Política

Saída de Serra abre espaço para Temer refazer política externa

por André Barrocal publicado 23/02/2017 12h06, última modificação 17/03/2017 15h31
Tucano era expoente do americanismo do governo. Presidente nomeou assessor anti-Serra
Wilson Dias / Agência Brasil
Temer e Serra

Temer e Serra: ele ajudou no impeachment e agora abandona o Itamaraty

A demissão do tucano José Serra do Ministério das Relações Exteriores abre uma oportunidade para o presidente Michel Temer refazer a política externa de seu governo, marcada até aqui por americanismo, brigas no atacado na América do Sul e pouco entusiasmo por xodós da era petista, como os BRICS.

Em seu discurso de posse, Serra anunciara o desmonte de tudo o que tinha sido feito em mais de uma década de lulismo. No lugar, botaria uma “nova política externa”, de Estado e não partidária, embora fosse a primeira pessoa filiada a um partido a tomar posse do Itamaraty em quase 15 anos. 

A mudança radical e o tiro de morte do lulismo não empolgavam Michel Temer, grato, no entanto, pelo papel político desempenhado por Serra no impeachment que, em maio de 2016, levou o peemedebista ao Palácio do Planalto.

O presidente, diz um auxiliar, “não desgosta da política externa do Lula”. Mais: demonstra certa atração pela ideia da “diplomacia presidencial”, em que o mandatário tem protagonismo pessoal, uma característica do ex-presidente Lula, mas não de Dilma Rousseff.

O primeiro chega pra lá de Temer em Serra tinha sido dado em Nova York, durante a Assembleia-Geral das Nações Unidas, em setembro. No discurso tradicionalmente feito pelo presidente brasileiro na abertura do encontro, o peemedebista distribuiu recados sutis ao tucano.

Enquanto Serra dava patadas em vizinhos bolivarianos, como a Venezuela, Temer afirmou que a integração latino-americana era uma “prioridade permanente” do Brasil, não importa que haja “em nossa região governos de diferentes inclinações políticas”. 

Ele defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU, onde o Brasil da era Lula desejava ter um assento. Em entrevistas, Serra apequenava o País, dizendo que a reforma não é “moleza”, é “briga de gente grande”.

O tucano ficou tão aborrecido com os acontecimentos nova-iorquinos que, ao voltar ao País, teve um rompante e ameaçou demitir todos os assessores de seu gabinete.

A mais recente alfinetada de Temer no tucano foi a contratação de um auxiliar dono de ideias anti-Serra. Hussein Kalout, cientista político e professor de Relações Internacionais, foi nomeado no dia 16 de fevereiro como chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos, cargo ligado à Presidência.

Kalout era colunista da Folha de S.Paulo. Em suas análises, escreveu que, com Serra, o Brasil não tinha política externa, ou estratégia para a América do Sul, ponto de partida de qualquer pretensão internacional do País, além de estar enfraquecido no continente por comprar brigas ideológicas.

Achava também que a presença do tucano à frente do Ministério das Relações Exteriores era ruim para a imagem do Brasil, por causa do envolvimento dele na Operação Lava Jato.

Segundo delatores da Odebrecht, Serra levou 23 milhões de reais em caixa 2 da empreiteira na Suíça em sua campanha presidencial de 2010. Informação já admitida publicamente como fato por um integrante daquela campanha de Serra, o ex-deputado tucano Marcio Fortes.

Será mera coincidência que, menos de uma semana depois da nomeação de Kalout, Serra tenha concluído que seus problemas de saúde haviam tornado insustentável sua permanência no Itamaraty?

Outra coincidência. Desde a eleição de Donald Trump para presidente dos Estados Unidos, três países de peso nas Américas trocaram seus chanceleres – Canadá, México e agora o Brasil. Há quem veja nos casos mexicano e canadense uma espécie de adaptação à realidade de os EUA serem comandados por um magnata doidivanas. E no caso de Serra?

O tucano era uma espécie de ideólogo do americanismo do governo Temer. Cansou de fazer juras de amor a Tio Sam. Ao Estadão de 22 de maio de 2016, declarou: “Daria outra entrevista eu contar o impacto que eu tive ao viver o cotidiano e junto à base da sociedade a democracia americana”.

O gesto mais simbólico desse americanismo foi a decisão de retomar as negociações de um acordo com Washington para militares ianques usarem uma base de lançamento de foguetes no Maranhão, em Alcântara – acordo enterrado em 2003, no governo Lula, por ser considerado nocivo à soberania nacional.

O americanismo de Serra esbarrou em trapalhadas do tucano. Ele torceu abertamente pela rival de Trump na eleição nos EUA, Hillary Clinton. Antes do triunfo de Trump, comentara a hipótese: “Não pode acontecer”, seria um “pesadelo”.

Com seu então chanceler “queimado” perante a administração Trump, Temer assumiu as rédeas da relação bilateral, a exercer aquela “diplomacia presidencial” que seria do seu agrado.

Por iniciativa própria, falou por telefone com Trump em dezembro, ainda antes da posse dele na Casa Branca. No dia 13 de fevereiro, conversou com o vice-presidente dos EUA, Mike Pence, ligação feita desta vez pelo lado americano.

Além de ter sido escanteado na política externa por Temer, Serra também parecia infeliz no cargo, por não se sentir capaz de fazer política interna. Quando da montagem da equipe de Temer pós-impeachment, o Itamaraty foi uma espécie de prêmio de consolação que o tucano teve de aceitar. Suas ambições eram outras, quem sabe algo na área econômica.

Um embaixador em atividade comentou dia desses, em um almoço, que Temer foi genial ao escolher o cargo dado a Serra, por deixar o ambicioso tucano amarrado em suas maquinações políticas com vistas a uma sonhada candidatura presidencial.

Michel Temer ainda vai avaliar nomes para o lugar de Serra no Itamaraty. Sua escolha mostrará se é mesmo verdade que “não desgosta da política externa do Lula”.