Relatora da CPMI das Fake News entra com ação contra Hans River

Deputada Lídice da Mata (PSB-BA) apontou contradições no depoimento de ex-funcionário da Yacows e escreveu que falso testemunho é crime

Deputada Lídice da Mata (PSB-BA) elencou inconsistências em depoimento de ex-funcionário da Yacows, que insultou repórter do jornal Folha de S. Paulo. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Deputada Lídice da Mata (PSB-BA) elencou inconsistências em depoimento de ex-funcionário da Yacows, que insultou repórter do jornal Folha de S. Paulo. Foto: Jane de Araújo/Agência Senado

Política

A relatora da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) das Fake News, deputada federal Lídice da Mata (PSB-BA), protocolou nesta quinta-feira 13 um pedido de representação no Ministério Público Federal (MPF) contra Hans River do Rio Nascimento, ex-funcionário da empresa Yacows Desenvolvimento de Software.

Hans River do Rio Nascimento depôs na CPMI na terça-feira 11, após convocação relacionada a publicações no jornal Folha de S. Paulo sobre o uso fraudulento de disparos em massa pelo WhatsApp, durante as eleições presidenciais de 2018.

Na representação, Lídice diz que, no depoimento, Hans River apresentou informações que, posteriormente, viriam a se mostrar inconsistentes ou inverídicas. Além disso, apesar de ter comparecido à CPMI na qualidade de testemunha, negou-se a prestar informações quando questionado.

A deputada diz que ele afirmou ter trabalhado na campanha política do vereador José Police Neto (PSD-SP), no ano de 2018. No entanto, conforme os registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o vereador não foi candidato a qualquer cargo público naquele ano.

Outra inconsistência apontada pela parlamentar é que Hans River disse não ter encaminhado qualquer documento ou informação à Folha de S. Paulo. Contudo, na mesma data, o jornal veiculou uma série de documentos, planilhas, áudios e fotos que mostram que o ex-funcionário da Yacows forneceu informações à reportagem.

Lídice também escreveu que o depoente afirmou que o primeiro contato realizado pela Folha de S. Paulo estava relacionado a um livro que ele escrevia, no entanto, o jornal comprovou que a reportagem o procurou pela primeira vez para falar sobre um processo trabalhista que ele movia contra a empresa Yacows.

 

Além disso, a deputada relatou que o depoente insinuou que o acesso aos dados contidos no processo trabalhista movido por ele poderia ter ocorrido de maneira ilícita. Porém, o processo é público e pode ser consultado por meio das bases de dados da Justiça do Trabalho.

O pedido de representação aciona o artigo 342 do Código Penal, que trata de falso testemunho ou falsa perícia, dos crimes contra a Administração da Justiça. O texto estabelece que é crime, passível de reclusão de dois a quatro anos e multa, “fazer afirmação falsa, ou negar ou calar a verdade como testemunha, perito, contador, tradutor ou intérprete em processo judicial, ou administrativo, inquérito policial, ou em juízo arbitral”.

Lídice assina o documento com os deputados federais Alessandro Molon (PSB-RJ), Luizianne Lins (PT-CE), Tulio Gadelha (PDT-PE), Paulo Ramos (PDT-RJ), Natália Bonavides (PT-RN) e Rui Falcão (PT-SP). A representação foi encaminhada ao procurador-geral da República, Augusto Aras.

Ofensas machistas contra repórter

O depoimento de Hans River do Rio Nascimento foi amplamente noticiado devido a ofensas machistas contra a repórter de Folha de S. Paulo, Patrícia Campos Mello. O depoente afirmou que a jornalista “queria sair” com ele em troca de informações para uma reportagem. O deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) fez coro à acusação e disse não duvidar que Patrícia “possa ter se insinuado sexualmente”.

Em nota, o jornal condenou os ataques à repórter.

“A Folha repudia as mentiras e os insultos direcionados à jornalista Patrícia Campos Mello na chamada CPMI das Fake News. O jornal reagirá publicando documentos que mais uma vez comprovam a correção das reportagens sobre o uso ilegal de disparos de redes sociais durante a campanha de 2018. Causam estupefação, ainda, o Congresso Nacional servir de palco ao baixo nível e as insinuações ultrajantes do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP)”, disse o veículo.

A Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) também rechaçou as “alegações difamatórias” de Eduardo Bolsonaro. “É assustador que um agente público use seu canal de comunicação para atacar jornalistas cujas reportagens trazem informações que o desagradam, sobretudo apelando ao machismo e à misoginia”, declarou a Abraji.

Em 2018, Patrícia publicou uma matéria baseada em documentos da Justiça do Trabalho, referentes a uma ação trabalhista apresentada por Hans River do Rio Nascimento. A reportagem tratava de uso fraudulento, pela Yacows, de uma lista de nomes e CPFs de idosos para registrar chips de celular, com o objetivo de usar os dados para o disparo de mensagens em massa durante as eleições.

Nas redes sociais, Eduardo Bolsonaro segue acusando a repórter de ter tentado prejudicar Jair Bolsonaro em sua campanha presidencial. Segundo o parlamentar, Hans River do Rio Nascimento declarou ter trabalhado para candidatos de diversas orientações ideológicas, mas a jornalista só dedicou atenção aos disparos contra o PT.

“Para início de conversa, ele [Hans River do Rio Nascimento] já fez, já ajudou da campanha do deputado Rui Falcão (PT-SP), que foi quem fez esse requerimento para o Hans estar presente na comissão. Então, ao que parecia, seria um jogo de cartas marcadas. Só que eles se equivocaram, porque o senhor Hans não é um agente político ideológico do PT, ele é um agente profissional. E qualquer um que pagasse ele, ele tava lá apertando o botãozinho”, disse, em vídeo.

Em seguida, ele pediu para “deixar de lado” as insinuações sexuais.

“Vamos aos fatos que interessam. Ele falou no seu depoimento que, primeiro, quem mais pagou a ele foi Henrique Meirelles, ele ou a empresa dele, e também, o PT. E falou que o PT utilizou aqueles disparos em massa. E o que nós vimos em 18 de outubro de 2018, entre o primeiro e segundo turno de eleição? Matéria de Patrícia Campos Mello na Folha de S. Paulo acusando o presidente de disparos em massa”, afirmou.

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Repórter do site de CartaCapital

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