Acesso a terras indígenas é fechado após regiões estarem “lotadas de turistas”

Portaria da Funai limitou acesso às tribos, onde o coronavírus poderia ter efeito devastador. ONGs também auxiliam na prevenção

(FOTO: ALDAREY TAMANDARÉ - SÃO FÉLIX DO XINGU – PARÁ)

(FOTO: ALDAREY TAMANDARÉ - SÃO FÉLIX DO XINGU – PARÁ)

Saúde,Sociedade

Ainda que os mais de 1000 casos de coronavírus no Brasil estejam concentrados, por ora, nos centros urbanos, a preocupação com as populações indígenas do País, de norte a sul, faz com que organizações não-governamentais e órgãos de saúde indígena corram contra o tempo para blindar os povos tradicionais do vírus – que teria um potencial ainda mais grave frente a pessoas com baixa imunidade, costumes essencialmente coletivos e difícil acesso à saúde pública.

Até o momento, a Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) não registrou nenhum caso confirmado de coronavírus entre índios, informou a pasta a CartaCapital. Houve um caso suspeito – uma mulher que trabalhava durante o dia em um hotel em Porto Seguro, na Bahia, e voltava para a aldeia à noite -, mas ele foi descartado após o teste não apontar a contaminação.

A Sesai vinha emitindo documentos de alerta e orientação para as coordenações regionais em relação ao vírus desde o dia 28 de janeiro de 2020, mas foi somente na última terça-feira 17 que a Funai (Fundação Nacional do Índio) resolveu publicar um decreto que proíbe, desde então, a entrada de pessoas não autorizadas e necessárias nas terras indígenas.

De acordo com o secretário-chefe da Sesai, Robson Santos, a medida foi tomada após as autoridades perceberem a quantidade de turistas presentes em regiões de reserva. “Essa portaria saiu porque está lotado de estrangeiro. Tem turista, tem missionário, e a maioria é italiana, francesa    , justamente onde está o maior foco. Você imagina o que pode acontecer? Essa medida é para a proteção, não para o cerceamento dos indígenas”, argumenta Santos. 

Entre as orientações passadas da Sesai para as coordenações regionais, que são 34, estão as informações básicas de prevenção pela higiene e pedidos para que indígenas que estudem ou trabalhem fora da aldeia interrompam o movimento pendular para evitar um possível vetor dentro das tribos.

A portaria da Funai também regula as atividades de contato com comunidades isoladas, que estão todas suspensas até segunda ordem. Surgiram críticas, porém, sobre um trecho do texto que permite que a regra seja rompida caso uma “atividade essencial à sobrevivência do grupo isolado” apareça.

Robson explica que o texto foi assim editado para que as autoridades possam prestar auxílios aos índios isolados somente se eles procurarem ajuda por questões médicas, por exemplo. “O ministro [Luiz Henrique Mandetta, da Saúde] é radicalmente contra o contato com comunidades indígenas isoladas. Se eles estão isolados, eles precisam se manter no direito de não manter contato.”, diz o secretário. 

ONGs auxiliam a tirar dúvidas

Se o vírus se espalha rapidamente nas cidades, o seu efeito dentro de comunidades indígenas mais afastadas pode ser de letalidade muito maior. O médico sanitarista Eugênio Scannavino argumenta que o momento é de levar informações precisas e de linguagem adaptada sobre a prevenção a fim de evitar o pior.

“As comunidades indígenas são muito mais vulneráveis e suscetíveis a todas as viroses nossas porque eles têm menos exposição ao vírus. Qualquer gripe ataca todo mundo, então tem uma taxa muito maior de pneumonia e complicações. Todo cuidado é pouco.”, diz o médico.

Scannavino é fundador do Projeto Saúde & Alegria e navega com um barco-hospital, que presta atendimento médico a comunidades ribeirinhas e mais isoladas, pelo Rio Tapajós, no Pará. Conversando com a população local, o médico afirma que estão todos “assustados” e com receios de receberem pessoas de fora nas comunidades.

Barco Abaré, do Projeto Saúde e Alegria. A embarcação tem autorização da prefeitura e dos órgãos sanitários locais para levar atendimento médico a comunidades indígenas (Foto: Divulgação/PSA)

“Estamos em uma grande campanha educativa de prevenção, com os cuidados de higiene que já foram comentados, mas com uma linguagem bem simples e adaptada, para incentivá-los a lavar as mãos, ter cuidado com os mais velhos, e, caso alguém apresente algum sintoma, que fique em um local isolado”, diz o médico. 

Algumas dúvidas, porém, são específicas sobre o modo de vida de tribos indígenas, como o compartilhamento de objetos e o fumo do rapé, que é assoprado diretamente no nariz. Para isso, Leticia Leite, jornalista do Instituto Socioambiental, elaborou um podcast com a compilação de diversas respostas para as comunidades tradicionais. Segundo Leite, o programa chega a mais de 4.000 índios espalhados pelo Brasil.

“As dúvidas vão desde o que é o coronavírus e de onde veio, até se os rituais devem continuar, o que usar da medicina tradicional, opções para quem não tem máscara ou álcool. Também perguntaram se a gripe no organismo do índio é diferente do que no organismo do branco”, relata Letícia, que recebeu mais de 100 perguntas de lugares como o Vale do Jequitinhonha (Mg), Vale do Javari (AM) e do território indígena do Xingu no Mato Grosso.  

Para Eugênio Scannavino, o esforço é duplo porque a saúde na região, diz, é uma “emergência crônica”, e qualquer aumento nos casos de coronavírus poderia ser o pior dos cenários. Assim como em metrópoles do tamanho de São Paulo, o isolamento é a melhor maneira para evitar cruzar no caminho da Covid-19.

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