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Descansar também é produzir
Produtividade sustentável depende menos de intensidade contínua e mais da alternância entre o esforço e a recuperação
Há um ruído permanente que atravessa o dia, que não é o barulho da rua nem o alerta do celular, é algo mais difuso e persistente, uma sensação de que sempre existe algo por concluir, uma tarefa que poderia ter sido adiantada, uma resposta que não deveria esperar, ou um e-mail para ser lido.
E assim o relógio deixa de medir o tempo vivido para medir o tempo produtivo, como se cada intervalo precisasse ser justificado. Quando o descanso é confundido com falha, a pausa, que deveria integrar o ritmo do trabalho, é vista como perda de eficiência.
A ideia de que descansar é o oposto de produzir ganhou força com a cultura que celebra jornadas extensas e disponibilidade contínua, mas essa oposição é artificial. O trabalho intelectual, que hoje ocupa grande parte das atividades econômicas, depende de clareza de julgamento, memória organizada e capacidade de síntese, e essas qualidades não se mantêm sob pressão permanente.
O cérebro humano não opera em fluxo contínuo de alta intensidade, ele alterna concentração e recuperação, foco e distanciamento, e é nessa alternância que digerimos informações e amadurecemos as decisões. Interromper o ciclo de esforço não interrompe o pensamento, ao contrário, cria condições para que ele se torne mais consistente.
A economia do cansaço, sustentada por um modelo 24/7, tenta neutralizar esse modelo natural. A tecnologia encurtou prazos, ampliou a conectividade e eliminou muitos limites formais entre jornada e vida pessoal, o que trouxe ganhos de velocidade, mas também instituiu um padrão de alerta permanente. Trabalha-se no deslocamento, no intervalo para almoço e na hora que deveria ser de descanso, e mesmo quando o corpo para, a mente permanece em estado de prontidão. Em vez de produção qualificada, o que sobre é desgaste acumulado e decisões apressadas.
O ponto que raramente se reconhece é que o descanso não é um intervalo tolerado entre duas fases de esforço, ele faz parte do próprio desenho do desempenho. Não são pequenas pausas ao longo do dia, mas também de períodos mais amplos, como fins de semana vividos sem culpa ou férias que não sejam uma extensão remota do escritório. O trabalho precisa desse distanciamento para se reorganizar. A mente, quando encontra espaço, revê problemas sob outra luz, relativiza urgências e devolve proporção ao que antes parecia inadiável.

Há uma diferença importante entre estar permanentemente ocupado e produzir com qualidade. A ocupação constante cria sensação de utilidade, mas não assegura avanço consistente. O descanso, sobretudo aquele que permite real desconexão, devolve a perspectiva. É comum que ideias amadureçam durante uma caminhada despretensiosa, numa conversa sem pauta, ou mesmo em dias mais lentos em que o corpo desacelera e a mente acompanha esse ritmo. A clareza raramente nasce sob pressão máxima, mas costuma surgir quando a tensão diminui.
Do ponto de vista econômico, o custo do esgotamento não aparece de imediato, mas na perda de criatividade, na dificuldade de concentração e na queda gradual de engajamento. Sustentar desempenho ao longo do tempo exige reconhecer que energia cognitiva não é um recurso infinito.
Há também algo mais simples nessa linha de pensamento. Descansar permite lembrar por que se trabalha. O tempo livre amplia repertório, alimenta interesses que não têm finalidade imediata e oferece experiências que enriquecem o próprio olhar profissional.
O sociólogo italiano Domenico De Masi sugeriu que é nesse espaço aparentemente improdutivo que trabalho, estudo e prazer intelectual produzem algo novo, uma forma de elaboração que não se submete ao relógio. Um livro lido sem obrigação, uma viagem breve, dias de férias em que o tempo volta a ser vivido e não contabilizado, tudo isso recompõe o senso de direção. O ‘ócio criativo’ não é uma fuga do trabalho, mas o deslocamento necessário para ganhar densidade.
Talvez o equívoco da cultura 24/7 esteja em associar intensidade a comprometimento. Comprometer-se inclui cuidar das condições que tornam o trabalho possível, e entre essas condições está o descanso real.
Ao reconhecer a pausa como parte do processo, cria-se uma relação mais sustentável com o próprio ritmo. Produzir com consistência, ao longo dos anos, depende menos de aceleração e mais da capacidade de alternar esforço e recuperação com inteligência.