Política
Soldados de Cristo
Em acordo com o governo de Minas Gerais, a Igreja Lagoinha se infiltra nas forças de segurança do estado
Pelo menos uma vez por mês a gente vê um tanto de policiais por aqui”, conta uma comerciante que trabalha no entorno da matriz da Igreja Batista da Lagoinha, no bairro São Cristóvão, em Belo Horizonte. Ela prefere ter o nome preservado, por trabalhar em uma área dominada pela congregação. Os espaços são usados de maneiras distintas pela Polícia Militar de Minas Gerais: de reuniões de instrução a cursos de formação. No estado, a igreja, famosa pelas ligações com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, reproduz um modelo consagrado pela Universal do Reino de Deus em outras unidades da federação.
O proselitismo religioso é propagado de forma discreta. Eventualmente, um pastor ou missionário é convidado a dar uma palavra à tropa, ou fazer uma oração. Já as ligações com o grupo político que comanda o estado são mais explícitas. Em 10 de setembro de 2025, o então vice-governador Mateus Simões, filiado ao PSD, discursou no seminário de ambientação do Curso de Formação de Soldados, abrigado no principal templo da Lagoinha. Três dias antes, Simões e a esposa participaram de uma missa na unidade da Vila da Serra.
Em fevereiro, a reunião de instrução da polícia para o carnaval em Belo Horizonte ocorreu no mesmo espaço e reuniu centenas de policiais, que ocuparam os três andares da igreja, uma estrutura luxuosa repleta de telões, canhões de luz e câmeras de alta resolução. Mas não são apenas as reuniões de grande porte que levam os agentes de segurança à Lagoinha. Segundo PMs, as convocações formais tornam o comparecimento uma obrigação funcional e muitos desses encontros servem para dar as instruções de serviço.
Homem de bem. O pastor Valadão é adepto da tese “bandido bom…” – Imagem: Redes Sociais
No ano passado, um culto evangélico, realizado na academia de polícia, marcou os 250 anos da PM mineira. Coube aos militares que participavam do curso de formação a tarefa de organizar as centenas de cadeiras usadas pelo evento. Em setembro do mesmo ano, os formandos receberam Bíblias distribuídas por agentes da ativa. O governo mineiro negou-se a responder quem doou os livros e o motivo da distribuição aos alunos. De acordo com o coordenador do Núcleo de Direito Militar e Segurança Pública da Escola Superior de Advocacia de Minas Gerais, Berlinque Antônio Monteiro Cantelmo, a realização de atividades em igrejas tornou-se habitual. “Chegaram até mim reclamações de que os respectivos comandantes estavam determinando que os militares compareçam nesses eventos nos templos religiosos no seu horário de folga.” Esse tipo de atividade, além de ser uma extensão da carga horária, afirma, interfere no tempo de descanso dos policiais. Cantelmo aponta uma deturpação da finalidade das reuniões. “Elas necessariamente precisam ter uma finalidade específica de aprimoramento e desenvolvimento em temas correlatos à atividade operacional ou administrativa. É inconcebível convocar um PM em seu período de folga para comparecer a um templo religioso para ouvir qualquer tipo de culto ou homilia.”
As convocações não se limitam à PM. Integrantes do Corpo de Bombeiros, da Polícia Civil e agentes penitenciários também são convocados. Nos últimos três anos, as formaturas do Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência, de Belo Horizonte, foram sediadas pela congregação, com a participação de centenas de crianças. Militares ouvidos contaram que reuniões são feitas em outras igrejas, mas a maior parte acontece na Lagoinha.
Um sargento da PM que participa da formação de novos soldados diz que o objetivo da igreja ao oferecer os templos é buscar impacto para quem não conhece a estrutura dos locais. “Se 10% daqueles que estão participando de uma formação resolvem voltar para a igreja depois de ir lá, já é um ganho muito grande. Lembrando sempre que essas reuniões chegam a ter centenas de policiais.”
