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Rota para o mundo

O superintendente da Sudene conta como o Nordeste driblou o tarifaço e ampliou as exportações

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Imagem: Complexo de Suape/GOVPE
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O Nordeste registrou, em 2025, o maior volume de exportações dos últimos três anos, totalizando 24,8 bilhões de dólares. O desempenho ajudou a reduzir o déficit da balança comercial, ainda dependente das importações, que somaram 27,2 bilhões de dólares. Para o superintendente da Sudene, Francisco Ferreira Alexandre, o resultado reflete os esforços do governo federal em apoiar os exportadores e diversificar parceiros comerciais. Em entrevista à repórter Fabíola­ Mendonça, ele também destacou o papel dos estados nordestinos para o plano de reindustrialização do ­País. “Temos muito a contribuir com a transição energética.”

CartaCapital: Como foi possível aumentar as exportações mesmo em meio ao tarifaço dos EUA?
Francisco Ferreira Alexandre: Esse resultado é fruto de um conjunto de ações desenvolvidas tanto pela Sudene, como órgão de fomento responsável por desenvolver projetos de investimento na região, quanto pelo governo federal, que tem adotado uma série de iniciativas voltadas à exportação. A partir da visão do presidente Lula, trabalhamos para ampliar o envio de produtos ao exterior e mostrar à Europa, à Ásia e à África que há espaço para novas parcerias. Essa é uma agenda fundamental para o Brasil e para a região. Com esse desempenho, o Nordeste equilibra a balança comercial, gera mais empregos e renda e impulsiona o PIB regional.

CC: Quais setores tiveram o melhor desempenho nas exportações?
FFA: Os vegetais lideraram as vendas externas, com quase 7 bilhões de dólares, seguidos pelos minerais, com 4,6 bilhões, e pelos produtos da indústria alimentícia, que somaram 2,1 bilhões. Também vale destacar o avanço do Matopiba – região de expansão agrícola que abrange áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia – na exportação de grãos. Nossos principais parceiros comerciais são China, EUA e Canadá.

“Também existem oportunidades em mercados menores”, observa Francisco Ferreira Alexandre

CC: Com esse desempenho, o Nordeste conseguiu reduzir o déficit na balança comercial?
FFA: Ainda importamos mais do que exportamos e, portanto, seguimos deficitários no resultado final. No entanto, à medida que firmamos novas parcerias e abrimos mercados, algo que a Sudene tem incentivado fortemente, podemos mudar esse cenário. O Nordeste tem grande potencial para ampliar as vendas externas, inclusive pela localização geográfica privilegiada, mais próxima dos maiores mercados consumidores. Não devemos, porém, olhar apenas para a Europa e os EUA. Também há oportunidades em mercados menores, como o continente africano.

CC: Em 2025, o Nordeste também gerou 348 mil novos postos de trabalho. É a segunda região que mais criou empregos, atrás apenas do Sudeste…
FFA: Sim, temos gerado muitas oportunidades e acreditamos que esse número será ainda maior neste ano. Isso cria um movimento positivo, porque o ciclo econômico gera demanda e, consequentemente, mais empregos. Há múltiplas cadeias produtivas envolvidas, e temos trabalhado em parceria com os governadores, além de contar com os incentivos oferecidos pelo governo federal, para transformar a realidade da nossa região.

CC: Em 2024, o PIB do Nordeste avançou 3,8%, acima da média nacional, de 3,5%. Essa tendência se manteve no ano passado?
FFA: Nossa expectativa é de que, em 2025, o Nordeste também tenha crescido acima da média do País. Precisamos crescer mais para reduzir a histórica desigualdade regional. Só vamos nos aproximar, em termos de PIB e renda, de regiões­ como o Sul e o Sudeste, se mantivermos a economia em ritmo superior. Não é tarefa simples, mas temos atuado nesse sentido, dialogando com setores produtivos, universidades e pesquisadores – parte do trabalho cotidiano da Sudene. Ainda não temos os números consolidados do ano passado, mas a estimativa é de crescimento de 2,3%, ligeiramente acima da média nacional. Para 2026, a projeção é de alta do PIB entre 2,5% e 2,6%.

Neoindustrialização. ”Temos muito a contribuir com a transição energética”, diz – Imagem: Odjair Baena/MCTI

CC: O presidente Lula costuma destacar a importância estratégica do Nordeste para alavancar o programa Nova Indústria Brasil. Qual é exatamente o papel da região nesse esforço de reindustrialização do País?
FFA: Quando o presidente menciona a região, ele reconhece o nosso potencial de gerar energia renovável e construir uma indústria limpa. O programa de reindustrialização é de longo prazo, exige maturação. Na Sudene, temos discutido como atrair companhias capazes de gerar riqueza com menor impacto ambiental, dentro da perspectiva de descarbonização da economia. Felizmente, muitos empresários nos têm procurado para investir no Nordeste, e o governo federal tem olhado para cá com mais atenção.

CC: Como a Sudene tem apoiado o desenvolvimento industrial no Nordeste?
FFA: Lançamos uma chamada em parceria com o Banco do Brasil, a Caixa Econômica Federal, o BNDES, o Banco do Nordeste e a Finep, com foco em energia renovável e inovação. As propostas apresentadas somam 113 bilhões de reais, incluindo projetos de produção de hidrogênio verde, construção de data centers e geração de energia eólica e solar. A Sudene­ tem se articulado com os bancos públicos para viabilizar o financiamento da maior parte dessas iniciativas. Esse ambiente favorável também atrai investimentos externos. O Nordeste tem muito a contribuir com a transição energética.

CC: A Sudene tem um plano de combate à desertificação no Nordeste? O que está sendo feito para mitigar seus efeitos na região?
FFA: Temos uma parceria com o Ministério do Meio Ambiente para mensurar o problema, além de definir as áreas prioritárias de atuação. Ainda não dispomos desse dimensionamento consolidado. Na Sudene, mantemos parcerias com universidades e com o Instituto do Semiárido, que desenvolvem estudos e projetos voltados às potencialidades da Caatinga. A partir dessas iniciativas, vamos estruturar um plano para reduzir a desertificação. A expectativa é ter um panorama ainda no primeiro semestre. Outro ponto relevante é o potencial de sequestro de carbono da Caatinga, já indicado por estudos como bastante promissor, o que representa também um ativo ambiental. Na COP30, levamos essa proposta para que esse bioma seja reconhecido como estratégico no enfrentamento às mudanças climáticas. •

Publicado na edição n° 1403 de CartaCapital, em 11 de março de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rota para o mundo’

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