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É urgente olhar para médias e pequenas operadoras de saúde
Por Gustavo Ribeiro, Presidente Da Associação Brasileira De Planos De Saúde (Abramge)
Tomo emprestado um conceito da literatura educacional e filosófica do século XX para lançar luz não sobre mais um desafio da saúde suplementar, mas sobre a origem de muitos deles. A chamada miopia epistemológica descreve a limitação de enxergar a realidade apenas a partir de uma única teoria ou conjunto de dados imediato, o que produz diagnósticos parciais e, não raro, conclusões equivocadas. Esse vício é recorrente nas análises sobre o setor de planos de saúde no Brasil.
Pela sensibilidade social que envolve o cuidado em saúde e pela compreensão ainda insuficiente sobre o funcionamento do sistema, a saúde suplementar é frequentemente vilanizada por agentes formadores de opinião. Atribui-se ao setor uma lógica predominantemente mercantil, em detrimento de seu compromisso assistencial. Para sustentar essa narrativa, recorre-se a números produzidos por instituições de alta credibilidade, o que, não está em questão. O problema reside na forma como esses dados são interpretados: parte-se da premissa de que o mercado é homogêneo, como se as mais de 600 operadoras com beneficiários ativos compartilhassem a mesma realidade operacional e financeira.
Os próprios números desmentem essa simplificação. Operadoras com mais de 1 milhão de beneficiários representam apenas 0,9% do total de empresas em atividade. Ainda assim, seus resultados costumam ser tomados como parâmetro para caracterizar todo o setor. Do ponto de vista estatístico, essa extrapolação não se sustenta. Há, inclusive, um agravante metodológico: pelos critérios atualmente adotados, são classificadas como “grandes” operadoras empresas que atendem desde 100 mil até vários milhões de vidas, uma faixa ampla demais para permitir comparações consistentes. A homogeneização, nesse caso, não é apenas imprecisa, ela é enganosa.
Essa distorção se aprofunda quando a análise se volta aos resultados financeiros. O painel econômico-financeiro mais recente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), divulgado em dezembro de 2025, informa que o setor, nos números agregados, registrou lucro líquido de 17,2 bilhões de reais de janeiro a setembro, aumento de 115% em relação ao mesmo período anterior. O dado é real, mas incompleto. Um recorte adicional e essencial para compreender o quadro aponta que praticamente metade (49,2%) das operadoras de planos de saúde operam no vermelho.
Ignorar essa heterogeneidade não é um erro neutro. Uma leitura superficial dos dados põe em risco a sustentabilidade de um conjunto relevante de operadoras, em especial as médias e pequenas, que cumprem papel fundamental na interiorização do atendimento, na oferta de planos regionais e na ampliação do acesso à saúde suplementar. Avanços recentes indicam uma mudança de direção, com esforços da ANS para analisar o setor a partir de agrupamentos mais homogêneos e comparáveis. Ainda assim, há um longo caminho a percorrer não apenas no campo regulatório, mas também na legislação e na forma como o Poder Judiciário aprecia as demandas que envolvem planos de saúde.
Sem esse olhar mais refinado, continuaremos a produzir diagnósticos equivocados e soluções que aprofundam os desequilíbrios do sistema em vez de corrigi-los.