Uma análise sobre o estilo de Bolsonaro: do jeito que um Brasil gosta

Ridículo, cafajeste, falastrão, cafona – o estilo é o homem

Uma análise sobre o estilo de Bolsonaro: do jeito que um Brasil gosta

Política

O governante lunático escolhido por 57 milhões de dementes pode ser acusado de muita coisa, menos de não ter estilo próprio. Assim como os Waimiri Atroari e os Wajãpi que os generais Custer do Planalto pretendem dizimar, a tribo do capitão cultiva hábitos muito característicos em sua rotina de comer, dormir, vestir, conversar, caçar, depredar e até namorar. A esse propósito, aliás, o chefe da companhia já alardeou em público que dispensa aquele fármaco azul no trato noturno com a ansiosa primeira-dama Michelle. O tipo de informação que deixa o mercado financeiro e os investidores estrangeiros aliviadíssimos.

Eleito e eleitores são que nem a Rede Globo: tudo a ver. Quem não se sentiu representado, passada a fase das mesóclises bacharelescas e das mãos melífluas do provisório Temer, pelo look despojado que o novo inquilino do Alvorada exibiu na primeira reunião solene por lá? Em desafio às convenções palacianas, o supremo magistrado compareceu com camisa de time, calça de agasalho e chinelos que descortinavam o panorama enternecedor de suas unhas encravadas. A tigrada com certeza adorou. O carinha já se sentia em casa.

É compreensível que governante de extração popular se alterne naquela tendência high low que fascina as fashionistas: conserva na intimidade a fatiota da macarronada em família, mas recorre a um ou outro adereço decorativo quando a ocasião é cerimoniosa. Não, o patrão da Damares é low low, diluiu sem o menor constrangimento a fronteira do público e do privado; em Davos ou na Barra da Tijuca, no Japão ou num convescote com o Queiroz ele se traja como se fosse desfilar alegremente para o Mocorongo Fashion Show. 

No empavonado festim suíço dos ricos, o Nada a Ver comportou-se com exemplar fidelidade a si mesmo, como quem tivesse acabado de chegar de um carteado em São João de Meriti, e ficou perambulando pelo salão feito alma penada, a ponto de a primeira-dama do Canadá tê-lo confundido com o moço do cafezinho.

Reunião solene sob o teto de Niemeyer: a etiqueta do deboche. Foto: Reprodução/Mídia social

O arremedo de Führer contagia todo o staff com seu modo de ser, embora, infiltrada no governo, uma corporação insista em envergar figurino distinto. Em certas ocasiões, há dois ou três entre eles que se engalam orgulhosamente em medalhas, estrelas e boina, além do valente uniforme de camuflagem a sugerir a iminência de um conflito armado. Como o timing para a invasão da Venezuela foi perdido e a Argentina, por ora, virou nossa hermana, a veste de combate parece sem propósito, se bem que a História ensine com clareza que, quando nossos generais saem dos quarteis, é para enfrentar, isso sim, o povo brasileiro.

Durante uns meses, por conta de um incidente providencial e muito mal explicado, o então candidato teve de conviver com um acessório incômodo: uma bolsa de colostomia. Acabou se tomando de afeição pelo conteúdo, tanta afeição que não há dia que ele não preste tributo ao tema. O único precedente comparável é uma criança que se orgulha das próprias fezes. Da boca do obcecado sai inopinadamente, quando menos se espera, um jorro de detritos. Chegou a defender que a melhor defesa contra o aquecimento global – tema em que se espelha no guru Donald Trump – é racionar o acesso da população ao WC. Dia sim, dia não, e assim estará salva a humanidade. Como se sabe, a coprofilia costuma preceder a coprofagia, é mera questão de tempo. (Paradoxalmente, o governante excremental apoia a doutrina de austeridade rígida do xamã Guedes, a qual, na psicanálise, é coincidente com a retenção anal. Ou seja, a economia do PIB zero sofre de prisão de ventre.)

