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O Brasil que planta e colhe
Crédito, produção e renda se articulam para retirar o País do Mapa da Fome e reconstruir a vida de quem planta
Os ciclos de um país nem sempre seguem o ritmo do calendário, às vezes avançam como um plantio que desafia estiagem, outras vezes se arrastam como quem tenta recompor o que faltou no prato. O Brasil conviveu com essas duas imagens nos últimos anos, até reencontrar um rumo capaz de unir produção, renda, trabalho e a ideia de que direitos podem materializar-se no cotidiano de quem vive nas cidades e no campo.
O retorno ao Mapa da Fome, registrado pela agência da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO), no triênio
2019–2021, expôs a fragilidade que se acumulou na teia de proteção social do País. Voltamos a ver famílias reduzindo refeições, escolas enfrentando maior pressão sobre a merenda e agricultores familiares lidando com um mercado incerto. Quando o governo do Brasil decidiu recolocar a comida como prioridade da agenda nacional, a decisão era de reconstruir políticas que garantiam renda e fortalecer quem produz o alimento de base que chega às mesas.
Dois anos depois de voltar ao Mapa da Fome, o cenário mudou. O Brasil saiu novamente com a média 2022–2024 abaixo de 2,5% no indicador de subalimentação. A FAO registrou o movimento, mas os sinais dessa mudança já estavam espalhados por políticas públicas, programas sociais, escolas abastecidas, sistemas de compras públicas e números do crédito agrícola. O percurso indica que o País já havia alcançado esse patamar em 2014, enfrentou retrocessos nos anos seguintes e voltou a estruturar políticas públicas de caráter continuado.
A agricultura familiar sempre sustentou a produção dos alimentos mais consumidos no País: feijão, arroz, mandioca, milho, leite e hortaliças. Boa parte desse abastecimento nasce de pequenas propriedades. O que faltava, nos últimos anos, era um ambiente minimamente estável, com crédito acessível, juros mais baixos e apoio técnico. A volta desse arcabouço é o que explica o tamanho do Plano Safra destinado a esse segmento.
Para a safra 2025–2026, o governo do Brasil reservou 89 bilhões de reais destinados à agricultura familiar. É o maior volume da história do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), com destaque para 78 bilhões de reais em crédito e 3,7 bilhões de reais em compras públicas, além de recursos para Garantia-Safra, Proagro Mais e assistência técnica. O desenho dessas ações priorizou a produção de alimentos básicos, sistemas agroecológicos, famílias chefiadas por mulheres, jovens do campo e povos tradicionais.
Agricultores endividados por recentes tragédias climáticas passaram a conviver com um cenário de juros menores para custeio e investimento. Projetos de agroindústria, armazenagem e modernização de equipamentos ganharam novo fôlego. A cadeia da sociobiodiversidade, que reúne extrativistas da Amazônia, castanheiras, seringueiros e comunidades tradicionais, teve recomposição de preços mínimos e estímulos para ampliar renda.
É uma engrenagem que liga quem produz a quem precisa comer, sem a intermediação que costuma encarecer os alimentos
Desde 2023, mais de 5,4 milhões de contratos do Pronaf foram firmados por agricultores familiares, totalizando mais de 186 bilhões de reais. Esse volume mostra a retomada do crédito de pequeno porte, que voltou a irrigar cooperativas, hortas comunitárias, agroindústrias e propriedades de até quatro módulos rurais.
Na ponta mais delicada da política estão os programas de compras públicas. O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) voltou a ocupar seu espaço como instrumento de abastecimento e de segurança alimentar. Entre 2023 e novembro de 2025, quase 332 milhões de quilos de alimentos foram adquiridos de agricultores familiares. Esses produtos abastecem cozinhas solidárias, escolas, hospitais, abrigos e redes de assistência. É uma engrenagem que liga quem produz a quem precisa comer, sem a intermediação que encarece os alimentos.
Nos anos recentes, muitos municípios perderam estrutura para manter compras regulares de alimentos da agricultura familiar. A retomada dessa política colocou as escolas novamente como pontos de conexão entre o campo e a cidade. Em 2025, o PNAE atendeu 39 milhões de estudantes, com regras que ampliam o uso de alimentos in natura e reduzem os ultraprocessados nos cardápios escolares.
Nas escolas, o impacto aparece em cada detalhe. Os repasses federais ao PNAE alcançaram mais de 5,5 bilhões de reais em 2025, valor que manteve a regularidade das entregas e ampliou a compra de produtos da agricultura familiar em milhares de municípios. Neste ano, o governo do Brasil anunciou um reajuste da alimentação escolar, que acumula 55% em relação a 2022, reforçando o compromisso com a merenda de qualidade.
Mais do que compor o cardápio, essa presença constante de produtores locais garante um mercado estável. Em regiões do Semiárido, onde as cisternas voltaram a ser entregues, com mais de 1,19 milhão de unidades somando consumo, produção e escolas, a água permitiu recuperar hortas, quintais produtivos e pequenas criações. Programas de fomento rural acompanharam esse movimento, apoiando 48 mil famílias desde 2023.
Em muitas comunidades do sertão, a chegada da cisterna mudou o ritmo dos dias. Na primeira chuva mais longa, a água bate no plástico preto da cobertura e o som ecoa como promessa. É quando famílias voltam a plantar coentro, tomate, feijão-de-corda e a criar galinhas que garantem o alimento das próximas semanas.
Essa costura territorial explica por que o combate à fome não depende apenas de renda. Depende de redes que aproximam produção, distribuição e acesso. O programa Brasil Sem Fome organizou em três eixos que, resumidamente, tratam de renda e cidadania; alimentação saudável da produção ao consumo; e mobilização social. Com isso, a política passou a atuar simultaneamente em Bolsa Família, agricultura familiar, educação alimentar, abastecimento, assistência e governança federativa.
A nova medição da FAO vai além dos números, ela conta um percurso que combinou políticas implantadas em diferentes áreas. Entre 2022 e 2024, cerca de 11 milhões de pessoas deixaram a insegurança alimentar severa e outras 18 milhões superaram a insegurança moderada ou grave, segundo a Escala de Experiência de Insegurança Alimentar (FIES, na sigla em inglês).
O Plano Safra ampliou esse redesenho ao investir na base de quem alimenta o País, reforça a soberania sobre o que produzimos e ajuda a construir uma economia mais estável. O Brasil saiu do Mapa da Fome, mas, mais do que isso, voltou ao mapa das escolhas que fazem sentido para a vida de quem trabalha, planta, cria filhos, estuda, empreende e resiste. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Brasil que planta e colhe’