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País tem 102 milhões de pessoas trabalhando, maior número já registrado – Imagem: istockphoto

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Caminhos da retomada

Com trabalho, renda e proteção social, o Brasil reencontra caminhos que sustentam um futuro possível e mais estável

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Os ciclos econômicos contam histórias que nem sempre se revelam logo de cara. A última década deixou marcas que ainda estão sendo medidas, como recessão, desemprego elevado, perda de renda e a pandemia da Covid-19, que interrompeu ciclos e mudou a vida social e econômica do País. Foi um período no qual a sensação de avanço coletivo se esvaziou, substituí­da por sucessivas tentativas de recompor o cotidiano. Os efeitos acumulados desse período ainda moldam o cotidiano, mas começam a dividir espaço com sinais consistentes de mudança. A taxa de desemprego caiu ao menor nível desde o início da série histórica, o número de trabalhadores com carteira assinada atingiu patamar inédito e a massa de rendimento do trabalho bate recordes sucessivos.

Paralelamente, pesquisas revelam que famílias historicamente dependentes de políticas de transferência de renda começam a se distanciar da linha de pobreza. O estudo Filhos do Bolsa Família, da Fundação Getulio Vargas em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, mostrou que, ao longo dos últimos dez anos, seis em cada dez beneficiários deixaram o programa.

O conjunto desses movimentos delineia uma inflexão que não se explica por um único fator, mas que resulta da combinação entre o funcionamento do mercado de trabalho, a expansão de políticas públicas e o reencontro do País com instrumentos capazes de sustentar a retomada social.

Trabalho, renda e o retorno da estabilidade possível

A queda do desemprego sintetiza a força da recuperação recente. O País alcançou em 31 de janeiro de 2026 a marca de 102,7 milhões de pessoas ocupadas, o maior contingente já registrado, segundo o IBGE. A ampliação do emprego não ocorreu somente em quantidade. Sua qualidade também mudou. Segundo o Caged, o número de trabalhadores com carteira assinada ultrapassou 48,5 milhões, patamar que não se observava desde o início da década passada.

No meio desse ambiente se inserem políticas como o Imposto de Renda Zero para quem ganha até 5 mil reais, com desconto progressivo para a faixa entre 5 mil e 7.350 reais.

Um país que se reorganiza

A melhora nos indicadores de emprego não explica, isoladamente, a mudança em curso. Eles funcionam como base de um processo mais amplo, em que políticas públicas reencontram coerência e presença territorial.

A infraestrutura digital também se tornou elemento protagonista. O Pix, desenvolvido pelo Banco Central, consolidou-se como a principal infraestrutura de pagamentos do País. O sistema reduziu custos operacionais, ampliou a velocidade das transações e reorganizou a circulação de recursos, especialmente entre pequenos negócios, trabalhadores autônomos e consumidores.

A formalização recorde do trabalho devolve previsibilidade à renda e reorganiza o cotidiano de milhões de famílias

Outro ponto que compõe esse ambiente é a saída do Brasil, novamente, do mapa da fome. O indicador traduz a combinação de transferência de renda, acesso a alimentos, recomposição de políticas de segurança alimentar, recuperação da oferta agrícola e maior estabilidade do mercado de trabalho. É um avanço que se manifesta na frequência escolar, na saúde materno-infantil, na produtividade no trabalho e nas condições gerais de vida das famílias.

No campo, o Plano Safra, voltado à agricultura familiar, retomou o acesso a crédito, assistência técnica e seguros. A ampliação das linhas de financiamento permitiu reorganizar produções locais e fortalecer cadeias curtas que abastecem escolas, feiras, mercados municipais e cozinhas comunitárias.

Mobilidade real

Se os dados do trabalho mostram a reorganização da economia, os dados do Bolsa Família revelam a reorganização das trajetórias familiares. A pesquisa da FGV desmontou um dos mitos mais persistentes da vida pública brasileira: o de que o programa geraria dependência. O que os dados mostraram é o oposto. As condicionalidades de educação e saúde, o acompanhamento territorial, a atualização cadastral, o acesso à alimentação e a vinculação dessas políticas com o mercado de trabalho criaram as condições para que famílias inteiras reorganizassem o futuro.

A mobilidade também depende da escola, e o acompanhamento escolar atingiu 87,7% dos estudantes, ao mesmo tempo que o número de alunos não localizados caiu 25% em apenas dois meses. Essa redução só foi possível com a retomada da busca ativa, da integração entre municípios, estados e governo federal e do fortalecimento do Sistema Presença.

O Pé-de-Meia, que beneficia milhões de jovens por ano, soma-se a esse movimento. Ao oferecer apoio financeiro para permanência e conclusão do ensino médio, o programa atua na redução da desigualdade e na ampliação do acesso à educação. Assim, o programa já reduziu pela metade a evasão escolar.

O Mais Médicos restabeleceu a presença de equipes completas com todos os profissionais em áreas antes desassistidas. Consultórios, unidades básicas e serviços fluviais agora são rotinas presentes no cotidiano de populações rurais, ribeirinhas e indígenas. Quando gestantes têm pré-natal regular, famílias com crianças seguem o calendário vacinal, e doenças crônicas são acompanhadas, o impacto espalha-se para a economia familiar e para a qualidade de vida, o que se amplia agora com a chegada de mais especialistas.

Um país que volta a planejar o futuro

O conjunto desses movimentos revela um país que recupera a capacidade de projetar o próximo passo. A menor taxa de desemprego não é apenas um marco estatístico, mas o ponto a partir do qual famílias voltam a organizar a própria rotina e jovens retomam expectativas interrompidas. A mobilidade registrada no Bolsa Família, o fortalecimento da agricultura familiar, o alívio tributário sobre rendas mais baixas, a expansão da saúde básica, a permanência escolar e a inclusão digital compõem uma estrutura em que políticas deixam de se sobrepor e se sustentam mutuamente.

Esse encadeamento importa. Ele mostra que desenvolvimento não nasce de soluções isoladas, mas de uma costura entre trabalho, renda, educação, segurança alimentar, crédito acessível e serviços públicos territorializados. Onde há emprego, há renda. Onde há renda, há alimentação adequada. Onde há alimentação adequada, há permanência escolar. Onde há permanência escolar, há mobilidade social. E onde há mobilidade social, há um país menos vulnerável às interrupções que marcaram sua história recente. •

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Caminhos da retomada’

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