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Fotos: Lyon Santos/ MDS

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Inclusão que atravessa gerações

De filhos de agricultores a advogados, professores e empreendedores: como o Bolsa Família mudou a história de milhões de brasileiros

Apoio do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social

Na pequena Guaribas, interior do Piauí, a infância de Eraques Alves foi marcada por uma rotina de desafios. Aos oito anos, já ajudava os pais na lavoura de feijão e mandioca. A escola funcionava em casas emprestadas por vizinhos, com aulas ao ar livre ou em cômodos improvisados. 

O tempo avançou, a cidade permaneceu a mesma e Eraques seguiu outro caminho. Mais de vinte anos depois, ele administra sua própria loja de informática na cidade onde nasceu. Formado em Tecnologia da Informação por uma universidade em São Paulo, voltou para Guaribas com o propósito de criar oportunidades para os jovens da sua terra.

Histórias como a dele são retratos de uma mudança social que vem se desenhando em diferentes cantos do país desde 2003. O Bolsa Família, que nasceu como uma resposta à fome, evoluiu para se tornar uma política pública que atravessa gerações, criando caminhos de mobilidade social. Eraques lembra com clareza do impacto que o programa teve sobre sua família. “Quando o cartão chegou, muita coisa mudou. A gente passou a ter o básico. E o básico faz diferença quando não se tem nada”, conta.

Ana Carolina Oliveira guarda lembranças parecidas. Durante a infância, o almoço muitas vezes era apenas biscoito com refrigerante. Foi o Bolsa Família que permitiu à mãe dela comprar um botijão de gás e colocar comida de verdade na mesa. Anos depois, Ana Carolina se formou em Direito. Hoje trabalha na Consultoria Jurídica do Ministério do Desenvolvimento Social. Entre os projetos que analisa, está justamente a gestão do Bolsa Família. “A vida toda moramos de aluguel ou na casa de parentes. Hoje, formada, trabalho para realizar o sonho de comprar uma casa para minha mãe”, diz.

Em Triunfo, no interior da Paraíba, Sergio Lopes cresceu em uma casa sem geladeira, sem televisão e com cadernos divididos entre os irmãos. Quando o benefício começou a chegar, a comida deixou de faltar. O material escolar deixou de ser um luxo. Sergio terminou os estudos, mudou-se para Brasília e hoje é servidor público. Atua na Ouvidoria do Ministério do Desenvolvimento Social, atendendo pessoas que vivem as mesmas dúvidas e dificuldades que a família dele enfrentou no passado. “A fome tem pressa. Só quem passa por ela sabe como é”, resume.

Foto: Lyon Santos/ MDS

O novo desenho do Bolsa Família

Após vinte anos de sua implantação, em 2023, o programa passou por uma reestruturação que ampliou o alcance e a proteção oferecida às famílias. O chamado Novo Bolsa Família reformulou os valores, as regras de permanência e as condicionalidades. Hoje, cada integrante da família tem direito a R$ 142. Há um mínimo de R$ 600 por núcleo familiar, além de adicionais de R$ 150 para crianças de zero a seis anos e de R$ 50 para gestantes, nutrizes e jovens entre 7 e 18 anos.

O conceito de “Regra de Proteção” também foi implementado para garantir estabilidade durante a transição ao mercado de trabalho. Famílias que conseguem elevar a renda para até meio salário mínimo por pessoa continuam recebendo parte do benefício por até dois anos. O objetivo é evitar a queda abrupta da renda no momento em que a família dá seus primeiros passos rumo à autonomia.

Outro avanço importante foi a intensificação da busca ativa. Entre março de 2023 e março de 2024, mais de 3,1 milhões de novas famílias foram incluídas no programa. Equipes do Sistema Único de Assistência Social passaram a atuar de forma mais incisiva nas áreas de difícil acesso, alcançando desde comunidades rurais isoladas até famílias em situação de rua nos grandes centros urbanos.

O novo desenho também fortaleceu as exigências em educação e saúde. Crianças e adolescentes precisam estar matriculados e frequentando a escola. A vacinação deve estar em dia e as gestantes precisam fazer o pré-natal regularmente. Essas condicionalidades funcionam como uma rede de proteção que acompanha as famílias em vários aspectos da vida.

Educação, trabalho e cidadania

Os impactos desse conjunto de ações aparecem com força nas trajetórias das famílias beneficiárias. Em Caruaru, Pernambuco, Francismeire Melo encontrou no Bolsa Família o apoio que precisava para reorganizar a vida após enfrentar violência doméstica e vulnerabilidade extrema. O benefício garantiu o básico para os filhos enquanto ela buscava capacitação profissional. Com o tempo, Francismeire virou microempreendedora e hoje mantém um negócio próprio de cosméticos artesanais.

No Rio Grande do Norte, Kellison Rocha, que passou a infância ajudando os pais na agricultura, concluiu o curso de Administração Pública e se tornou gestor do próprio Bolsa Família no município onde vive. A irmã dele, Karla Klennya, formou-se técnica em informática e hoje trabalha em São Paulo, na área de tecnologia.

Os resultados também aparecem nos números. Segundo o Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social, 64% dos jovens que cresceram em famílias beneficiárias conseguiram sair do Cadastro Único em menos de 15 anos. Mais de 5 milhões ingressaram no mercado formal de trabalho. A Fundação Getúlio Vargas aponta avanços na escolaridade e na renda das novas gerações. O Banco Mundial calcula que, nas regiões mais pobres, o programa movimenta até 2,16% do PIB local, impulsionando o comércio e os pequenos negócios.

Por trás desses números está uma estrutura de gestão que envolve mais de cinco mil municípios, com técnicos que atualizam cadastros, acompanham condicionalidades e garantem o pagamento dos benefícios. O Governo Federal, os estados e os municípios compartilham responsabilidades na execução do programa.

Isamara Mendes, filha de feirantes da Bahia, resume o sentimento de quem viveu essa transformação por dentro. Quando viu a mãe ser aprovada no Bolsa Família, ainda em 2003, ela tinha 10 anos e sonhava com uma vaga na universidade. Hoje, com o título de doutora em Ciências Biológicas, olha para o passado com a certeza de que o programa foi o primeiro passo de uma longa travessia.

Histórias como a dela, de Eraques, de Ana Carolina e de Sergio mostram o alcance de uma política que virou parte do tecido social brasileiro. O Novo Bolsa Família segue ampliando esse legado.

 De Norte a Sul do país, a cada geração, o programa reforça a mesma ideia: a dignidade não é um privilégio, mas um direito.

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