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Seis demissões que mostram a falta de abertura de Doria a críticas

Política

Seis demissões feitas por João Doria (PSDB) desde o início do seu mandato têm em comum alguma reclamação ou desacordo com as diretrizes da atual gestão. O último caso conhecido foi o afastamento, em 16 de novembro, do então prefeito regional da Casa Verde, Paulo Cahim.

O gestor foi demitido após reclamar da falta de verbas para as enchentes. Na ocasião, a Prefeitura publicou uma nota alegando que Cahim tinha demonstrado conformismo diante das dificuldades, em lugar de empenho e criatividade na superação dos desafios, como exige a atual administração municipal de seus colaboradores.

Além do caso de Cahim, há outros cinco episódios que demonstram como Doria não está aberto a críticas dentro de sua equipe e não aceita a exposição dos problemas da cidade por seus subordinados.

Em outro caso recente, o afastamento do chefe de gabinete da Secretaria Especial de Comunicação da prefeitura, Lucas Tavares, também foi motivado em parte por uma reclamação do subordinado sobre a zeladoria da cidade. No áudio que vazou para a imprensa, Tavares chamava a cidade de “queijo suíço”.

Os demais casos de demissão também esbarram em críticas dos funcionários à gestão e denúncias sobre possíveis desvios na administração municipal. Entenda as circunstâncias das demissões.

1) Paulo Cahim: falta de verba para as enchentes

Paulo Cahim foi demitido após declarar que não tinha verba suficiente na prefeitura regional da Casa Verde para evitar enchentes na região. O ex-secretário regional afirmou que antes de tornar público seu descontentamento buscou alinhamento com a Secretaria Municipal de Serviços e Obras (SMSO). “Em agosto eu comecei a sinalizar ao secretário da pasta, Marcos Penido, meu desejo de fazer audiências públicas. Não quiseram me ouvir”, declarou Cahim, que contabiliza quatro pedidos de reunião negados.

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Ele alega preocupação com as enchentes futuras. “É o caso da Rua Cachoeira dos Antunes, no Jardim Peri, que tem alagamentos recorrentes. A água chega a subir meio metro nas casas”. Cahim diz que a verba das enchentes, parte integrante do orçamento de zeladoria, nem sempre é suficiente para priorizar as obras. “Isso é ainda pior nas periferias, que não são atendidas com o orçamento que deveriam”.

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O prefeito regional de Casa Verde foi afastado por reclamar das verbas para enchentes (Foto: Reprodução / Facebook)

Levantamento feito pelo jornal O Estado de S.Paulo, a partir de dados da Secretaria da Fazenda Municipal, mostra que a atual gestão gastou pouco mais da metade da verba (56%) destinada à manutenção do sistema de drenagem de chuvas, como boca de lobos, bueiros, córregos e piscinões. Segundo a reportagem, o valor de 84,2 milhões de reais é o menor dos últimos quatro anos, corrigido pela inflação. Em relação à verba de enchentes, a execução foi de 12%.

Após a demissão de Cahim, Doria mandou um alerta aos demais prefeitos regionais para que “não reclamem, trabalhem”, dando a entender que as demissões não parariam por ali, se necessárias. A fala do tucano se assemelha à declaração do presidente Michel Temer (PMDB), “não fale em crise, trabalhe” em seu primeiro discurso à frente do cargo.

2) Lucas Tavares: a polêmica da Lei de Acesso

Motivo parecido ocasionou a demissão do chefe de gabinete da Secretaria Especial de Comunicação da prefeitura, Lucas Tavares, no início de novembro. O episódio se concretizou após o vazamento de um áudio obtido pelo jornal O Estado de S.Paulo no qual Tavares afirmava que ia “botar para dificultar” os pedidos da imprensa via Lei de Acesso à Informação.

No áudio, Tavares deixa clara a intenção de fazer com que jornalistas desistam de suas apurações, principalmente as que requeriam dados sobre os buracos nas ruas da cidade de São Paulo. “… buraco é sempre matéria por motivos óbvios – a cidade parece um queijo suíço, de fato -, e a gente está com problema de orçamento…”, alegou, expondo questões da atual gestão.

Após a demissão, Tavares disse à imprensa que “cometeu o equívoco de ser informal”. Já o prefeito João Doria negou que o chefe de gabinete seguisse orientações da Prefeitura e que as declarações foram de ordem pessoal.

3) Fabio Lepique: o alvará do Shopping 25 de Março

No final de outubro, o alvo da demissão foi Fabio Lepique, secretário-adjunto da Secretaria das Prefeituras Regionais, comandada pelo vice-prefeito Bruno Covas. O principal embate que culminou no afastamento do secretário foram divergências sobre a cassação do alvará do Shopping 25 de Março, no centro da cidade.

