Política
Repressão S.A.
Livro revela como as montadoras do ABC paulista financiaram e abriram as portas das fábricas para os militares
Espiões no chão de fábrica, listas de sindicalistas fichados como “terroristas”, recursos de grandes empresários financiando a repressão e até uma espécie de sucursal do Dops no ABC Paulista. Essas são algumas das principais revelações inéditas dos jornalistas Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli no livro Repressão Sociedade Anônima (Alameda Casa Editorial), lançado neste mês. A pesquisa aponta como empresas, instituições financeiras e a elite industrial contribuíram de forma decisiva para bancar o cerco a qualquer um que fosse contrário ao regime autoritário.
Os documentos obtidos pela dupla comprovam, pela primeira vez, como os militares criaram um esquema de repressão e perseguição aos trabalhadores metalúrgicos dentro e fora das fábricas com a contribuição dos donos do capital. “Sobre um piso de concreto demarcado por linhas e placas, o som das fábricas na região do ABC Paulista se misturava com as vozes dos operários e das lideranças sindicais, mergulhados também num forte odor de óleo, graxa e tinta. Nas décadas de 1960, 1970 e 1980, a vida no chão das indústrias montadoras de automóveis também estava embebida na colaboração da indústria e dos banqueiros com as Forças Armadas, colocando em prática uma sociedade anônima da repressão”, descreve o livro. “Era o negócio da ditadura. Tal parceria produziu, numa velocidade alucinante, além de automóveis e lucro para os empresários, muita perseguição, espionagem, tortura, desaparecimento e morte de trabalhadores”, constata. O livro detalha, portanto, o envolvimento de cinco montadoras de automóveis no Brasil com o pagamento de ações de repressão: Ford, GM, Volkswagen, Scania e Mercedes-Benz.
Outro destaque da pesquisa é o descobrimento de documentos inéditos sobre o funcionamento de uma unidade do Dops na região da Grande São Paulo. Segundo Reina, o que parecia ser apenas uma simples delegacia localizada próxima ao Sindicato dos Metalúrgicos em São Bernardo do Campo era, de fato, o local onde muitos trabalhadores foram presos e torturados. Outra revelação inédita é o montante investido pelo governo militar na repressão. Foi encontrado um orçamento detalhado para um “Plano de Mobilização Anti-Insurrecional” durante a criação da Operação Bandeirante que somou mais de 83 milhões de reais em valores atuais.
Empresários e banqueiros se reuniam em um clube privado para discutir política, economia e organizar “vaquinhas” para o regime
Parte do dinheiro vinha de empresários paulistanos. “Houve financiamento e apoio material e logístico feito pelas empresas e por banqueiros, que se reuniam num clube privado na capital paulista para discutir política, economia e organizar ‘vaquinhas’ para a compra de equipamentos”, destaca o livro. O foco era o Clube dos Banqueiros, localizado no luxuoso palacete onde residiu Veridiana da Silva Prado, na Rua Dona Veridiana, bairro de Higienópolis, em São Paulo. A instituição era comandada por Gastão Eduardo de Bueno Vidigal, então dono do Banco Mercantil de São Paulo. “Oficialmente, o nome era Clube São Paulo, um lugar de reuniões da aristocracia e do empresariado paulista.”
O livro informa que um “encontro especial no segundo semestre de 1969 contou com a presença de donos de pelo menos 15 grandes instituições financeiras. Nele foram recolhidas contribuições para financiar a compra de equipamentos e veículos e subsidiar o que chamavam de luta contra a subversão”. Meses antes, eles já haviam participado – e contribuído – com outra caixinha, para aumentar o efetivo da Polícia do Exército na capital. A ação benemérita possibilitou que fosse ampliado o quartel onde ficaria a tropa, localizada na Rua Tomás Carvalhal, muito próximo do quartel-general do II Exército, no Ibirapuera, explicam os autores.
Para Maria Angélica Ferrasoli, um dos principais avanços da pesquisa é o de revelar documentos que provam que os militares estavam dentro das empresas, principalmente das montadoras. Segundo ela, se até agora o que existiam eram indícios de casos isolados da presença de espiões no chão de fábrica, o que o novo livro revela é como essa estratégia foi uma operação estruturada. A pesquisa apresenta uma lista do SNI, até hoje desconhecida, com os nomes de chefes militares ocupando setores de segurança das principais empresas no ABC e na capital, incluindo bancos. Não era por acaso que a operação ocorria nesse setor. A produção de veículos nas empresas multinacionais naquelas décadas, concentradas em especial na região do ABC Paulista, representava a “menina dos olhos” do regime militar, com alta produtividade e rentabilidade, atraindo o investimento estrangeiro e o “desenvolvimento” do País, com baixo custo de mão de obra e condições precárias de trabalho.
Repressão Sociedade Anônima. Eduardo Reina e Maria Angélica Ferrasoli. Alameda Casa Editorial (em pré-venda)
O livro ainda destaca a lógica perversa de jamais parar a produção, resultando em recorde de acidentes de trabalho, com mutilações e mortes de operários. Esses fatos eram noticiados pela imprensa internacional, mas censurados no Brasil. Assim, as fábricas se transformaram em espaços de violação de direitos, tanto pela vigilância e perseguição política quanto pelo descaso com a vida de seus empregados.
Um dos casos mais surpreendentes é o de Franz Stangl, um nazista que atuou como funcionário da Volkswagen em São Bernardo do Campo. Ele comandou os campos de extermínio de Treblinka e Sobibór, na Polônia, durante a Segunda Guerra Mundial e, entre 1959 e 1967, trabalhou na montadora como responsável pelo setor de monitoramento e vigilância.
Para o advogado especialista em Direitos Humanos Luiz Eduardo Greenhalgh, que prefacia a obra, a pesquisa é um verdadeiro torpedo na engrenagem da ditadura militar e suas ramificações nas maiores montadoras de veículos do ABC Paulista. Segundo ele, o conúbio entre empresários e a repressão fica escancarado a não mais poder, e sem cerimônia. Os militares, portanto, não agiram de forma isolada. Tiveram seus cúmplices, dentro e fora do Brasil. A pesquisa, no fundo, é mais uma constatação de que, décadas depois da volta da democracia no Brasil, não se conhece ainda toda a dimensão da repressão de uma longa noite de 21 anos no País. •
Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Repressão S.A.’
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