Violência atinge 75% de candidatas a prefeita em capitais

O ambiente de mais violência foi a internet, citado por 78% das mulheres

Foto: Arquivo/Fernando Frazão/Agência Brasil

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Política

Delegada há mais de 20 anos, Adriana Accorsi (PT), de 47 anos, nunca teve sua família ameaçada, mesmo trabalhando em investigações sobre pedofilia e tráfico infantil. Mas foi só concorrer à prefeitura de Goiânia, nas eleições do ano passado, que um perfil anônimo sugeriu a morte de suas filhas – uma de dois e outra de 26 anos: “Já comprou caixão da Verônica e da Helena?”, dizia a mensagem.

 

 

“Já fui muito hostilizada. Diziam que eu não daria conta, duvidaram da minha capacidade. Mas jamais os ataques chegaram ao nível do ano passado. Foi o pior”, afirmou a delegada. Levantamento feito pelo Estadão mostra que Adriana não é exceção entre mulheres que concorreram a prefeituras nas capitais do País. Ao menos 75% delas disseram ter sofrido violência política de gênero.

A enquete foi enviada a todas as 58 mulheres que concorreram aos Executivos municipais das capitais no ano passado. Destas, 50 responderam. Entre elas, 44 relataram violência. A maior parte (46,7%) disse sofrer ataques com frequência e (72,3%) acredita que os episódios prejudicaram a campanha.

“Os ataques são voltados ao corpo da mulher ou relacionados a estereótipos de gêneros, tal como questionamento a papéis sociais tradicionais ou outros meios com objetivo de negar sua competência na esfera política”, disse Tássia Rabelo, doutora em ciência política e professora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

Uma das candidatas relatou ao Estadão, sob anonimato, ter recebido oferta de R$ 10 mil para retirar a sua candidatura, já que, segundo o autor, ela era “nova e mulher”. Enquanto uma ouviu durante um debate que “mesmo sendo mulher, era boa candidata”, outra escutou, de um jornalista, que não servia para ser prefeita, pois era “mulher, feia e sem alma”.

Menções a maridos e ex-namorados se repetem nas histórias contadas à reportagem. “Perguntaram se meu companheiro estava de acordo com minha candidatura”, disse uma delas. Outra afirmou ter sido alvo de campanha difamatória e de desinformação, com postagens insinuando um relacionamento com um ex-chefe. O uso de elementos de conotação sexual é recorrente. “Não voto para Prefeita, te queria na minha cama”, ouviu a deputada Marina Helou (Rede) durante ato de campanha na Avenida Paulista.

 

Internet

No levantamento feito pelo Estadão, a violência psicológica, que causa danos no estado mental ou emocional, foi quase unânime (97,7%) entre as que sofreram ataques na campanha. O ambiente de mais violência foi a internet, citado por 78% das mulheres. A deputada federal Joice Hasselmann (PSL-SP) foi a mais atacada, segundo estudo da revista AzMina que analisou tuítes direcionados a candidatas de sete Estados e concluiu que as mulheres receberam mais de 40 xingamentos por dia.

Os ataques a Joice se intensificaram após rompimento com o presidente Jair Bolsonaro. “Sofri por um ano e dois meses um estupro moral, que me levou a um hospital e a perder meu útero”, disse Joice. Nas redes sociais, ela foi alvo de ataques gordofóbicos, que incluem “apelidos” como “Peppa Pig”. Os casos de violência se estendem a ameaças de morte – ela anda escoltada. Em um dos episódios, recebeu, em um hotel, uma cabeça de porco, uma peruca loira e uma carta com a mensagem “vai sofrer, depois morrer”. Na campanha à Prefeitura, os ataques pioraram, disse ela.

 

Bolívia

Na América Latina, a Bolívia é pioneira na criação de uma legislação específica para coibir a violência política de gênero. A lei foi criada dois meses depois do assassinato da vereadora Juana Quispe, em 2012, e prevê de dois a cinco anos de prisão. No Brasil, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto em dezembro do ano passado que prevê prisão de quem assediar, constranger, humilhar, perseguir ou ameaçar candidatas ou eleitas.

A cofundadora e diretora do Instituto Update, Beatriz Bella Costa, observou que o grande número de casos de violência contra candidatas nas eleições municipais de 2020 levou, ao menos, o tema a ser discutido. “O assunto virou pauta, começamos a dar um nome para o que acontece. Só assim é possível gerar dados e criar políticas públicas”, disse. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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