamos avisando que era cedo para uma grande flexibilização, mas os políticos tinham essa necessidade, ainda mais agora próximo da eleição, de normalizar tudo. Isso faz com que se acelere coisas que não poderiam ser feitas. Agora, o governo decreta que os funcionários federais devem voltar ao atendimento presencial. Imagine a aglomeração que nós vamos ter, em um momento que a curva está ascendente. Isso vai, sim pressionar um aumento.

Camila da Silva

Camila da Silva
Repórter e Produtora de CartaCapital

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