Em outubro do ano passado, a Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública de Minas Gerais convocou policiais penais para um seminário institucional na sede da igreja, que desencadeou o acionamento do Ministério Público para averiguar um possível favorecimento. O pedido foi feito pelo deputado federal Rogério Correia e pela deputada estadual Andréia de Jesus, ambos do PT. Os parlamentares apontam a falta de transparência na escolha do local e pedem esclarecimentos sobre possíveis gastos públicos.
Há o uso da “máquina pública para atender a interesses privados”, denuncia a deputada Andréia de Jesus
A reportagem perguntou se há pagamento pelo uso desses espaços. O tema parece causar certo desconforto no governo. A resposta não veio por meio da Secretaria de Segurança, mas pela comunicação estadual. A nota não responde à pergunta. Limita-se a defender a escolha. “A realização de eventos institucionais em espaços de terceiros”, diz o texto, “ocorre de forma pontual, com base em critérios técnicos, logísticos e operacionais, como capacidade, disponibilidade e infraestrutura adequada. A definição dos locais é feita conforme a necessidade de cada atividade, especialmente em eventos com grande número de participantes. A utilização desses espaços não implica qualquer vinculação institucional ou religiosa e observa os princípios da administração pública e a laicidade do Estado.” O governo de Minas se recusou a responder quantas reuniões da PM foram realizadas em templos e quais pastores pregaram nas reuniões. A Lagoinha informou apenas que cede o espaço quando solicitado.
De acordo com a deputada Andréia de Jesus, o Estado informou que o templo foi alugado como qualquer equipamento, mas não há provas da prestação dos serviços. A desculpa de que não há espaços para abrigar um grande público, continua a parlamentar, é mentirosa. E cita os auditórios da universidade estadual ou da Fundação de Amparo à Pesquisa. Simões, prossegue, busca uma aproximação com os evangélicos. “Tem uso da máquina pública para atender a interesses privados. Estamos falando de uma igreja que hoje tem seu nome associado ao Banco Master e tem práticas de acúmulo de patrimônio.”
André Valadão, líder midiático do culto, parece ser um adepto da tese do “bandido bom é bandido morto”. No Instagram, um PM fez a seguinte pergunta: “Pastor, sou policial militar, cometo pecado educando os bandidos com uns tapinhas?” Eis a resposta de Valadão: “Tem que dar é tapão no meio da cara mesmo. Se não apanhou em casa, vai apanhar da polícia. Pode sentar o tapa com força”. O missionário também desfere ataques à comunidade LGBTQIA+. “Aí Deus fala: ‘Não posso mais, já meti esse arco-íris aí. Se eu pudesse, eu matava tudo e começava tudo de novo. Mas já prometi pra mim mesmo que não posso’”, afirmou em uma pregação. O cunhado Felippe Valadão foi indiciado por perseguir religiões de matriz africana durante uma missa em Itaboraí, no Espírito Santo.
Roberto Uchôa de Oliveira Santos, pesquisador na Universidade de Coimbra e associado do Fórum de Segurança Pública, relata que a proximidade entre igrejas evangélicas e forças de segurança é preocupante. “As forças policiais são uma das principais instituições do estado. É o que garante a estrutura do cumprimento da lei e do monopólio do uso da força. Então, quando você tem a cooptação por um matiz religioso, de alguma forma isso garante certo poder.” A postura de assimilar estruturas estatais, aponta Santos, é uma forma de consolidar a “teologia do domínio”, segundo a qual os cristãos têm o mandato divino para controlar as estruturas do Estado.
Enquanto o governo de Minas usa a PM para se aproximar dos evangélicos, o estado começa a entrar em uma crise de segurança com o crescimento do PCC e do Comando Vermelho. Apelar ao pastor Valadão não vai resolver o problema. •
Publicado na edição n° 1416 de CartaCapital, em 10 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Soldados de Cristo’
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