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Trinca improvável

Um exótico arranjo sugere voto em Lula, no petista André Ceciliano para o Senado e em Cláudio Castro, do PL de Bolsonaro, para governador

Afeto. A relação de Ceciliano e Cláudio Castro constrange até mesmo petistas - Imagem: Redes sociais
Afeto. A relação de Ceciliano e Cláudio Castro constrange até mesmo petistas - Imagem: Redes sociais
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Arranjos eleitorais cons­truí­dos à margem das coligações não são novidade no Brasil. Ao longo do tempo, eles aconteceram à esquerda e à direita, por vezes sem o conhecimento – ao menos oficial – dos atores envolvidos. Com a disputa presidencial polarizada entre Lula e Bolsonaro e a multiplicidade de acordos regionais pelo Brasil afora, as manjadas “coligações diagonais” devem acontecer em vários estados. No Rio de Janeiro, movidos mais pela política real praticada no estado nos últimos anos do que pelas chapas majoritárias, parlamentares e prefeitos de diversos partidos iniciaram a campanha da improvável trinca a reunir Lula para presidente, Cláudio Castro (PL) para governador e o deputado estadual André Ceciliano (PT) para senador.

“A campanha Lula-Castro é uma realidade e a candidatura ao Senado do Ceciliano, que foi presidente da Assembleia Legislativa do Rio e demonstrou grande trânsito com prefeitos de todas as legendas, o torna um dínamo natural desse arranjo”, avalia um interlocutor próximo ao governador. No Palácio Guanabara, todos têm em mente o movimento informal “Dilmão”, que em 2014 fez com que o voto casado na petista Dilma Rousseff para a Presidência e no emedebista Luiz Fernando Pezão ao governo do Rio prevalecesse no estado. “Apesar da melhora nas pesquisas, a derrota de Bolsonaro é dada como certa em muitos setores da base de Castro”, acrescenta a fonte.

Para entender o arranjo, é preciso remontar ao afastamento de Wilson Witzel em 2020, após envolvimento em um esquema de corrupção na Saúde. No lugar do mandatário afastado, primeiro de forma interina e depois definitivamente desde 30 de abril do ano passado, surgiu em cena seu vice, o até então obscuro ex-vereador Cláudio Castro. O apoio do presidente da Alerj foi fundamental para que o novo governador conseguisse construir um secretariado de composição que recolocou o Rio minimamente nos trilhos a tempo de enfrentar o momento mais agudo da pandemia. O apoio de Ceciliano foi retribuído na montagem do primeiro escalão, quando o petista emplacou os nomes dos deputados Max Lemos, do PROS, para a Secretaria de Obras, e Tiago Pampolha, do União Brasil, para a Secretaria de Ambiente.

Ceciliano estendeu a mão a Castro e este sempre retribuiu com boa vontade em relação aos pleitos do deputado, inclusive quando era para atender a interesses do PT, a exemplo da concessão da licença para a construção de um porto na cidade de Maricá, cartão de visitas do PT no estado. A ligação entre os dois políticos aumentou ao longo do ano passado, pois Ceciliano colocou os quadros técnicos da Alerj para dar assistência ao governador quando este negociava com o Ministério da Economia a entrada do Rio no Regime de Recuperação Fiscal proposto pelo governo federal. A Casa Legislativa também deu o apoio necessário ao leilão da Companhia Estadual de Águas e Esgotos ­(Cedae) por 24,9 bilhões de reais, privatização que permitiu ao governador lançar o Pacto RJ, programa com obras que se tornou o maior trunfo eleitoral de Castro.

