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A Japanese woman teacher writes on the blackboard in her classroom

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Entre sonhos e necessidades, Pé-de-Meia dá suporte ao futuro de milhões de estudantes

Programa garante apoio financeiro, amplia oportunidades e aproxima jovens do ensino médio de sonhos que antes pareciam distantes

Apoio Secom

Os corredores do ensino médio brasileiro carregam histórias que raramente chegam aos discursos oficiais. São trajetórias marcadas por sonhos que convivem com urgências, por planos que tentam sobreviver às necessidades do presente, por jovens que avançam carregando expectativas próprias e responsabilidades que, muitas vezes, ultrapassam a idade que têm. A escola, nesse período da vida, torna-se um lugar onde o futuro começa a ganhar forma, mas também um espaço onde o peso da realidade econômica das famílias se impõe com força.

Entre a vontade de seguir estudando e a exigência de contribuir com a renda de casa, muitos adolescentes se veem obrigados a largar a escola. É uma contradição antiga, o mesmo país que exige mais escolaridade para oferecer oportunidades é o que tantas vezes empurra seus jovens a interromper os estudos. E é nesse ponto exato, onde o projeto de vida disputa espaço com a sobrevivência cotidiana, que o Pé-de-Meia passa a atuar como uma política pública transformadora.

Criado pelo Governo do Brasil para garantir apoio financeiro contínuo aos estudantes da rede pública, o programa nasce da convicção de que ninguém deveria abandonar a escola porque falta dinheiro para seguir estudando. Dessa premissa foi desenhada uma poupança vinculada à presença escolar, que acompanha o estudante ao longo dos três anos do ensino médio e devolve dignidade a escolhas que antes pareciam fora de alcance.

Desde 2024, foram 5,6 [VF1] milhões de alunos já beneficiados. Em dois anos, a taxa de abandono escolar caiu 43%, enquanto a de reprovação recuou 33%. O alcance expressivo resulta de um mecanismo simples, apoiado em bases públicas de dados. As redes estadual, distrital e municipal enviam informações de matrícula e frequência ao Ministério da Educação, que cruza esses dados com o Cadastro Único e autoriza a Caixa Econômica Federal a abrir, automaticamente, contas digitais em nome dos jovens aptos.

Ao estudante, cabem as seguintes tarefas: matricular-se na rede pública – no ensino regular ou na Educação de Jovens e Adultos (EJA) –, manter a frequência mínima de 80% às aulas e concluir o ano letivo com aprovação. Ao Estado, cabe o restante, e é justamente essa divisão de responsabilidades que torna o programa tão eficaz. Não há inscrição, fila, nem pedido formal: quem tem direito entra, quem cumpre os requisitos recebe.

O incentivo financeiro é distribuído em formatos diferentes ao longo do ano: são até dez parcelas, sendo 200 reais de matrícula, 200 reais mensais por frequência, mais 1.000 reais pela conclusão de cada ano com aprovação e 200 reais extras para estudantes no último ano do ensino médio que fazem os dois dias do Enem. Se o jovem permanecer na escola durante todo o ciclo, pode acumular até 9.200 reais, valor que funciona como colchão financeiro e como ferramenta de autonomia para planejar os próximos passos.

Mas é no cotidiano que esse dinheiro ganha sentido. Em Brasília, Danilo Belchior, 17 anos, descobriu apenas em 2025 que já recebia o benefício desde o ano anterior. Em 2024, trabalhava à noite para ajudar a família e tentava ajustar o estudo ao emprego. Com o programa, reorganizou o tempo e passou a dedicar-se ao Enem. “Agora consigo focar nos estudos sem precisar correr atrás de trabalho”, contou. A frase sintetiza que não é o valor isolado que transforma a rotina, mas o alívio que ela produz.

A alguns metros dali, no mesmo colégio, Hosana D’Paula, também de 17 anos, decidiu não sacar nada. Abriu a consulta do Pé-de-Meia, viu o saldo e escolheu guardar para estudar para o PAS 3, um dos processos seletivos para entrada na Universidade de Brasília. “Vou juntar para quando chegar a hora da prova”, explicou. Para ela, a poupança do ensino médio é uma porta de acesso a oportunidades que antes pareciam distantes.

Esses relatos refletem mudanças que se espalham pelo país. Em estados como Espírito Santo e Rio Grande do Norte, educadores registram aumento da presença nas aulas e maior engajamento com o Enem entre beneficiários do programa. Em regiões rurais, famílias afirmam que o incentivo mensal garante transporte e alimentação adequados para que os jovens permaneçam estudando. Em comunidades indígenas e quilombolas, professores relatam que a poupança estudantil fortalece a permanência das meninas na escola, especialmente no 2º e 3º ano.

O Governo do Brasil complementa o incentivo financeiro com uma política pedagógica, a estratégia Rumo Certo, criada para monitorar estudantes vulneráveis à evasão, melhorar os sistemas de dados e apoiar redes de ensino com formação e acompanhamento. A Renapem, rede nacional do programa, conecta MEC, secretarias estaduais e profissionais de educação, criando uma governança colaborativa. O resultado é uma política que não depende apenas do repasse financeiro, mas de uma articulação institucional que envolve escolas, famílias, professores e comunidades.

Essa integração expressa o posicionamento do governo federal de colocar o cidadão no centro das políticas públicas, orientar decisões pelo interesse coletivo e transformar direitos constitucionais, como educação e dignidade, em práticas concretas. O Pé-de-Meia funciona como peça de uma estratégia maior, que inclui fortalecimento econômico, combate à desigualdade, ampliação das oportunidades e reconstrução da capacidade do Estado de atender a população.

Os desafios ainda existem, é preciso qualificar os processos de coleta de dados, ampliar a comunicação com estudantes e manter a regularidade de dados enviados pelas escolas. Mas o programa se consolidou como um instrumento capaz de reorganizar trajetórias e devolver aos jovens a possibilidade de escolher seu caminho.

A cada mês de presença registrado, a cada ano letivo concluído, o Pé-de-Meia reafirma a mensagem de que o Brasil pode ser um país onde estudar é um direito exercido com dignidade. Ao fortalecer a permanência escolar, o governo amplia oportunidades, estimula a mobilidade social e contribui para um futuro em que mais jovens cheguem ao ensino superior, à formação técnica, ao emprego ou ao empreendedorismo.

No fim das contas, se trata de permitir que os jovens construam seus projetos de vida apoiados pelo Estado, e não apesar dele. O Pé-de-Meia já mostra a que veio: quando o país cuida dos seus estudantes, os estudantes cuidam do futuro do país.

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