Esporte

“Só derrota” marca ano esportivo do país em campos, quadras e pistas

Em 2018, Brasil conviveu com resultados pífios, denúncias de corrupção e atos fascistas de torcedores, dirigentes e atletas

Neymar rolando no gramado é uma das principais imagens do esporte brasileiro em 2018 (Crédito: reprodução do Youtube) Neymar rolando no gramado é uma das principais imagens do esporte brasileiro em 2018 (Crédito: reprodução do Youtube)

Por Flavio Gomes*

Quando milhares de torcedores voltaram-se às tribunas do Itaquerão para xingar a presidenta Dilma Rousseff em junho de 2014, na abertura da Copa do Mundo, a camiseta amarela da CBF deixou de vez de representar um sentimento de paixão pelo futebol e por uma seleção. Na falta de uniforme melhor, a turba a adotou como símbolo de um movimento que culminaria com a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência do país, quatro anos depois.

Passada aquela Copa — e uma Olimpíada no Rio, e outro Mundial de futebol, este na Rússia –, o Brasil não se transformou na potência esportiva que imaginava. Colecionou fracassos e, salvo um triunfo isolado aqui e ali, continua sendo o que sempre foi: um gigantesco fiasco movido a vitórias circunstanciais que devem ser creditadas exclusivamente ao talento de alguns indivíduos — jamais a uma política voltada à prática e massificação do esporte como projeto de bem-estar e saúde da população.

O ano de 2018 foi assim. O país passou em branco em quase tudo, sem resultados expressivos nas principais modalidades e fechando sua temporada com a notícia de que o ministério dedicado ao esporte será extinto no próximo governo.

Para não dizer que o placar ficou zerado, e sendo bem rigoroso na avaliação, merecem destaque apenas duas conquistas. A primeira, do surfista Gabriel Medina, campeão mundial pela segunda vez. A outra, o ouro do quarteto Luiz Altamir, Fernando Scheffer, Leonardo Santos e Breno Correia no Mundial de natação em piscina curta na China, no revezamento 4x200m livre – com um inesperado recorde mundial.

Gabriel Medina é campeão mundial de surf pela segunda vez. Um dos poucos triunfos do esporte brasileiro em 2018 (Crédito: Fotos Públicas)

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A lista de derrotas, por sua vez, é vasta. Passa pela eliminação da seleção de Tite para a Bélgica nas quartas-de-final da Copa, em Kazan (Rússia), pela desclassificação dos times brasileiros para a decisão da Libertadores – os adeptos do ódio babaca aos argentinos ainda tiveram de engolir um Boca x River na final – e desemboca na ausência de jogadores do país na lista dos dez melhores do ano escolhidos pela Fifa. Neymar, presença constante entre os finalistas, fechou o ano como campeão de memes na internet e nada mais.

No meio disso tudo, merecem menção honrosa os paspalhos que foram à Rússia para assediar mulheres de várias nacionalidades, contribuindo para chamuscar ainda mais a imagem dos turistas brasileiros pelo mundo — muitos não podem ver uma vergonha pela frente que passam na hora.

No automobilismo, pela primeira vez desde 1970 nenhum piloto brasileiro alinhou no grid de uma corrida de Fórmula 1. No vôlei feminino, o sétimo lugar no Mundial do Japão foi o pior resultado do país desde 2002. No masculino, o time do técnico Renan Dal Zotto foi massacrado pela Polônia por 3 a 0 na decisão disputada em Turim.

Essa decisão, no final de setembro, aconteceu no auge da polarização política pré-eleição no Brasil. Semanas antes, Bolsonaro fora esfaqueado em Juiz de Fora (MG). Durante o período do campeonato, os jogadores brasileiros se divertiram nas redes sociais postando fotos com referências ao número 17, do então candidato, e fazendo o infame gesto da arminha com as mãos, atirando em seus inimigos virtuais e imaginários. Tal vigor bélico não se viu na partida contra os poloneses. Apáticos como cordeirinhos, levaram uma surra inesquecível na Itália.

Do vôlei também emergiu uma das mais ativas militantes de direita do país, a ex-jogadora Ana Paula Henkel – que vive nos EUA. Ela passou o ano ofendendo esquerdistas, petistas, comunistas, defensores dos direitos humanos, jornalistas, artistas e colegas com sua infeliz verborragia na internet e nas páginas do “Estadão”, jornal do qual se tornou colunista.

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Das pistas, uma enxurrada de mensagens vindas de pilotos de currículo medíocre e/ou desimportante festejou a vitória bolsonarista “contra tudo isso daí”. Mas chamou a atenção a sabujice do bicampeão Emerson Fittipaldi, que visitou o ex-capitão do Exército no hospital Albert Einstein, em São Paulo, e a ele fez declarações de apoio e fé. Bolsonaro e seu futuro ministro Paulo Guedes, é sabido, são defensores do que chamam de “Estado mínimo” – em que pese o fato de o ex-militar nunca ter trabalhado na vida fora da esfera pública — e ferozes críticos de programas governamentais de apoio à cultura e ao esporte. Alguns anos atrás, Emerson, aparentemente sem se importar muito com essas bobagens, inscreveu um projeto de financiamento da carreira de seu neto num programa de renúncia fiscal do Ministério do Esporte semelhante à Lei Rouanet.

Mas foi o futebol o esporte que fechou o ano com, digamos, chave de ouro nas demonstrações explícitas de apreço à Idade Média.

Campeão brasileiro, o Palmeiras convidou o presidente eleito, alegadamente torcedor da equipe, para levantar a taça em seu estádio. Bolsonaro, que semanas antes deixara de participar dos debates na TV por ordem médica – não podia ficar mais de duas horas num recinto fechado com ar-condicionado por causa de sua bolsa de colostomia –, ergueu o troféu alegremente e só não fez o mesmo com Felipão por conta do peso corporal do treinador gaúcho que, em entrevistas, já havia revelado sua admiração pelo carniceiro chileno Augusto Pinochet.

O ano terminou com a denúncia, em Porto Alegre, de que ex-dirigentes do Internacional desviaram milhões de reais do caixa do clube para fins pessoais. No Rio Grande do Sul, o candidato que se elegeu pelo WhatsApp, com um discurso contra a corrupção, teve 63,24% dos votos.

Tal país, tal esporte.

*  Flavio Gomes é jornalista e comentarista do canal Fox Sports

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