Política

Guedes e equipe minimizaram 2ª onda e confiaram em ‘imunidade de rebanho’

Em documento enviado à CPI da Covid, secretaria da pasta tenta justificar declarações sobre ‘baixíssima probabilidade’ de ascensão dos dados

O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP
O ministro da Economia, Paulo Guedes. Foto: Evaristo Sá/AFP

A Secretaria de Política Econômica, do Ministério da Economia, tentou justificar à CPI da Covid por que acreditava, em novembro do ano passado, que o Brasil não sofreria com uma 2ª onda do novo coronavírus. Naquele mês, o secretário Adolfo Sachsida disse que seria “baixíssima a probabilidade” de uma nova ascensão de casos e mortes.

Para técnicos da pasta, a avaliação se basearia no suposto diagnóstico de que vários estados teriam atingido a chamada imunidade de rebanho, o que o início de 2021 provou não ser verdade.

Diante dessa análise, e a fim de identificar os possíveis impactos que ela teve sobre a política do governo, o vice-presidente da CPI, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), solicitou explicações da SPE. Ele cobrou do ministro Paulo Guedes “informações sobre os documentos e estudos que subsidiaram membros do Ministério da Economia a minimizarem o risco de uma segunda onda de Covid-19 no Brasil”.

Em longo ofício assinado pelo próprio Sachsida, a pasta diz ter se baseado em estudos que “apontavam para a desaceleração da epidemia no Brasil, com base na análise da presença elevada de anticorpos na população em função de taxas de infecção altas e possivelmente pela presença de imunidade pré-existente (imunidade ‘natural’ ou cruzada)”.

O secretário ainda afirma que “muitos países haviam experimentado várias semanas (…) de baixíssimas taxas de contaminação após a primeira onda, havendo indicação de que a segunda onda estaria fortemente associada ao inverno rigoroso do hemisfério norte, também porque não se tinham evidências consolidadas de reinfecções e novas cepas”.

Ele cita, por fim, que estudos “sugeriam que o limiar da imunidade coletiva poderia ser bem inferior ao usualmente considerado e, diante disso, as prevalências estimadas (…) indicariam a desaceleração da epidemia em algumas regiões”.

O próprio Paulo Guedes, em dezembro, disse que “as pessoas estão voltando ao trabalho, a doença fez um retorno, mas não podemos falar em segunda onda”. A declaração foi feita durante a Conferência de Montreal do International Economic Forum of the Americas.

Em março de 2021, com o sistema de saúde em colapso em diversas regiões, o ministro reconheceu, durante entrevista aos jornais espanhóis El Mundo e Expansión: “Agora novamente a pandemia chega, com a 2ª onda se espalhando com maior velocidade e com novas cepas, aparentemente mais mortíferas. A reação é uma só: vacinação em massa para garantir o retorno seguro ao trabalho”.

Em janeiro deste ano, ante a escalada nos registros da Covid-19, Adolfo Sachsida pediu desculpas pela declaração de novembro. “Não deveria ter me pronunciado sobre 2ª onda. Não é a área da SPE, não faz sentido eu me pronunciar sobre isso, aproveito e peço desculpas”, afirmou, durante evento virtual organizado pelo site Jota. “Foi um erro meu ter falado sobre 2ª onda, aproveito a oportunidade para me desculpar”.

Randolfe Rodrigues também pediu ao Ministério da Economia o acesso a “todas as comunicações e documentos recebidos com o Ministério da Saúde sobre as projeções, previsões e planejamento para a pandemia no ano de 2021”.

A resposta, porém, é de que “NÃO houve qualquer comunicação e/ou troca de documentos do Ministério da Saúde (MS) com a SPE”.

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