StudioCarta
Sistema de saúde inclui idosos, não exclui
Por Gustavo Ribeiro, Presidente Da Associação Brasileira De Planos De Saúde (Abramge)
Poucos setores da economia brasileira são tão complexos quanto a saúde. Ainda assim, muitas discussões sobre o tema acabam conduzidas por percepções consolidadas ao longo do tempo, nem sempre sustentadas pelos fatos. Uma delas é a ideia de que os planos de saúde excluem os idosos. Os dados mostram justamente o contrário.
Estudo recém-divulgado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS), elaborado a partir de metodologia amplamente reconhecida pelo mercado, revela que o número de beneficiários com mais de 59 anos cresceu 3,1% nos últimos doze meses. O contingente passou de 8,45 milhões para 8,71 milhões de pessoas. Trata-se de um crescimento superior ao registrado pelo conjunto de beneficiários da saúde suplementar no mesmo período, que foi de 1,6%.
Os números confirmam algo que defendo desde que assumi a presidência da Abramge, em 2024. O desafio da saúde suplementar não está na inclusão dos idosos. Ao contrário. O envelhecimento da população impulsiona o desenvolvimento de empresas com modelos assistenciais voltados especificamente para esse público, com foco em prevenção, coordenação do cuidado, acompanhamento contínuo e promoção da qualidade de vida.
A desconstrução da inverdade de que os planos excluem idosos não significa que não existam problemas de acesso geral. Não só existem, como também ajudam a explicar por que os planos de saúde ainda permanecem distantes de uma parcela importante da população brasileira. A dificuldade de ampliar a base de beneficiários está ligada principalmente a questões estruturais que afetam todo o sistema.
Entre elas, destaco três. Uma delas é o avanço das fraudes, que provocam perdas bilionárias e elevam custos para todo o mercado. Outra é a atuação crescente de empresas que oferecem produtos de assistência à saúde semelhantes aos planos, mas sem estarem submetidas às mesmas exigências regulatórias. E, por fim, a insegurança jurídica, que contribui para o aumento da judicialização e gera impactos significativos sobre a previsibilidade e a sustentabilidade do sistema.
Segundo estimativas de entidades do setor, as fraudes já representam prejuízos da ordem de R$ 30 bilhões. Ao mesmo tempo, empresas que operam fora do marco regulatório tradicional já atendem cerca de 60 milhões de brasileiros. No campo jurídico, o crescimento das ações judiciais contrasta com indicadores de satisfação dos próprios usuários. Levantamento do IESS apontou índice de aprovação de 85% entre os beneficiários da saúde suplementar em 2025.
Os desafios são conhecidos, mas também é importante reconhecer que há iniciativas concretas em andamento para enfrentá-los.
Denúncias apresentadas por operadoras e beneficiários têm contribuído para desarticular organizações que exploram práticas fraudulentas, como reembolsos sem atendimento e cobranças superfaturadas. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) abriu consulta pública e iniciou estudos para compreender melhor o mercado de cartões de desconto, etapa importante para avaliar eventuais avanços regulatórios que precisam ser construídos com regras similares às dos planos. No Judiciário, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) vem conduzindo iniciativas voltadas à redução da litigiosidade, incluindo o recente acordo de conciliação firmado com o Ministério da Saúde e entidades representativas do setor.
Mas ainda há muito o que ser feito. O trabalho para garantir a sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro é uma prioridade da Abramge, que é a representante legítima de 135 operadoras de grande, médio e pequeno porte, e continua intenso. Reforço que seguimos com a máxima disposição para um diálogo franco e construtivo com formadores de políticas públicas em saúde em prol do acesso de mais brasileiros à saúde.