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A explosão de um foguete em Alcântara e a perda de satélites ofuscam a retomada do programa espacial brasileiro

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Parceira. A empresa sul-coreana Innospace reconheceu a falha na operação do HANBIT-Nano, que seria o primeiro foguete comercial lançado a partir do Brasil – Imagem: Innospace/FAB
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Para o Programa Espacial Brasileiro, 2026 começou da mesma forma que terminou o ano anterior: com falhas que resultaram na perda de equipamentos valiosos e prejuízos científicos e econômicos ainda não mensurados. Vinte e dois dias depois de uma “anomalia” ter levado os operadores do Centro de Lançamentos de Alcântara, no Maranhão, a assistirem à explosão do HANBIT-Nano, primeiro foguete comercial lançado em solo brasileiro, a Agência Espacial Brasileira (AEB) informou que, na segunda-feira 12, outro veículo desse tipo também se perdeu, desta vez em uma operação realizada no Satish Dhawan Space Centre, na Índia.

Em ambos os casos, as evidências apontam para falhas dos parceiros internacionais, mas o impacto recai quase inteiramente sobre o Brasil, com perdas materiais e desperdício de anos de trabalhos científicos. No acidente mais recente, o foguete PSLV-C62 estava sob responsabilidade da NewSpace India ­Limited (NSIL), que informou em nota que “o veículo não atingiu a órbita prevista devido a uma anomalia no terceiro estágio de propulsão”, obrigando os operadores a abortar a missão. A falha resultou na destruição de 16 satélites, entre eles o nanossatélite brasileiro Aldebaran-I, desenvolvido pela UFMA, além de outros quatro equipamentos brasileiros.

No acidente em Alcântara, ocorrido três dias antes do Natal, um erro na inclinação do foguete para a entrada em órbita levou a empresa sul-coreana Innospace­ a optar, por motivos de segurança, por fazer o veículo se chocar com o solo apenas 30 segundos após a decolagem, ainda no primeiro estágio. Em nota, a empresa pediu “profundas desculpas” a todos os envolvidos e prometeu “analisar minuciosamente as causas do acidente”. O HANBIT-Nano transportava cinco satélites e três experimentos desenvolvidos pela UFMA e pela UFSC.

Diretor da AEB, Rodrigo Leonardi afirma que mais de 500 lançamentos de foguetes de treinamento e sondagem já foram realizados a partir de Alcântara, e apenas “um número muito reduzido” apresentou problemas técnicos. “A taxa de operações bem-sucedidas é de, aproximadamente, 97%”, diz. Leonardi ressalta que o projeto do HANBIT-Nano transcorreu de forma regular e segura em todas as etapas sob responsabilidade brasileira. “Os sistemas de solo, a infraestrutura do centro, os procedimentos operacionais e os protocolos de segurança funcionaram conforme o planejado, resultando em um lançamento preciso e em conformidade com as normas internacionais”, explica. Apesar da falha, acrescenta o cientista, “este primeiro lançamento comercial realizado a partir do território nacional reforçou a maturidade operacional de Alcântara e sua relevância estratégica no cenário espacial global”.

Criada no início de 2025, a estatal Alada recebeu um aporte de 85 milhões de reais para desenvolver projetos aeroespaciais

Segundo Celso Pansera, ministro da Ciência e Tecnologia no governo de Dilma Rousseff e ex-presidente da Finep, a falha que provocou a explosão do foguete em Alcântara no mês passado ocorreu “dentro do risco tecnológico possível e conforme o escopo de segurança previsto”. Atualmente à frente da Companhia de Desenvolvimento de Maricá (Codemar), Pansera­ anunciou o plano de construir um centro espacial privado no município do litoral do Rio de Janeiro. “O Brasil já possui um ecossistema competitivo de desenvolvimento de satélites de baixa altitude, com diversos projetos financiados pela Finep e pelo setor privado. Com sua nova configuração, Alcântara é agora um centro estatal disponível para lançamentos orbitais comerciais, o que facilita a entrada de futuros centros privados no País.”

O maior problema do Programa Espacial Brasileiro, avalia Pansera, é a falta de continuidade nas políticas e no financiamento do setor. “É fundamental manter encomendas públicas de satélites para suprir as necessidades do Brasil em áreas como monitoramento climático, agronegócio, transmissão de dados e segurança.” Segundo ele, o País vinha avançando até 2015, mas ficou sete anos sem investimentos nos governos de Miche­l Temer e Jair Bolsonaro. “Agora, o processo foi retomado e, se não houver interrupções, poderá ganhar terreno em uma década, tornando o Brasil competitivo em uma das áreas do conhecimento que mais tem avançado”, prevê.

Para o deputado Carlos Zarattini (PT), que atua nas comissões de Relações Exteriores e de Defesa na Câmara, outro problema é a existência de “várias governanças” no setor. “Temos a base de Alcântara, operada pela Força Aérea Brasileira, mas todo o programa de pesquisa é feito no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), em São José dos Campos, interior de São Paulo. O Ministério da Ciência e Tecnologia também mantém diversos programas. Falta uma coordenação única e o financiamento disponível não é suficiente para sustentar um programa aeroespacial robusto.”

