Política

assine e leia

Territórios vivos

Em meio à epidemia de transtornos mentais no País, coletivos criam redes de cuidado nas periferias

Territórios vivos
Territórios vivos
Flor de Cactus. Dona Terezinha é amparada pela psicóloga Danielle Braga, durante uma sessão de terapia coletiva para mães enlutadas na capital paulista – Imagem: Luca Meola
Apoie Siga-nos no

Olha aí, olha aí, freguesia. É o carro do louco passando na sua rua.” Quem vive em bairros periféricos nos grandes centros urbanos já se acostumou ao som dos carros de ovos ou de pamonhas. Foi justamente essa linguagem popular que Géssica de Paulla escolheu para convocar os vizinhos a uma roda de conversa sobre saúde mental nas periferias – territórios onde o atendimento psicológico muitas vezes é inacessível, seja pelos altos custos das consultas, seja pela distância dos consultórios. A partir de uma vivência marcada pela negligência e pela violência do Estado, a ativista passou a criar estratégias de cuidado coletivo. Iniciativas como a sua têm ganhado força no Brasil, onde 12,7% da população convive com depressão e 26,8% com ansiedade, segundo o Observatório de Saúde Pública da Umane.

Por volta das 9h30 da manhã do sábado 25, Terezinha de Jesus Freitas chegou ao Centro de Direitos Humanos e Educação Popular do Capão Redondo e, entre gargalhadas, disse que precisava de um café para “curar a ressaca”. “Que história é essa?”, perguntou uma das psicólogas. Na noite anterior, a aposentada havia tomado “uma cervejinha com as netas”. Aos poucos, as demais participantes chegam, se abraçam, comentam o dia ensolarado e seguem para a horta, onde crescem lavanda, melissa e outras plantas calmantes. É o encontro quinzenal da Associação Flor de Cactos, que promove acolhimento psicossocial para mulheres enlutadas na periferia.

Quem vê dona Terezinha, com seu largo sorriso, não imagina como ela estava há dois anos, comenta a coordenadora do projeto, a psicóloga Cristiane Uchôa. Em 1994, a então auxiliar de limpeza perdeu o primeiro filho, morto pela polícia. Anos mais tarde, outro filho foi assassinado durante um assalto. “Para essas mulheres trabalhadoras, é difícil falar sobre a violência policial. Muitas têm vergonha de dizer que o filho tinha problemas com a Justiça”, explica Uchôa. Em roda, elas participam de uma espécie de terapia coletiva: compartilham suas dores e escutam as histórias das demais. Segundo Uchôa, uma das idealizadoras do projeto, a iniciativa nasceu de um incômodo. “Entendemos o luto como uma pauta extremamente importante, mas negligenciada nas periferias, onde a vida da população é atravessada por tantas violências.”

Em 2025, o INSS registrou recorde de afastamentos por razões psíquicas

A psicóloga Luana Maurício Conceição é uma das “pacientes” do grupo. Em 2024, seu filho foi assassinado durante um assalto, a duas ruas de casa, quando voltava do trabalho. Mesmo sendo uma profissional de saúde, não encontrou atendimento no SUS em que realmente se sentisse acolhida. “Dizem que mulher negra suporta tudo. Aqui, eu aprendi a reconhecer a tristeza e a me permitir senti-la”, conta, aliviada.

Com dez anos de trajetória, a Flor de Cactos se estruturou a partir do ­matchfunding Territórios Clínicos – campanha de financiamento coletivo da Fundação Tide Setubal, em parceria com o Instituto Futuro É Infância Saudável. Nesse modelo, o público doa diretamente aos coletivos e cada real arrecadado recebe uma complementação da instituição parceira, triplicando o valor inicial. Com o fim do edital, que teve duração de dois anos, as psicólogas passaram a promover uma vaquinha online para manter as atividades. “A gente gosta de ter uma mesa farta, com frutas, sucos, queremos que elas se sintam sempre bem recebidas”, conta a psicóloga e professora Andreia Arruda.

Apesar de contar com uma das maiores redes públicas de saúde mental do mundo, o SUS não consegue atender à crescente demanda. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) priorizam pessoas com dependência química, alcoolismo e quadros mais graves de transtornos psíquicos, o que deixa desassistidos muitos daqueles que precisam de acompanhamento terapêutico semanal. Em 2025, o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, um aumento de 15,66% em relação ao ano anterior e o maior número já registrado. Apenas 46% dos municípios brasileiros contam com políticas ou programas voltados ao atendimento em saúde mental, segundo levantamento do Ministério do Trabalho e da Organização Internacional do Trabalho.

Coletivo Capim. Enh Xyam Akroá Gamella, de 26 anos, encontrou apoio em sessões de psicanálise que levam em conta a cosmologia indígena – Imagem: Acervo Pessoal Enh Xyam Akroá Gamela

Há seis anos, Enh Xyam Akroá ­Gamella deixou a Terra Indígena ­Taquaritiua, em Viana (MA), para cursar faculdade em Campinas (SP). A distância do território, o afastamento das práticas de autocuidado de seu povo e o ritmo conturbado da vida urbana desembocaram em sofrimento psíquico. Aos 26 anos, tornou-se o primeiro indígena a se formar em Arquitetura e Urbanismo pela Unicamp – um marco histórico que, no entanto, carrega uma trajetória solitária. “Todos os indígenas que estudaram antes de mim desistiram. Comecei a me questionar se fazia sentido eu estar ali.”

