São Paulo: eleição decidida no trânsito?

Política

“Indústria da multa”, “radar pegadinha” e “acelera, São Paulo” são expressões que vão dominando o cenário eleitoral na capital paulista. As frases empregadas, respectivamente, por Celso Russomanno (PRB), Marta Suplicy (PMDB) e João Doria (PSDB) têm como alvo o prefeito em reeleição Fernando Haddad (PT). Os jargões têm mobilizado os eleitores nas redes sociais e, aos poucos, converte o trânsito em fator de decisão na eleição.

Isso explicaria a ênfase dos candidatos em prometer mudanças nas regras de mobilidade urbana. Não à toa, Doria usa como mote de campanha a hashtag #AceleraSP. “A questão do trânsito vai ser um elemento decisivo para essa disputa eleitoral”, avalia o professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fespsp) William Nozak.

Ele classifica as promessas relacionadas ao trânsito como “argumento de exceção” dos candidatos para atrair os motoristas imprudentes de uma cidade com 8,3 milhões de veículos, segundo o Detran-SP. “A discussão sobre a suposta indústria da multa e do trânsito para criticar a medida de redução da velocidade é um subterfúgio. Isso porque, se o sujeito infringiu (as leis de trânsito) e sofreu a multa, é uma infração”, observa.

 

Nozak afirma haver, contudo, uma alta rejeição dos paulistanos à redução da velocidade implementada por Haddad e ao aumento de multas aplicadas – especialmente as de radares, que cresceram 595% no passado.

A prefeitura de São Paulo arrecadou 988 milhões de reais com multas em 2015, após a aplicação de 13,3 milhões de punições a motoristas infratores. Foi um elevação de 43% sobre as 9,3 milhões de multas em 2014.

Russomanno é enfático ao chamar esse aumento de “indústria da multa”. O candidato do PRB promete suspender todas as multas com recurso ainda não julgado. “Eu vou acabar com a indústria da multa em São Paulo. Você sabe que quando eu falo, eu resolvo.” 

Mas o tom de defensor dos motoristas infratores, como se fossem consumidores lesados, reverbera negativamente nas redes sociais. “Quer se eleger estimulando o não cumprimento da lei! Que esperar a mais?”, tuitou um eleitor.

Marta Suplicy, por sua vez, promete “acabar com radares de pegadinha na cidade”. O compromisso rendeu críticas à ex-prefeita: “Só é multado quem dirige em desacordo com a legislação. Não me venha promessas populistas´”, escreveu um seguidor da ex-petista. 

Com o jargão #AceleraSP estampado em sua campanha, Doria anunciou que pretende suspender a redução da velocidade, despertando amor e ódio no Twitter. “Compromisso com as mortes no trânsito! Triste!”, disse um seguidor do tucano. “Finalmente um político falando a coisa certa!”, afirmou um apoiador.

 

 

O tucano até exagera nos números para reforçar seu discurso. Doria afirma em vídeo postado nas suas redes sociais que as multas vão render 1,5 bilhão de reais aos cofres da prefeitura em 2016. O montante, porém, não é real. A previsão orçamentária da prefeitura para este ano é de 1,1 bilhão com multas de trânsito.

 

O petista Haddad defende tanto a gestão das multas quanto a redução da velocidade e diz que, se reeleito, vai manter tudo como está. Ele rechaça o termo indústria da multa. “Um dado que é omitido é que apenas 5% dos motoristas respondem por metade das multas. Já cerca de 70% dos condutores não infringiram a lei ano passado. “Há uma indústria da multa, só que de infratores”, disse em junho, durante entrevista à Rádio Bandeirantes.

Segundo levantamento do site Aos Fatos, a arrecadação com multas em São Paulo vem aumentando há anos e cresceu, entre 2012 e 2015, na gestão Haddad, 24%. Já a prefeitura divulgou relatório no início do ano afirmando ter havido redução de 3,3% na arrecadação nesse período, considerando a inflação. De acordo com essa correção, em 2015, teria havido uma queda de 32 milhões de reais na arrecadação em relação a 2012.

Em 2015 e 2016, o petista foi alvo de ações do Ministério Público e a Justiça decidiu que a Prefeitura não podia usar as verbas arrecadas com multas para custear despesas operacionais da Companhia de Engenharia de Tráfego (CET), mas apenas em sinalização, engenharia de tráfego, de campo, policiamento, fiscalização e educação de trânsito. 

Haddad também defende a redução da velocidade, alvo de seus adversários. Em recente entrevista ao Huffpost Brasil, o petista citou dados segundo os quais o número de acidentes sem vítimas caiu 20% (de 272 para 217) nas marginais Tietê e Pinheiros e o de acidentes com mortos ou feridos caiu 29% (de 110 para 78).

Haddad afirmou que segue recomendação da Organização das Nações Unidas (ONU) para reduzir a velocidade nas manchas urbanas. “Em quem você confia? Na ONU, ou no Doria? Na ONU ou na Marta? Na ONU ou no Russomano?”, disse.

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