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O fruto da energia
Nativa do Brasil, a Macaúba transforma pastagens degradadas em produtivas e abre caminho para combustíveis que reduzem emissões em até 80%, se comparados aos tradicionais
A macaúba, conhecida em várias regiões do país por nomes como bocaiúva e coco-de-espinho, é uma espécie nativa que oferece óleo de alta qualidade em todo seu fruto – da polpa ao caroço – e apresenta produtividade até dez vezes superior à da soja por hectare.
A planta não é nova no Brasil. Há décadas, comunidades rurais de estados como Minas Gerais, utilizam seus frutos para produzir sabão e outros produtos. Mas a escala sempre foi pequena, limitada à coleta manual em áreas silvestres.
Estudos acadêmicos, desde a década de 1990, indicavam seu potencial para combustíveis renováveis, mas faltava tecnologia de domesticação e investimentos para transformar essa planta nativa em cultura agrícola escalonável.
A Acelen Renováveis assumiu a dianteira ao projetar o cultivo de macaúba em 180 mil hectares, sendo 80% pela Acelen, e 20% em parceria com agricultores familiares. O modelo inclui arranjos produtivos consorciados com feijão, mandioca, café e cacau, permitindo que o agricultor tenha renda extra ao longo do ano e a compra total do plantio garantida pela Acelen. Além do óleo destinado à produção de combustível sustentável de aviação (SAF) e diesel renovável (HVO), a planta oferece subprodutos, garantindo aproveitamento integral da cadeia.
Cultura
O ciclo produtivo da macaúba também chama a atenção. Diferente da soja ou do milho, que exigem plantio e colheita anuais, a planta é perene: uma vez estabelecida, pode produzir frutos por mais de 30 anos, reduzindo custos e pressão por abertura de novas áreas. Isso favorece a regeneração de solos degradados, ao mesmo tempo em que cria áreas produtivas permanentes, capazes de capturar até 60 milhões de toneladas de CO₂ ao longo de seu ciclo.
Outro diferencial é a versatilidade. O óleo da polpa é rico em ácidos graxos de cadeia média, semelhante ao óleo de coco, com alto valor para indústrias química e cosmética. Já o óleo da amêndoa é adequado para combustíveis avançados. Essa combinação multiplica o valor agregado da cultura, além de reduzir a dependência de importações de matérias-primas hoje usadas nesses setores.
Um estudo da FGV aponta que, em escala plena, a cadeia da macaúba pode gerar até 85 mil empregos e movimentar US$ 40 bilhões na economia brasileira nos 10 anos do projeto. O impacto se dá pela produção agrícola, industrial e também pela integração de pequenos produtores e comunidades locais, em especial no semiárido e no cerrado, onde a planta tem as condições ideais de desenvolvimento.
A macaúba reúne em si três dimensões que raramente caminham juntas: regeneração ambiental, inclusão social e viabilidade econômica. De planta silvestre a cultura agrícola, ela simboliza um novo ciclo em que ciência, tradição e inovação operam em conjunto.
O que antes era fruto disperso, agora pode garantir a liderança do Brasil em combustíveis de baixo carbono, oferecendo ao mundo uma alternativa em setores onde as soluções ainda são limitadas. Mais que energia, a macaúba aponta para um futuro em que a biodiversidade brasileira alimenta caminhos de inovação.
Credito da foto: DMTZ