Especialistas consultados por ­CartaCapital apontam a criação da Empresa de Projetos Aeroespaciais do Brasil S.A. (Alada), criada por Lula em janeiro de 2025, como um avanço fundamental. Subordinada ao Ministério da Defesa, a empresa terá como objetivo “atender às demandas do setor aeroespacial em pesquisa, desenvolvimento e comercialização”, com um capital inicial de 85 milhões de reais para os primeiros cinco anos.

“A Alada pretende utilizar recursos provenientes de lançamentos comerciais em Alcântara. Se essas operações realmente se multiplicarem, o que até agora não ocorreu, teríamos uma fonte de receita para o programa aeroespacial”, afirma Zarattini. Para Pansera, a criação da Alada garantirá a presença do Brasil em um setor que movimenta bilhões por ano. “Isso é fundamental para a nossa soberania. O País pode e deve ter protagonismo.”

Leonardi diz que a criação da Alada ocorre em um contexto estratégico para a AEB. “Na medida do possível, queremos otimizar alguns aspectos econômicos da atividade espacial. Não se trata de lucro, mas de garantir que o programa seja sustentável financeiramente. Além da questão de soberania, há aspectos atrelados a aplicações, serviços e geração de emprego.”

O diretor afirma que a AEB enfrenta um “problema clássico” ao longo do programa espacial: “Algumas infraestruturas de excelente qualidade, como o laboratório de integração e testes do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais e a base de Alcântara, são públicas e estatais. Por razões jurídicas, há entraves para disponibilizar seu uso à iniciativa privada e à indústria”.

Histórico. A explosão do foguete VLS-1, que resultou na morte de 21 cientistas, ainda assombra Alcântara. “Acidentes ocorrem no mundo todo”, pondera Pansera – Imagem: Evaristo Sá/AFP, Jefferson Rudy/Agência Senado e Acervo AEB/FAB

Embora, segundo especialistas, as falhas em Alcântara estejam estatisticamente dentro da normalidade, qualquer acidente na base maranhense lembra a tragédia de 2003, quando o foguete brasileiro VLS-1 entrou em ignição acidental ainda na plataforma, provocando uma grande explosão que matou 21 cientistas durante os preparativos para o lançamento. Além das perdas humanas, o programa sofreu um retrocesso de anos, devido à saída simultânea de vários de seus principais quadros. Outras falhas já haviam ocorrido em dois experimentos com o VLS: em 1997, a missão foi abortada 65 segundos após o lançamento por falha no primeiro estágio e, em 1999, o foguete explodiu 33 segundos após decolar, devido a um problema no segundo estágio. Outro acidente ocorreu em 2015, mas sem vítimas.

Professor da Escola Superior de Guerra e colaborador do programa de Engenharia Aeroespacial da UFMA, Ronaldo Carmona observa que um veículo lançador de satélites é um sistema extremamente complexo. “Entre 80% e 90% da massa de um foguete é composta de sistemas energéticos, como propelentes nos tanques e sistemas de propulsão. É esse empuxo que permite levar cargas úteis ao espaço.” Segundo Carmona, falhas nos sistemas são intrínsecas ao desenvolvimento desses veículos, sobretudo no primeiro lançamento, uma vez que é impossível reproduzir em laboratório todas as condições reais de voo. “Isso não é incomum. Os EUA, que têm um dos programas espaciais mais avançados, registram acidentes desde a Apollo 1, em 1967, com a morte de três astronautas, até a explosão do ônibus espacial Columbia, em 2003, que matou os sete tripulantes. Até a espaçonave Starship, de Elon Musk, teve várias explosões em ações de lançamento.”

O Brasil vive um ciclo expressivo de investimentos nos últimos três anos, impulsionado pelo descontingenciamento do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia (FNDCT) no início do atual governo. Graças a isso, o País aposta em novidades como o ML-BR, veículo lançador de pequeno porte desenvolvido pela indústria espacial nacional, previsto para lançamento no segundo semestre. Há também o Rocket Assisted ­Take-Off (Rato), lançador que disparará o veículo hipersônico 14-X, desenvolvido pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv) da FAB, e o VLM-AT, sucessor do VLS como Veículo Lançador de Microssatélites.

“O próximo grande desafio será conquistar autonomia em satélites de imagea­mento e comunicação, incluindo o uso da internet, o que permitirá ao Brasil reduzir a dependência de sistemas estrangeiros, como a Starlink. Para isso, precisamos usar o poder de compra do Estado – na casa de centenas de milhões por ano – para desenvolver uma constelação de satélites nacionais, lançados por veículos e infraestruturas nacionais, especialmente o Centro de Lançamento de Alcântara”, afirma Carmona. Questionada sobre o andamento da investigação relacionada ao acidente de dezembro, a Força Aérea Brasileira não havia se pronunciado até o fechamento desta edição. •

Publicado na edição n° 1396 de CartaCapital, em 21 de janeiro de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Zica sideral’

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