Política

Tensão à vista em protesto contra Temer e por Diretas Já

por André Barrocal publicado 24/05/2017 10h38, última modificação 24/05/2017 11h33
Um obscuro acordo entre órgãos repressivos será aplicado contra manifestantes em Brasília
Beto Barata / PR
Padilha, Temer e Jungmann

Jungmann (à direita) segue no Ministério da Defesa mesmo após saída de Roberto Freire da Cultura

Brasília terá um protesto com milhares de pessoas nesta quarta-feira 24. Convocado no início de maio contra as reformas propostas pelo governo, sobretudo a da Previdência, ganhou fôlego após Michel Temer virar alvo de inquérito criminal. A tônica agora será o “Fora Temer” e por nova eleição presidencial. Motivo de tensões à vista, a julgar por um obscuro acordo repressivo e pelo ânimo dos líderes da manifestação.

O acordo foi assinado em 27 de abril por representantes do governo federal, do Congresso e do Distrito Federal. Era preparado fazia um ano, desde a abertura do impeachment de Dilma Rousseff pela Câmara, mas, coincidentemente, só foi concluído na véspera da greve geral de 28 de abril deste ano, símbolo de um acirramento maior no País.

Chama-se Protocolo Tático Integrado de Manifestações. É uma espécie de manual a definir o papel do aparato estatal repressivo em protestos. Traça 110 cenários e especifica como a polícia deve agir em caso de distúrbios. Prevê revista nos participantes e os proíbe de portar coisas como hastes de bandeiras e fogos de artifício.

O acordo não esconde seu caráter político. Diz que sua aplicação depende do tamanho e do perfil do protesto. Ficou na medida para o impopular presidente e suas reformas. Local de trabalho de Temer, o Palácio do Planalto há tempos vive em estado alerta, com soldados do exército sempre de prontidão nas garagens subterrâneas e na entrada principal.

Agora, como resultado do “protocolo”, o Congresso tornou-se um bunker, onde entrar e sair é quase impossível, tentativa de proteger os parlamentares de pressões contra mudanças na CLT e no INSS. Um ensaio de votação da reforma trabalhista em uma comissão do Senado nesta terça-feira (23) terminou em bate-boca entre senadores, sinal de que a tensão não está apenas nas ruas. O Palácio do Planalto também está isolado. A sede do Executivo está cercada por grades, sob a vigília de soldados do Exército.

Alguns organizadores do protesto foram avisados na véspera pelos subordinados do governador do Distrito Federal, Rodrigo Rollemberg (PSB), na Secretaria de Segurança Pública que o controle sobre os manifestantes será rigoroso desde as primeiras horas do dia. Motivo de revolta do presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas.

“É uma provocação”, disse Freitas em entrevista na Câmara. “Vejam o aparelho de guerra que está formado aqui, isso aqui é a Casa do Povo, isso é como se fosse para defender o Congresso Nacional de um ataque militar inimigo”. Segundo ele, a manifestação também pedirá a retirada imediata das propostas de reformas trabalhista e da Previdência de dentro do Congresso.

Da parte do governo Temer, o “protocolo” a ser usado contra a manifestação foi assinado pelo vice-ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), general Antonio Freire Gomes, o chefe da Abin, órgão de inteligência federal, Janer Tesch Alvarenga, e o número 2 da Secretaria Nacional de Segurança Pública, almirante Alexandre Araújo Mota.

Curiosidade: o número 1 da secretaria é o general que chefiou a missão de paz das Nações Unidas no Congo, Carlos Alberto dos Santos Cruz. Um experiente em guerras, portanto.

Na sexta-feira 19, Temer chamou os chefes das Forças Armadas ao Planalto para uma reunião, pois conta com eles para sobreviver no cargo, sabe-se lá por quanto tempo. O líder civil da tropa, Raul Jungmann, ministro da Defesa, estava presente.

Jungmann não acompanhou o presidente do seu partido (PPS), que se demitiu do ministério da Cultura após a delação da JBS contra Temer, e segue no cargo. Reuniu-se várias vezes com Temer nos últimos dias. Foi o primeiro compromisso do presidente na manhã dos protestos desta quarta-feira 24.

Detalhe: em um dos grampos realizados não fase secreta da operação da Polícia Federal que esteve no encalço de Aécio Neves por obstrução à Justiça e corrupção, o tucano foi grampeado em uma conversa com o colega de PSDB José Serra, e este lhe disse: o ministério da Justiça precisava de alguém mais forte, “alguém como o Jungmann”.