Política

Lava Jato

Temer diz que delator cometeu “crime perfeito” com grampo “adulterado”

por Redação — publicado 20/05/2017 16h43
Em pronunciamento, peemedebista diz que pedirá ao STF suspensão de inquérito até que a gravação feita por dono da JBS seja periciada
Evaristo Sá / AFP
Temer

Desta vez, Temer buscou desqualificar o delator Joesley Batista, da JBS

Em pronunciamento na tarde deste sábado 20, Michel Temer disse que vai pedir ao Supremo Tribunal Federal para que o inquérito aberto contra ele seja suspenso até que seja verificada a autenticidade da gravação feita pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS, de uma conversa com o presidente. “Essa gravação clandestina foi manipulada e adulterada com objetivos nitidamente subterrâneos. Incluída no inquérito sem a devida averiguação, levou muitas pessoas ao engano induzido e trouxe grave crise ao Brasil”, defendeu-se o peemedebista, investigado por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça.

Temer iniciou a sua fala citando uma reportagem do jornal Folha de S.Paulo, na qual o perito judicial Ricardo Caires dos Santos, que atua no Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo, aponta a existência de dezenas de cortes e edições no áudio entregue por Joesley aos procuradores da Lava Jato em Brasília.

Em uma análise preliminar do Ministério Público Federal, o diálogo entre Joesley e Temer é qualificado como “audível” e com “sequência lógica”, apesar de identificar “interrupções em razão de ruídos detectados em determinados momentos”. O diagnóstico da Secretaria de Pesquisa e Análise do MPF nada diz sobre possíveis edições na gravação.

Reprodução MPF

Temer acusa Joesley de falso testemunho e de beneficiar-se financeiramente da crise deflagrada com os grampos. Em comunicado divulgado na sexta-feira 19, a Comissão de Valores Mobiliários abriu processos administrativos para investigar possíveis irregularidades cometidas pela JBS no mercado financeiro.

Os controladores da empresa podem ter vendido grande quantidade de ações da companhia e comprado até 1 bilhão de dólares às vésperas da denúncia, beneficiando-se da valorização de mais de 8% da moeda americana ante o real na quinta-feira 18, causada justamente em reação às acusações contra o presidente da República.

Essa investigação da CVM foi usada por Temer para desacreditar as denúncias de Joesley. “Ele cometeu o crime perfeito. Enganou os brasileiros e agora mora nos Estados Unidos. Quero observar a todos vocês as incoerências entre o áudio e o teor do depoimento. Isso compromete a lisura de todo o processo por ele desencadeado”.

A investigação contra Temer
A abertura do inquérito, por corrupção passiva, organização criminosa e obstrução da Justiça, foi autorizada Edson Fachin, relator da Lava Jato no STF, na quinta-feira 18, a pedido da Procuradoria-Geral da República. Em pronunciamento anterior, ainda na quinta 18, Temer disse que nunca autorizou ninguém a usar seu nome indevidamente e que demonstraria na Suprema Corte não ter nenhum envolvimento com os fatos.

Em seu depoimento, Joesley detalhou o encontro com Temer em 7 de março. As declarações do empresário, registradas em vídeo, ajudam a contextualizar o conteúdo do áudio divulgado na quinta-feira 18, repleto de trechos inaudíveis ou supostamente editados.

Joesley Batista
Temer pediu a manutenção dos pagamentos a Eduardo Cunha e Lúcio Funaro em troca do silêncio deles, delatou o empresário Joesley Batista (Foto: Vanessa Carvalho/AFP)

Segundo o delator, Temer afirmou claramente que era importante "manter isso", ou seja, o pagamento de valores a Cunha e Lúcio Funaro, seu operador financeiro, pelo silêncio de ambos. De acordo com a delação, Funaro recebia uma mesada de 400 mil reais por mês, enquanto Cunha foi beneficiado com 5 milhões de um saldo de propina a receber por atuar em favor da JBS em uma desoneração fiscal do setor de frango.

Conforme o lobista Ricardo Saud, outro delator da JBS, não foi a primeira vez que Temer tomou conhecimento dos pagamentos. Certa vez, diz ele, Temer quis saber de Joesley como estavam os repasses. Seu código para a propina a Cunha e Funaro era "alpiste", e os destinatários da verba, "os passarinhos na gaiola". "Temer sempre pedia para manter eles lá. O código era 'tá dando alpiste pros passarinhos? Os passarinhos tão tranquilos na gaiola?”, afirmou Saud em 10 de maio à PGR.

Além das tratativas para manter Cunha e Funaro em silêncio, Joesley menciona em seu depoimento que Temer chegou a afirmar ter influência junto a dois ministros do STF com quem poderia conversar para ajudar o ex-deputado preso. "Com 11 não dá", teria dito ao dono da JBS. No trecho, o empresário aponta para declarações de Temer sobre tentativas de influenciar Maria Silvia Bastos Marques, presidente do BNDES, e Henrique Meirelles, ministro da Fazenda, em assuntos de interesse da empresa.

Conheça os detalhes da explosiva delação da JBS.