O estabelecimento foi lacrado em setembro por Bruno Covas, em ação conjunta com a Receita Federal, por conta da venda de mercadorias irregulares. A operação, segundo a Receita, apreendeu mais de 880 toneladas de produtos, avaliados em 440 milhões.

Em uma reunião posterior com o secretariado de Doria, o secretário de Justiça, Anderson Pomini, se colocou favorável à reabertura do estabelecimento a partir da assinatura de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) que permitiria a fiscalização pelos próprios lojistas. Diante da ausência de Bruno Covas, em viagem a Paris, Lepique se colocou contrário à decisão, o que teria causado um embate político entre os grupos de Doria e Covas.

4) Laura Mendes Barros: a máfia da Cidade Limpa

A ex-controladora geral do município, Laura Mendes de Barros comandava a investigação da “máfia da Cidade Limpa” e não escapou das demissões do tucano. Foi demitida duas semanas após a Controladoria abrir uma investigação para apurar denúncia feita pela Rádio CBN de que algumas construtoras estariam se beneficiando de propagandas ilegais na cidade para anunciar o lançamento de empreendimentos imobiliários.

Segundo a reportagem, a CBN teve acesso a uma proposta comercial enviada pela DNAA Promoções e Eventos para a construtora Kallas que trazia os valores para distribuir panfletos disfarçados de jornal e colocar nas ruas seis setas e duas faixas – o que é vetado pela Lei – para anunciar o empreendim

Laura Mendes foi afastada após Controladoria iniciar investigação sobre a máfia da Cidade Limpa. (Foto: Prefeitura de SP)

ento Bosque da Serra, na divisa de Taboão da Serra com São Paulo.

O valor total da proposta era de 7 mil reais, dos quais 2,7 mil reais seriam revertidos para a “assessoria”, código utilizado para o pagamento de propina aos ficais da prefeitura, que fariam vistas grossas à publicidade. A matéria cita outros casos de irregularidade na cidade envolvendo a construtora Kallas e o lançamento de outros empreendimentos.

À época, a Prefeitura disse, em nota, que a substituição de Laura era por “razões administrativas e operacionais” e que todos os processos e investigações abertos durante o período teriam continuidade, garantindo a independência da Controladoria conforme determina a legislação. O cargo foi assumido por Guilherme Rodrigues Monteiro Mendes, bacharel em Direito, que ocupava o cargo de ouvidor geral do município.

5) Gilberto Natalini: desvios na área ambiental

A demissão do secretário do Verde e Meio Ambiente, o vereador Gilberto Natalini (PV), em agosto,  aconteceu três meses depois dele ter denunciado uma quadrilha de fiscais que cobrava propina para antecipar a emissão de licenciamento ambiental para empreendimentos imobiliários. Segundo informações do jornal Valor Econômico, desde então, Natalini estaria sofrendo pressão de construtoras e integrantes do governo.

Segundo informações da reportagem, em maio Natalini entregou um dossiê com denúncias à Controladoria Geral do Município e afastou pelo menos sete fiscais, sob a acusação de cobrarem propina para vender laudos ambientais e fazerem vistorias falsas.

Natalini foi demitido no mesmo dia de Laura Mendes de Barros, a controladora que estava à frente da investigação da Cidade Limpa. O prefeito João Doria pediu o cargo ao secretário alegando que ele seria entregue ao Partido da República (PR), por acordo político. Procurada para comentar o caso pelo jornal, a Prefeitura se restringiu a dizer que elogiava a atuação do ex-secretário à frente da pasta.

Em novembro, o novo secretário foi apresentado pelo prefeito, Eduardo de Castro, graduado em direito e integrante do PR.

6) Soninha Francine: prazos impossíveis e constrangimento

O caso da demissão da secretária de Assistência e Desenvolvimento Social, Soninha Francine,  gerou polêmica pela forma que foi conduzida. O prefeito João Dória anunciou seu afastamento em um vídeo no mínimo constrangedor, gravado ao lado da ex-secretária, alegando que a decisão foi de comum acordo.

Soninha desmentiu o acordo sobre a sua demissão nas redes sociais. Em um post no Facebook, ela disse que inicialmente resistiu em gravar o vídeo ao lado do prefeito, mas que depois acabou aceitando. “Eu não concordo, mas ele é o chefe e não precisa da minha concordância para me mandar embora. Oras”, colocou em seu texto.

Um dia após deixar a pasta, a ex-secretária fez um discurso na Câmara onde alegou que o prefeito cobrava resultados visíveis em prazos que não eram possíveis de serem cumpridos.”É muito difícil se dedicar ao mesmo tempo ao que é estruturante e ao dia a dia. Frequentemente, para você trabalhar com os alicerces, que demoram mais e são menos visíveis, aquilo que seria visível fica para mais tarde e eu escolhi trabalhar com os alicerces, com aquilo que é capaz de sustentar por mais tempo as ações, e que virão”, afirmou na época.

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