Semi-presidencialismo é ‘continuidade do golpe’ e esconde ‘outros interesses’, avalia oposição

Na opinião de parlamentares, a articulação de Lira pelo modelo híbrido reflete uma busca por 'tomar o poder'

O presidente da Câmara, Arthur Lira. Foto: SERGIO LIMA/AFP

O presidente da Câmara, Arthur Lira. Foto: SERGIO LIMA/AFP

Política

Partidos, parlamentares e políticos que integram a oposição ao governo de Jair Bolsonaro avaliam a proposta de mudança do sistema de governo brasileiro para o semi-presidencialismo como uma ‘continuidade do golpe’ iniciado em 2016 com o impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

A proposta, que não é exatamente uma novidade, foi protocolada em agosto de 2020 pelo deputado Samuel Moreira (PSDB-SP), mas estava engavetada desde então. Na última semana, porém, o presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), retomou a PEC na tentativa de tirar o foco dos pedidos de impeachment de Jair Bolsonaro que estão na sua mesa.

“Quando não tinha crime, pautaram um impeachment de Dilma. Agora que há crime, nem sequer falam em impeachment e alardeiam o semi-presidencialismo. Ou seja, quem quer isso é o centrão e a direita para se manterem no poder. Semi-presidencialismo é a continuidade do golpe”, avalia Elvino Bohn Gass, líder do PT na Câmara dos Deputados a CartaCapital.

Para o parlamentar, a articulação do presidente da Câmara apenas esconde ‘outros interesses’ e reflete uma busca por se ‘tomar o poder’ mesmo sem ter legitimidade de votos.

“Eles sempre partem da fala que existe instabilidade política no Brasil, mas essa instabilidade foi criada por eles, pelo centrão. Quem provoca a instabilidade é exatamente quem não quer a democracia. É quem cometeu todas as irregularidades que alegam que o novo sistema irá combater. Se trata de um golpe”, destaca.

Compartilha dessa avaliação o deputado Glauber Braga, do PSOL, que chamou a proposta de ‘tentativa de golpe’ nas redes sociais.

“Lira quer formalizar o golpe pra continuar mandando mesmo sem Bolsonaro. Está articulando uma PEC de semi-presidencialismo onde o primeiro-ministro é que teria o poder de comandar o governo. Cunha tentou o mesmo”, publicou o parlamentar. Braga ainda questionou se este não seria o momento de pedir a renúncia do presidente da Câmara.

Gleisi Hoffmann, deputada federal e presidenta do PT, aponta um aspecto antidemocrático da proposta. “A história ensina a respeitar a soberania do povo. E no Brasil é o presidencialismo que corresponde a isso. Chega de golpes”, publicou a deputada no Twitter.

Gleisi também elogiou a posição do ministro Ricardo Lewandowski contra o sistema, publicada no sábado 17 no site do jornal Folha de S. Paulo. Lewandowski contrariou os colegas de Corte, Luís Roberto Barroso e Gilmar Mendes, que recentemente defenderam o modelo.

Outro nome a se posicionar contra o semi-presidencialismo foi o petista Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo e candidato a presidente pelo partido em 2018. Ele também usou as redes para reforçar o entendimento de seus correligionários de que a mudança é uma ‘continuidade do golpe’ e um novo ‘ataque à soberania’ popular.

Para ele, o impeachment de Dilma e a retirada de Lula da corrida eleitoral em 2018 foram os primeiros passos desse ‘ato’:

“O impeachment sem crime, a fraude eleitoral de 2018 e o semi-presidencialismo são três atos da mesma peça de teatro. A vítima é a mesma: a soberania popular. Imagine o Congresso escolher o chefe de governo”, postou em seu perfil em uma rede social.

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Repórter do site de CartaCapital

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