Política

Análise

Sintonia Congresso, PIB e mídia explica ‘fenômeno’ Temer

por André Barrocal publicado 30/04/2017 15h08, última modificação 30/04/2017 19h48
Delatado e com ibope de um dígito, presidente segue com reformas trabalhista e da Previdência

Michel Temer é um fenômeno. Comanda um governo com aprovação de um dígito e oito ministros investigados por corrupção. É alvo de duas acusações graves por delatores da Odebrecht. Para a larga maioria dos brasileiros, o País está no rumo errado e deveria haver novas eleições. Apesar de tudo, ele aprova medidas impopulares no Congresso. Como? Fácil entender.

O presidente entregou-se ao “semiparlamentarismo”, governa em comunhão com deputados e senadores, como ele diz desde os primeiros dias no poder. Ou seja, o Congresso ajuda o peemedebista.

Os congressistas foram eleitos, em regra, com grana doada por empresários, e estes festejam as impopularidades. Quer dizer, a turma do PIB não tem do que reclamar.

Além disso, a grande mídia apoia o governo, e seu noticiário parece tentar acalmar a população, ao contrário de atiçar, como nos tempos de Dilma Rousseff.

Temer estreou o discurso do “semiparlamentarismo” ao apresentar as linhas gerais de sua política econômica, em uma reunião com aliados e ministros no Palácio do Planalto em 24 de maio de 2016, doze dias após assumir. “Muitas vezes eu leio e ouço a afirmação que de que eu estou instituindo uma espécie de semiparlamentarismo. Isso naturalmente me envaidece”, disse.

Foi um truque retórico, na verdade era Temer quem colocava na praça a ideia “envaidecedora”. De lá para cá, repetiu-a em cinco discursos, conforme registros do Planalto. Um almoço com ruralistas (julho de 2016), um ato de medidas econômicas (dezembro de 2016), a posse de dois ministros (março de 2017), uma reunião com empresários (idem) e um evento do Bank of America (idem).

O “semiparlamentarismo” de Temer é puro fisiologismo. Distribuição de cargos federais e dinheiro do orçamento para obras indicadas por parlamentares, as chamadas “emendas”, em troca de apoio no Congresso. Nada a ver com disposição para negociar votações. “Esse governo é autoritário, não dialoga”, dizia no fim de 2016 o deputado pernambucano Tadeu Alencar, então líder do PSB.

Na volta das férias dos congressistas, Alencar perdeu a liderança do PSB para a ruralista Tereza Cristina, do Mato Grosso, tida como mais dócil ao Planalto. Uma troca, comenta-se nos bastidores, resultante de intervenção do Planalto no PSB, cuja direção acaba de declarar posição oficial contra as reformas trabalhista e da Previdência.

Um exemplo claro de fisiologia escondida sob o véu de “semiparlamentarismo” foi uma negociação de Temer com o nanico PTN. Berço de 13 deputados, anunciou em 5 de abril sua saída da base aliada. Às vésperas da reforma da Previdência, cada voto conta, e o presidente não titubeou. Deu ao PTN o comando da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), orçamento anual de 2 bilhões. Pronto. O PTN voltou ao seio governista.

Mais um exemplo. O presidente resolveu mandar embora o ocupante de cargos federais indicado por deputados que votaram contra a reforma trabalhista, conforme notícia da Folha de S. Paulo do sábado 29 de abril. A prometida degola busca amedrontar deputados hesitantes na reforma da Previdência, a próxima batalha governista na Câmara.

A aprovação da reforma trabalhista pelos deputados na quinta-feira 27 é ilustrativa da força da grana no Congresso, uma das razões para Temer triunfar com suas impopularidades até aqui. No dia da votação, o deputado André Figueiredo, do PDT do Ceará, subiu à tribuna para criticar e disparou: “Temos de prestar contas a quem nos elege e não a quem nos financia em campanhas milionárias”.

A imensa maioria dos deputados dependeu de grana de empresa para fazer campanha, uma espécie de captura da democracia pelo poder econômico. Um do PMDB, voto favorável à reforma, costuma dizer: “Voto de opinião não elege mais ninguém, o que elege é dinheiro”. Um quadro que talvez mude em 2018, já que por ora está proibida a contribuição empresarial na próxima eleição.

O perfil dos deputados também explica o sucesso da reforma. Dos 513 eleitos em 2014, a bancada empresarial tem 221, conforme o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), constituindo-se na maior tropa temática da Câmara. Muitos ali legislaram em causa própria.

E ainda houve lobby empresarial na veia. O site The Intercept, do jornalista norte-americano Glenn Greenwald, investigou os arquivos eletrônicos das 850 emendas à reforma apresentadas por deputados. E descobriu, com base nos “metadados”, informações sobre a origem dos arquivos, que 292 foram redigidas em computadores das confederações nacionais do transporte, dos bancos, da indústria e da associação nacional de logística.