Pudor zero. Cena de um governante com estilo: bandejão desenturmado em Davos. Foto: Alan Santos/PR

Por falar em comida, a verdade é que, fora eventuais incursões escatológicas, o horizonte gastronômico da mesa miliciana é bastante estreito. O paraquedista do poder teria, no Japão, por ocasião da cúpula do G-20, a excepcional oportunidade de saborear um sashimi de maguro, tendo sido o atum vermelhinho arrematado naquela manhã no impressionante mercado de peixes de Tóquio. Na Suíça do Fórum de Davos e de tantos chefs estrelados que chegam a rivalizar com a França, a desenturmada criatura contentou-se em vagar pateticamente pelo bandejão do hotel. Afinal, essas frescuras gourmet não condizem com o paladar pão, pão (de preferência lambuzado de leite condensado), queijo, queijo de um viril oficial do Exército de Caxias.

O Sem Noção e sua comitiva de valentões de botequim tampouco se interessam em ampliar o horizonte geográfico por conta desses compromissos diplomáticos, consideram as viagens um aborrecimento só, tanto que um ou outro trata de providenciar tarefas paralelas, como usar o Aerobolso como mula para o tráfico de cocaína. O mapa afetivo do capiau vai pouco além dos condomínios da Barra, as lojas do Véio da Havan, lugares de pesca ilegal e o balneário de Rio das Ostras, encantador resort do Litoral Norte do Rio, que, hoje dominado pelos milicianos, deixaria o ex-capitão bem à vontade. A Disneyworld, por mais convidativa que pareça, foi descartada por medo da concorrência do Pateta e do Pluto.

Enfim, é indispensável reconhecer o definitivo traço do estilo do moço: ele é autenticamente família, pai de tal maneira extremoso que encaminhou para seu ofício – que ele finge desprezar – os três mocetões de sangue seu, todos apegadíssimos aos usos e hábitos do papá, a começar pelo nepotismo lucrativo e o hambúrguer bem passado. Um núcleo autossuficiente, endógeno, para não dizer promíscuo. E, claro, escancaradamente cafajeste.

O fetiche da faixa

O Capitão Zero trata a faixa de presidente como ele trata o Brasil: como um adereço espezinhado de seu próprio ego. Desembrulha a dita-cuja em qualquer cerimônia, a mais mequetrefe, e a estufa no peito ainda que seja para uma entrevista coletiva no meio da rua – ao final, frustrada –, como aconteceu semanas atrás em Goiás. A faixa requer uma compostura cerimoniosa que não faz parte do repertório pessoal do miliciano-chefe.

Nunca tira a faixa que não seria dele. Periga queimá-la numa churrascada com o Neymar pai

Fora a ignorância acerca da etiqueta mínima e a incontrolável vocação para a canalhice, mora em Bolsonaro o fetiche talvez inconsciente por um objeto que a rigor não lhe pertence. O ladrão que rouba um Porsche ou um BMW frustra-se de não poder exibir em público o orgulhoso produto do furto. O pé de chinelo Jair, ao contrário, beneficiado pela cegueira proposital da Justiça, faz do delito eleitoral – que eliminou o favorito e disseminou notícias criminosas – o pretexto para desfilar por aí a bandagem verde-amarela, à moda de uma Miss Brasil com muitas polegadas a mais, da Rainha da Uva, da Princesa do Milho e da Madrinha dos Laranjais (a goiaba é da jurisdição da ministra Damares Alves).

Implica certa cerimônia o uso da tira presidencial. Ela nasceu no oitavo governo da República, o do marechal Hermes da Fonseca, militar como o atual, e é bem possível que tenha sido uma compensação republicana ao colorido acervo de ornamentos nobiliárquicos da Monarquia. Dimensionou-se a faixa em rigoroso 1,67 metro de comprimento e 12 centímetros de largura. Não tem dado sorte, a infeliz. Já frequentou o perfil de figuras como o general Dutra, o tresloucado Jânio Quadros, a cambulhada de ditadores fardados, o aventureiro Collor e o impostor Temer.

Com o capitão ilegítimo, o enfeite da autopromoção parece irremediavelmente destinado a viver seu momento-deboche. Para o molambento personagem, aquilo tem o valor afetivo da estopa do flanelinha. Ele não tem o menor respeito pelas instituições republicanas, menos ainda por seus símbolos. Vai acabar chamuscando a faixa de presidente numa churrascada domingueira com o pai do Neymar e os parças da milícia.

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Nirlando Beirão é redator-chefe da revista CartaCapital

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