Uma parte do PT do Rio confia na vitória de Freixo, outra avalia que ele não deve superar seu teto de votos no interior

Oficialmente, Ceciliano está na chapa de Lula e apoia Marcelo Freixo (PSB) para governador. Assim como Castro está na chapa de Bolsonaro e apoia Romário (PL) em sua tentativa de reeleição ao Senado. O governador e o presidente da Alerj não serão vistos juntos na campanha, isso é certo, mas o cimento da aliança pôde ser percebido no lançamento da pré-candidatura de Ceciliano ao Senado, que em 30 de abril reuniu milhares de pessoas – mais de uma centena de deputados e prefeitos – em uma casa de shows em São João de Meriti, na Baixada Fluminense. Além dos ex-secretários Lemos e Pampolha, que declararam publicamente seu apoio a Ceciliano, marcaram presença outros supostos apoiadores de Bolsonaro e Romário, como o deputado estadual Márcio Canella e o prefeito de Belford Roxo, Waguinho dos Santos, ambos do União Brasil.

Participaram ainda parlamentares ligados aos maiores líderes da Baixada Fluminense: Washington Reis (MDB), ex-prefeito de Duque de Caxias, e Rogério Lisboa (PL), prefeito de Nova Iguaçu. “A região será o epicentro do voto que reunirá Lula, Castro e Ceciliano”, aposta um experiente dirigente petista.

O fortalecimento dos elos políticos entre o presidente da Alerj e o governador causa constrangimento até mesmo entre petistas. Enquanto parte do PT do Rio confia na vitória de Freixo, outra avalia que o pré-candidato pessebista não conseguirá ultrapassar seu teto de votos no interior do estado. Além disso, o Pacto RJ, com investimentos de 17 bilhões de reais nos 92 municípios fluminenses, pode ser determinante para a reeleição. Em empate técnico com Castro nas últimas pesquisas, mas com vitória assegurada no segundo turno desde que tenha seu nome associado ao de Lula, Freixo mantém prudente cautela sobre as movimentações de ­Ceciliano. Procurado por CartaCapital, o deputado disse que não comentará o assunto.

Ceciliano também sabe onde está o xis da questão: “Eu sou o candidato do Lula, e essa é a associação que me importa e certamente a que mais interessa aos eleitores”, diz. Ele reafirma seu apoio a Freixo, mas suas palavras deixam clara a existência de um espaço próprio de movimentação política: “Sou presidente da Alerj e, como tal, mantenho boas e cordiais relações com o govenador e com os prefeitos fluminenses. Até por isso, sou mais preparado para lutar pelo Rio, longe de picuinhas políticas”.

No que diz respeito à proximidade com Lula, tudo vai bem para Ceciliano, segundo fontes petistas. Hoje, ao lado do vice-presidente nacional do PT e ex-prefeito de Maricá, Washington Quaquá, ele é o coordenador político de fato da campanha do ex-presidente no Rio, preenchendo um espaço outrora ocupado por nomes petistas como a deputada Benedita da Silva, o ex-deputado Jorge Bittar e os dirigentes Marcelo Sereno e Alberto ­Cantalice. No PL, a tentativa de evitar uma debandada materializou-se em forma de ameaça extraoficial quando o senador Flávio Bolsonaro, responsável por gerir as verbas eleitorais do partido em nível nacional, avisou que “quem for pego fazendo campanha para o Ceciliano será considerado traidor e não verá um centavo”.

Flávio está imbuído da tarefa de, ao mesmo tempo, evitar traições e enquadrar o próprio governador ao lado de Romário. Em 2022, as redes sociais do governo estadual ainda não publicaram uma foto sequer de Castro ao lado do senador. Procurado por CartaCapital, o presidente regional do PL, Altineu Côrtes, não atendeu à reportagem. Publicamente, ele tem repetido que “o candidato do PL e de Bolsonaro ao Senado no Rio se chama Romário”. No entanto, segundo a fonte próxima a Castro, nos bastidores Côrtes não vê com maus olhos a aproximação com o presidente da Alerj e teria “liberado” os prefeitos do partido no interior. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1208 DE CARTACAPITAL, EM 18 DE MAIO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Trinca improvável”

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Maurício Thuswohl
Repórter da edição impressa de CartaCapital no Rio de Janeiro

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