A troco de quê os deputados encamparam tais ideias? O Ministério Público Federal podia investigar. O presidente do PMDB, senador Romero Jucá (RR), é campeão de inquéritos na Operação Lava Jato, ao lado do tucano Aécio Neves, por comercializar emendas, entre outras coisas.

Como estão em comunhão com o Planalto e o empresariado, os deputados parecem não ter dado a mínima para o fato de que, no dia da votação da reforma, uma pesquisa revelou que o governo Temer tem uma das mais baixas, se não a menor, aprovação da história brasileira. Somente 4%, segundo o instituto Ipsos. Mais: 92% vêem o País no rumo errado.

A última leva de pesquisas foi um desastre para Temer. CUT/Vox Populi de 12 de abril: 5% aprovam o governo, 65% desaprovam, 93% rejeitam a reforma da Previdência. Datafolha de 30 de abril: 9% aprovam o governo, 61% reprovam, 85% querem eleição direta para presidente.

Essa leva de pesquisas foi inaugurada pelo Ibope em 31 de março e dali saiu uma pista da importância do empresariado no respaldo a Temer. A aprovação do governo era de 10% e a desaprovação, de 55%. Ao analisar o resultado, a Confederação Nacional da Indústria (CNI), contratante da pesquisa, disse que “o custo político de promover as reformas necessárias para impulsionar o crescimento do país reduziu a popularidade do presidente Michel Temer”.

Blindado pelo empresariado, blindado pelos órgãos de comunicação. A cobertura jornalística da greve geral de 28 de abril, convocada contra as reformas trabalhista e da Previdência, deixou isso claro, quando se compara com a postura da mídia estrangeira.

O jornal New York Times noticiou assim: “Cidades brasileiras paralisadas por greve nacional contra a austeridade”. A BBC de Londres: “Brasil atingido por sua primeira greve geral em 20 anos”. O Le Monde francês: “Uma greve geral histórica, mas menor do que o esperado”. O El País da Espanha: “Greve geral desafia as reformas do governo brasileiro”.

Por aqui, o noticiário minimizou o fato ao questionar se era mesmo uma greve “geral”, privilegiou os transtornos de trânsito causados pela greve e os confrontos entre black blocs e policiais, entre outras. Um ponto de vista favorável ao governo e contrário aos grevistas.

O apoio dos grandes órgãos de comunicação ao governo Temer é numérica e qualitativamente evidente, segundo o Manchetômetro, site que acompanha o jornalismo no Brasil e é feito por pesquisadores da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

De acordo com o Manchetômetro, a grande mídia trocou a postura “cão de guarda” adotada com Dilma Rousseff por uma “lua de mel” com Temer. De janeiro de 2015, início do segundo governo Dilma, a abril de 2016, mês em que a Câmara abriu o impeachment, havia em média 16 notícias mensais favoráveis ao governo. A partir da posse de Temer, maio de 2016, a média subiu a 69.

Outro comparativo midiático favorável a Temer pôde ser visto em um levantamento do site Poder 360 sobre o produto jornalístico de maior alcance no Brasil.

O site examinou o noticiário do Jornal Nacional, da Rede Globo, entre 11 e 17 de abril, período iniciado com a divulgação dos políticos que seriam investigados na Operação Lava Jato em consequência das delações de executivos da Odebrecht. Conclusão: Temer e o PMDB foram personagens de apenas 5 minutos do JN.

O campeão de aparição foi o ex-presidente Lula, com 33 minutos. Em seguida, Dilma, com 18. Depois, os senadores tucanos Aécio Neves, com 16, e José Serra, com 9. Antes de Temer, surgiram ainda o petista Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, e Aldemir Bendine, ex-presidente do Banco do Brasil, com 7 minutos cada.

O presidente da República não será investigado pois, pela Constituição, só pode ser processado por fatos praticados durante o mandato. De qualquer forma, é alvo de duas acusações sérias.

Um delator, Claudio Melo Filho, ex-lobista da Odebrecht, diz que Temer realizou em maio de 2014 um jantar no Palácio do Jaburu, casa do peemedebista desde 2011, para captar 10 milhões de reais em dinheiro sujo da empresa para desfrute de correligionários em campanha, caso de Paulo Skaf, que concorreu ao governo paulista na eleição daquele ano.

Outros dois delatores, Marcio Faria da Silva, ex-presidente da Odebrecht Engenharia Industria, e Rogério Araújo, ex-diretor de Novos Negócios da mesma unidade, dizem que o escritório de Temer em São Paulo foi palco em julho de 2010 do acerto final de uma falcatrua de 40 milhões de dólares a envolver fraude na Petrobras. A tramoia também teria fins eleitorais – 2010 foi ano de campanha. Uma planilha entregue ao Ministério Público Federal pelos dois delatores mostra que o pagamento de propina começou seis dias depois da reunião no escritório.

Impopular e delatado, não importa. Michel Temer segue firme.