O acolhimento psicossocial oferecido aos alunos na Unicamp não foi exatamente o que Gamella esperava. Por indicação de amigos, ele encontrou a psicanalista Lucila de Jesus, uma das poucas profissionais especializadas em saúde indígena no Brasil. “Ela tem uma abordagem totalmente diferente, pude falar sobre os sonhos, algo que é muito importante em nossa cultura.” Ainda assim, o estudante precisou de acompanhamento psiquiátrico. A combinação entre práticas ocidentais e o conhecimento da terapeuta sobre a cosmologia indígena trouxe resultados rápidos: em pouco mais de um ano, ele recebeu alta. Esse tipo de tratamento integrado, no entanto, é raro.

Lucila de Jesus é uma das coordenadoras do Coletivo Capim, voltado à saúde indígena. Dedicada ao estudo de diferentes etnias, ela começou a realizar atendimentos clínicos com povos indígenas durante a pandemia. “Alguns amigos me ligavam, pediam para contar os sonhos, tinham medo de morrer.” A crescente demanda levou-a a se conectar com psicólogas indígenas, e dessa troca de experiências nasceu o grupo, em 2022.

Com o aporte do Territórios Clínicos, o Coletivo Capim estruturou um projeto que reúne profissionais de saúde, pajés e estudantes indígenas de diversos estados. Hoje, o grupo conta com uma equipe multidisciplinar que abrange áreas como psicologia, psicanálise, psiquiatria, antropologia, geografia e educação. Entre suas frentes de atuação estão atendimentos individuais para indígenas, rodas de conversa voltadas a profissionais de saúde e cursos sobre temas relacionados à saúde e ao bem-viver desses povos.

“Não é possível entender o sofrimento psíquico sem compreender o mundo em que o sujeito vive”, diz Géssica de Paulla

A psicóloga Itaynara Tuxá trabalhou com atenção primária aos Tupinambás, na região de Ilhéus, na Bahia. Ao longo de quatro anos, se deparou com “uma população altamente adoecida e com sérios riscos de suicídio”. Crítica à abordagem ocidental, muito medicamentosa, a profissional desenvolveu um tratamento que envolve as práticas indígenas, como frequentar a Casa de Reza, se benzer e se orientar com o pajé. A partir disso criou o conceito de “subjeticídio”, que diz respeito ao apagamento da subjetividade indígena pela ciência tradicional.

Para Itaynara, hoje professora convidada da Universidade do Estado da Bahia, a saúde indígena precisa ser compreendida a partir do conceito de corpo-território, “porque a constituição do sujeito e a identidade estão diretamente ligadas à vivência e à formação no território”. Por isso, Terras Indígenas em processo de retomada, a ausência de demarcação, o avanço do agronegócio e outras formas de violência impactam essas comunidades de maneira profundamente adoecedora. “O território também é subjetivo, ele compõe o nosso corpo, o repertório dos nossos cantos, dos nossos entendimentos”, explica.

A psicóloga Ana Lúcia Ortiz Martins Yvoty, do povo Guarani Ñandeva, de Mato Grosso do Sul, atua com cuidado psicológico institucional voltado a estudantes e servidores da Universidade Estadual­ de Londrina, no Paraná, onde se formou. Entre alunos Kaingang, Guarani e Xetá, ela identifica quadros de ansiedade e depressão frequentemente associados ao choque cultural. “Na cidade, eles sofrem racismo, mesmo no ambiente universitário”, lamenta.

Nos territórios, Ana Lúcia realiza atendimentos clínicos em língua guarani de forma voluntária. “Eles se sentem mais à vontade ao falar na língua materna, até porque muitos sentimentos não têm tradução.” Dessa forma, ela consegue acessar “de fato o que os pacientes sentem, porque a língua portuguesa muitas vezes não alcança”. Além da escuta, desenvolve rodas de conversa para explicar o que é saúde mental.

Terapia na garagem. Familiares e vítimas da violência urbana se reúnem no Jardim Guaraú para compartilhar suas dores e angústias – Imagem: Redes Sociais/Saúde Mental nas Periferias

Na garagem de casa, no Jardim Guaraú, bairro periférico da Zona Oeste de São Paulo, Géssica de Paulla criou o Saúde Mental nas Periferias. O coletivo acolhe a vizinhança com rodas de conversa e atividades culturais. “O projeto nasce da constatação de que existe uma saúde mental que não contempla os corpos pobres”, denuncia. “Ter uma patologia quando se é pobre é muitas vezes ser lançada ao limbo do isolamento social. O recurso encontrado para conter esses corpos considerados raivosos costuma ser o excesso de medicação e a escassez de escuta.”

Para Géssica, a psicanálise não é “apenas uma formação diplomada, ela também se constrói a partir de saberes e experiências que emergem da vida cotidiana”. Inspirada no psiquiatra martinicano Frantz Fanon, a ativista alerta que “não é possível entender o sofrimento psíquico sem compreender o mundo em que o sujeito vive”.

Na tentativa de democratizar o acesso à psicanálise, um grupo de ex-alunos bolsistas de faculdades particulares de psicologia criou o Psicanálise Periférica. “A periferia mudou muito do governo Lula para cá. A possibilidade de acessar a universidade trouxe também outros acessos, inclusive o de as pessoas descobrirem que podem ter cuidados em saúde mental”, explica a coordenadora do coletivo, a psicanalista Emilyn Carvalho.

Os profissionais promovem cursos gratuitos de formação em psicanálise, que articulam a prática clínica com fundamentos territoriais e de interseccionalidade, voltados à população não branca, periférica e LGBTQIA+. Também editam uma revista científica e, em alguns momentos, prestam atendimento clínico individual. Agora, sem o aporte do Territórios Clínicos, angariam recursos com uma vaquinha online. Para a psicanalista, o trabalho desses coletivos serve para pressionar o Estado. “O acesso à saúde mental com dignidade é uma luta coletiva e estamos pressionando o sistema público de saúde para ampliar esses serviços na periferia.” •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Territórios vivos’

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo