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Brasil vira a chave do acesso à saúde especializada
Marcado por longas esperas e deslocamentos exaustivos, país começa a reorganizar seu caminho até consultas com especialistas, exames e cirurgias no SUS
As filas da atenção especializada no Brasil sempre contaram histórias silenciosas. Histórias de quem esperou meses por uma consulta de cardiologia, de quem atravessou estradas para conseguir um exame simples, de quem descobriu tarde um diagnóstico que poderia ter sido feito antes.
Durante anos, essa jornada foi marcada pela desigualdade, enquanto alguns estados tinham densidade razoável de especialistas, outros precisavam enviar pacientes a centenas de quilômetros de distância. Na prática, o acesso ao cuidado especializado nunca foi apenas uma questão médica, mas era, sobretudo, uma questão territorial, econômica e política.
A reorganização da atenção especializada nasceu com um acúmulo de urgências que o país já não conseguia contornar. O modelo vigente deixou crescer a demanda reprimida, aprofundou desigualdades regionais e pressionou a rede de média e alta complexidade. No meio dessa cena, o Ministério da Saúde estruturou, em 2025, o programa Agora Tem Especialistas, que reuniu iniciativas anteriores e ampliou seu alcance para redesenhar o fluxo de consultas, exames e cirurgias no SUS, para enfrentar de maneira sistêmica a espera prolongada por um atendimento que poderia ter vindo antes.
O peso de um atraso
Por muito tempo, o cuidado especializado funcionou em um regime de escassez. Especialistas concentrados em centros urbanos, estruturas desiguais entre regiões e equipamentos insuficientes para a demanda reprimida. Estudos recentes apontaram que atrasos no diagnóstico contribuem para centenas de milhares de mortes por ano, com impacto mais forte em doenças crônicas e câncer. A espera prolongada não era exceção, infelizmente era o padrão.
No Norte e no Nordeste, pacientes costumavam viajar entre 200 e 800 quilômetros para tratamentos, algo que drenava os recursos municipais e desgastava famílias inteiras. Em muitos lugares, o transporte sanitário respondia por parte relevante do orçamento local. A desigualdade na distribuição de especialistas, associada à falta de integração entre unidades de saúde, ajudou a moldar esse cenário.

Crédito: Ministério da Saúde
Tecnologia e diversificação
O programa Agora Tem Especialistas articula diferentes frentes para ampliar a capacidade de atendimento. A principal mudança é a integração entre redes públicas e privadas, com credenciamento de clínicas e hospitais em seis áreas prioritárias: oncologia, cardiologia, ortopedia, ginecologia, oftalmologia e otorrinolaringologia, criando oferta onde não existia e aproximando o serviço da população.
O programa também inclui a ampliação dos turnos nas unidades públicas, mutirões, contratação de novas equipes, reestruturação de policlínicas e hospitais e modernização de centros cirúrgicos. A intenção é fazer com que o SUS funcione mais horas, em mais lugares e com mais capacidade de resolver os problemas que antes se acumulavam.
A Telessaúde é outro pilar. A expansão dos telelaudos, teleconsultorias e do agendamento digital permite reduzir filas e diminuir a necessidade de deslocamentos. Em muitos municípios, o diagnóstico especializado, antes feito em outra cidade, passa a ocorrer dentro da própria UBS com apoio remoto de especialistas, um alívio imediato para populações que viviam na fronteira do acesso.
Chegar onde o mapa apontar
O programa também cria mecanismos para enfrentar o que sempre foi uma dificuldade estrutural da atenção especializada: a distância. Carretas equipadas para exames, pequenas cirurgias e atendimentos ginecológicos já percorrem o país e começam a zerar filas em municípios que passaram anos sem oferta adequada. Em áreas indígenas e regiões de difícil acesso, as equipes móveis ampliam o cuidado onde ele não chegava.
O transporte sanitário, agora reforçado, busca diminuir o peso do deslocamento imposto aos pacientes, especialmente aos que vivem com câncer. A política prevê milhares de vans, ambulâncias e micro-ônibus para levar usuários até serviços especializados sem sobrecarregar as prefeituras.
Múltiplas camadas
A reorganização da atenção especializada também passa pela formação de novos profissionais, pela abertura de bolsas de residência, pela criação de UTIs inteligentes e pelo fortalecimento da rede para diagnóstico e tratamento do câncer. São camadas que se somam para enfrentar a fila e a estrutura que a produz.
A lógica do programa é combinar curto e longo prazo, reduzindo a espera de hoje enquanto constrói a capacidade de amanhã. Os mutirões ocorrem junto à expansão da infraestrutura. Carretas convivem com centros de alta complexidade, e a telemedicina com o provimento de especialistas para regiões antes sem cobertura.
Um passo para reparar distâncias
O Agora Tem Especialistas é uma resposta a um problema que atravessou governos e deixou marcas profundas na vida dos brasileiros. Ele tenta corrigir essa desigualdade com redes integradas, equipamentos distribuídos, sistemas digitais funcionando e profissionais formados para onde a geografia impõe barreiras.
Num Brasil que amplia sua capacidade de cuidar, reorganizar a atenção especializada é, antes de tudo, reorganizar o próprio direito à saúde.
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