Saúde

Alta circulação do coronavírus e queda na aplicação da 2ª dose preocupam especialistas

No ritmo atual, SP deve vacinar por completo 30% da população até setembro, com risco de doses ‘perdidas’ em meio a aumento de casos

(Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP)
(Foto: Yasuyoshi CHIBA / AFP)
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A chegada de mais doses de vacinas contra a Covid-19 ao Brasil tem instigado governadores e prefeitos a cravarem uma “corrida” pelo primeiro lugar na vacinação, mas o aumento dos casos de coronavírus em todo o País e a pouca clareza sobre quais são as orientações e dados sobre a aplicação das segundas doses, essenciais para completar a imunização, têm preocupado especialistas da saúde.

Uma análise elaborada a pedido de CartaCapital pelo pesquisador Wallace Casaca, doutor em Ciências da Computação, professor da Unesp e coordenador do projeto InfoTracker, mostra que, em São Paulo, o crescimento do ritmo de aplicação das primeiras doses contrasta com a queda na vacinação de segunda dose.

No atual ritmo, se toda a população adulta do estado realmente for vacinada até meados de setembro — e as projeções são otimistas para tal –, na mesma data, apenas 30% estarão completamente imunizados, isso se o ritmo não diminuir ainda mais daqui para a frente.

Segundo o gráfico, a aplicação entre as duas doses começou a se distanciar com mais ênfase a partir de meados de abril. No último dia 18, enquanto mais de 283 mil receberam as primeiras doses, apenas 8,1 mil foram vacinados com a segunda.

Por mais que diferentes vacinas tenham distintas datas limite para a segunda dose do imunizante — enquanto o reforço da Coronavac é aplicado em até 28 dias, as vacinas da AstraZeneca e da Pfizer só são reaplicadas em três meses –, o alto patamar de novas contaminações em meio ao deslanchar da campanha pode significar vacinas “queimadas” no meio do caminho, opina o médico, epidemiologista e professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Alexandre Figueiredo.

“De certa forma, a gente está atrapalhando a eficácia da vacina. Até 14 dias, uma pessoa que tomou a vacina e outra que não tomou estão em pé de desigualdade em relação combate ao coronavírus, porque o organismo não desenvolveu o anticorpo ainda”, explica. “Com essa dose que eu aplico hoje, se a pessoa pegar Covid amanhã, eu queimei a vacina”.

Com isso, nem a vacinação conseguiria conter rapidamente o número de mortos pela doença caso medidas já repetidas há mais de um ano, como a importância do distanciamento social para o controle da presença do vírus e o uso de máscaras, não tiverem o mesmo destaque da importância da imunização neste momento.

CartaCapital procurou o governo de São Paulo com pedidos de esclarecimento sobre quais têm sido as orientações dadas aos municípios até então, mas não obteve resposta até o fechamento da reportagem.

No cenário nacional, a situação não é tão diferente. Apenas 11,52% dos brasileiros já receberam a segunda dose de qualquer um dos imunizantes, o que contrasta com o percentual de 21,7% das doses já disponíveis para a complementação da vacinação.

Com a chegada do inverno, pesquisadores da Fiocruz alertaram para uma tendência do recrudescimento da epidemia. De acordo com o último boletim do Observatório da Covid, 18 estados e o Distrito Federal apresentam taxas de ocupação em UTIs de pelo menos 80%, sendo que em oito deles as taxas de ocupação são iguais ou superiores a 90%.

Além disso, apesar das diferentes apostas de governadores e prefeitos em calendários definitivos para a vacinação da população adulta, um estudo da organização Open Knowledge Brasil mostrou, com dados coletados até o dia 17 de junho, que três em cada quatro estados não informam em que pé está a vacinação de grupos prioritários.

“O ideal é uma ação conjunta, sem sombra de dúvida. Vamos acelerar ao máximo a vacinação, mas sem vender a ilusão de que, com isso, a redução de mobilidade vai ser desnecessária. Ela é necessária enquanto tiver tendo muita circulação viral. E é um mês para esses efeitos aparecerem na [taxa de] internação. Enquanto isso, dá impressão que as coisas estão piorando, mas não, estão melhorando. O problema é que o pior ainda não apareceu”, diz Figueiredo.

Para a epidemiologista Ethel Maciel, a necessidade da complementação efetiva da 2ª dose é ainda mais importante no caso da Coronavac, que tem, com apenas uma dose, uma proteção menor do que a Pfizer a a AstraZeneca para os mesmos casos. De qualquer forma, as últimas duas também não protegem a longo prazo apenas com uma dose.

Ampliar a velocidade de vacinação é muito importante porque a gente quer impactar na curva de casos, mas a velocidade precisa ser acompanhada da segunda dose – principalmente se a gente colocar uma vacina como a Coronavac, que só tem eficácia dias depois da segunda dose”, analisa. 

 

Avanço na vacinação ainda conta com falta de doses em cidades

De acordo com o levantamento mais recente da Confederação Nacional de Municípios, cerca de 80% dos municípios brasileiros já haviam iniciado, até a sexta-feira 18, a vacinação de pessoas abaixo de 60 anos sem comorbidades. Desses, 40% imunizaram nesta semana a faixa etária entre 50 e 55 anos, 30% pessoas acima de 55, 9% entre 45 e 49 anos e apenas 6% abaixo dessas faixas etárias.

A falta de imunizantes foi registrada em 562 municípios dos 3.591 respondentes, um percentual estável em relação à pesquisa anterior. Desses, 73% afirmaram terem ficado sem vacinas para a primeira dose e 43% sem a segunda na última semana. A Coronavac foi o imunizante cuja necessidade de estoque foi maior: mais de 90% dos que tiveram falta precisavam da vacina produzida no Instituto Butantan.

Para além das vacinas, porém, a pesquisa também indicou que 33% dos municípios viu um aumento no número de casos de coronavírus, a terceira semana consecutiva que esta resposta é a mais comum entre os respondentes. Em relação aos óbitos, a maioria alegou que o número de vítimas ficou estabilizado.

Mesmo assim, Ethel avalia como positiva a divulgação de calendários sobre a vacinação neste momento. “Eu acho válido o planejamento, isso deixa as pessoas um pouco mais tranquilas e sabendo que quando elas vão se vacinar ainda esse ano. A gente espera que, inclusive, o Brasil consiga negociar novas doses, que a gente consiga adiantar esse cronograma, o que seria o ideal”. 

Figueiredo também avalia que o avanço da vacinação “não está ruim” por completo, mas que a expectativa era que o País conseguisse avançar mais rapidamente na agenda devido “a um programa nacional de imunização fantástico”.

O que chama a atenção de Figueiredo é que países, que estão atrás do Brasil em relação à taxa de imunização, como o Japão, não chegam perto ao percentual de mortes por Covid-19. “Eles cuidaram da pandemia, não deixaram o descontrole prevalecer. Isso é muito pior que a falta de vacina, na minha opinião. A ausência da vacina não foi a responsável pelo nosso passado de morte”.

Giovanna Galvani

Giovanna Galvani
É repórter do site de CartaCapital.

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