Política
Secretário de esportes pede exoneração após associar inclusão a ‘problema’
Mauro Roberto Chekin, que atuava junto à prefeitura de São Caetano do Sul, virou alvo de inquérito do Ministério Público
O secretário de Esportes, Lazer e Juventude da Prefeitura de São Caetano do Sul, Mauro Roberto Chekin, pediu exoneração do cargo na sexta-feira 8 após associar a inclusão de pessoas com deficiência a ‘problema’.
Em nota, o gestor municipal confirmou que o pedido de exoneração se deu em função do episódio. “Peço exoneração do cargo, reconhecendo o erro de abordagem do tema inclusão no esporte, pedindo sinceras desculpas pelo ocorrido”, registrou.
“Reafirmo meu compromisso como professor de Educação Física de carreira da municipalidade e vou procurar aperfeiçoamento profissional relacionado à inclusão. Agradeço ao prefeito Tite Campanella pela oportunidade, reforçando que sigo e seguirei trabalhando pelo esporte, como fiz em toda minha carreira”, completou, no comunicado.
Entenda o caso
A polêmica tem relação com a participação do secretário em uma audiência pública na Câmara Municipal na terça-feira 5.
Na ocasião, o secretário relatou o caso de uma mãe que teria procurado a Prefeitura para incluir sua filha em aulas de natação. “Nós temos um problema muito grande com autista e qualquer ‘deficiente’. Porque, olha, veio uma mãe que quis uma inclusão com a filha dela para ela ser incluída na aula de natação. Tá bom, vamos lá, vamos incluir e tal. A menina usa fralda. Como é que eu posso pôr a menina dentro da água de fralda?”, indagou o secretário, que foi questionado por outros parlamentares, que a situação não seria diferente de bebês que usam fralda e fazem a modalidade.
Ao que o secretário argumentou: “Então, nós temos que orientar a mãe a comprar essa fralda de natação, porque a menina não tinha. E essa mesma menina, quando começou a aula, começou o barulho, ela saiu correndo da piscina, se encostou num canto e tapou os dois ouvidinhos. Hoje, com o problema da inclusão social, que eu acho importante, acho que tem que ser feita, mas nós temos que tomar muito cuidado com os esportes.”
Após o episódio, a deputada federal Sâmia Bomfim e a vereadora de São Caetano do Sul, Bruna Biondi pediram ao MP-SP que investigue as falas do secretário contra pessoas com deficiência. Ao formalizar a abertura do inquérito, o órgão apontou que irá apurar “eventual prática de discriminação”, “capacitismo institucional” e “omissão de políticas públicas inclusivas” no âmbito da Secretaria Municipal de Esporte, Lazer e Juventude de São Caetano do Sul.
As reações ao caso
Em nota, o Ministério dos Esportes repudiou as declarações do secretário ‘por seu caráter profundamente capacitista, incompatível com os princípios constitucionais da dignidade da pessoa humana, da inclusão e do respeito às pessoas com deficiência’.
A pasta reforçou o dever do poder público em garantir acesso, acolhimento, oportunidades e participação plena das pessoas com deficiência em todas as dimensões da vida social, inclusive no esporte, instrumento reconhecido de cidadania, desenvolvimento humano e inclusão social.
Informou, ainda, que faria contato com a Prefeitura de São Caetano para prestar apoio técnico, via a Secretaria Nacional de Paradesporto, com a oferta de materiais informativos, orientações técnicas voltados à inclusão e à promoção dos direitos das pessoas com deficiência.
O Comitê Paralímpico Brasileiro também se manifestou sobre o caso. Em nota, destacou que a fala do secretário é ‘discriminatória e inadmissível’, e que revela desconhecimento sobre o papel transformador do esporte na promoção da cidadania, da dignidade e da igualdade de oportunidades para pessoas com deficiência. “A inclusão é um direito e um compromisso constitucional e civilizatório que deve ser defendido e promovido por todos os agentes públicos”, completou.
Ao emitir comunicado sobre o episódio, a Prefeitura de São Caetano disse que “possui um compromisso histórico com as políticas públicas de inclusão e com a promoção dos direitos das pessoas com deficiência”, e que o tema é tratado de forma prioritária pela administração municipal em diferentes áreas, como saúde, educação, esporte e assistência social.
“A administração municipal entende que a pauta da inclusão exige evolução constante, inclusive na superação de conceitos historicamente arraigados na sociedade. Os avanços conquistados nos últimos anos são inegáveis, mas o desafio continua permanente e coletivo. Neste processo, erros, apesar de imperdoáveis, são compreensíveis, dada a complexidade e importância desta pauta”, completou o texto.
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