Política

CUT/Vox Populi - Análise

Temer, de mal a pior

por Marcos Coimbra publicado 13/04/2017 00h01, última modificação 12/04/2017 14h17
O dilema é descobrir se a avassaladora e crescente impopularidade do peemedebista alimenta a ojeriza da população às reformas ou vice-versa
Divulgação/PR
Michel Temer e líderes do PMDB

Mesmo protegido pelo mercado e pela mídia, o presidente não convence a população

A impopularidade abissal de Michel Temer, seu governo e agenda recolocam em pauta a velha pergunta: quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha?

É a maciça rejeição ao personagem que explica o motivo de tudo que faz ser recusado? Ele teria um dedo podre, que infectaria o que toca? Ou é a repulsa às suas ideias e propostas que o tornam o campeão de falta de apoio popular em nossa história? Seria ele vítima do ideário nefasto que o mandaram defender?

A cada pesquisa, pioram os números da avaliação de Temer como presidente e das principais políticas de seu governo. A nova rodada do projeto CUT/Vox Populi, realizada em âmbito nacional entre os dias 6 e 10 de abril, confirma a tendência.

Há um ano, nos estertores finais de seu segundo governo, Dilma Rousseff era avaliada positivamente por 11% dos entrevistados, enquanto 65% julgavam seu desempenho “ruim” ou “péssimo”, de acordo com pesquisa do instituto Vox Populi. Hoje, Temer repete a reprovação da antecessora, mas tem avaliação positiva de 5%, inferior à metade daquela da petista.

Era previsível que os números de Temer piorassem à medida que o contraponto entre ele e Dilma ficasse mais distante. Depois da razia pela qual passou a imagem da antiga presidenta, imaginava-se que ele se beneficiaria, no início, da comparação, nem que fosse somente por representar um alívio para a crise vigente. Com o passar do tempo, tenderia a cair, deixando de ser julgado como um anti-Dilma e cada vez mais como presidente em si mesmo.  

Foi o que aconteceu com Itamar Franco. Segundo dados do Datafolha, em um ano seu desempenho inverteu-se: a avaliação positiva caiu de 34% em dezembro de 1992 para 15% em agosto do ano seguinte, enquanto a reprovação atingiu 34%, tendo sido de apenas 11% logo após a posse.  

Com Temer, o buraco é mais embaixo. Começou pior que Itamar, evoluiu (previsivelmente) em sentido negativo e agora está bem aquém de onde o mineiro chegou em período equivalente.

A comparação não é, porém, justa. Naquela altura de 1993, o establishment político brasileiro ridicularizava o sucessor de Fernando Collor, taxando de despropositadas as ideias que defendia. No mínimo, classificavam de provincianas e ingênuas.

É o oposto do que fazem com Michel Temer, cuja agenda é tratada a pão de ló pelos representantes do mercado financeiro e seus porta-vozes. Desde os anos de ouro do primeiro governo Fernando Henrique Cardoso não se vê um endosso tão consensual e caloroso às políticas de uma administração. Banqueiros, empresários de comunicação, investidores internacionais, titulares das corporações do setor público, todos parecem encantados. 

Era para a agenda de Temer ter imagem muito melhor. Quase um ano após a posse, a dupla teoria, da “herança maldita” e da necessidade do “remédio amargo” deveria ter convencido a maioria da população.

Não é o que as pesquisas mostram. Nelas, o que vemos é o crescimento da desaprovação às políticas e iniciativas do governo.

Tome-se a reforma da Previdência, a mais importante. Em outubro passado, a imensa maioria da população rejeitava seu carro-chefe, o aumento da idade da aposentadoria, com 80% de reprovação. Hoje, o número está em  93%. Trajetória semelhante àquela do congelamento dos gastos públicos, que tinha o aval de 19% da população, agora reduzido à metade, com 10%.

A Lei da Terceirização é reprovada por 80% dos entrevistados na nova pesquisa, que chegam a 83% no Sudeste, onde as mudanças terão provavelmente impacto maior. Quase 70% acreditam que a lei trará retrocessos e mais da metade que muitos perderão direitos. Um percentual de 66% acha que o desemprego vai aumentar e o crescimento da economia diminuir em função da legislação.

É de se perguntar o que querem as elites brasileiras. Inventam um presidente frágil, sem legitimidade, biografia ou carisma, dão-lhe um mandato de pouco mais de um ano de tempo real e supõem que conseguirá propor e executar uma agenda reprovada pela quase unanimidade do País, na qual sequer ele acredita. Quem terão sido os gênios que imaginaram essa “solução”?

Em nenhum lugar do mundo, a ausência de apoio popular é tratada, seriamente, por analistas e consultores, como se fosse um ativo. Na democracia, a única consequência real da impopularidade crescente das propostas de um governante é a perda de base parlamentar, exatamente o necessário a por em prática sua agenda e propostas.

Só podem dar-se ao desfrute de ignorar a que deseja a população aqueles que se imaginam com o controle firme das rédeas da sociedade. Os que têm sempre mais um truque na manga para impedir que a democracia corrija as distorções que eles próprios criam. 

A luta por eleições livres e representativas, em que não seja subtraído da população o direito de votar em que quiser, é a principal luta que o Brasil tem pela frente.