Política
Rede de intrigas
Paes jura lealdade a Lula após André Ceciliano articular candidatura para o mandato-tampão de Cláudio Castro
No tabuleiro de interesses da política fluminense, onde nem sempre as coisas são o que aparentam, a movimentação de uma peça pode desencadear uma reação em cadeia capaz de alterar o resultado do jogo. É o que ocorre após Cláudio Castro (PL), redivivo nas pesquisas eleitorais desde o “sucesso” da operação policial que resultou em 122 mortos nos complexos da Penha e do Alemão, confirmar a aliados que deixará o cargo em 4 de abril para disputar uma vaga no Senado. A saída provocará uma inédita dupla vacância na linha sucessória do governo e obrigará o Tribunal de Justiça a convocar, em até 30 dias, eleições indiretas nas quais os deputados estaduais escolherão um novo governador para um mandato-tampão até o fim do ano.
O Rio está sem vice-governador desde maio do ano passado, quando Thiago Pampolha (MDB) foi nomeado para o Tribunal de Contas do Estado (TCE). A indicação fazia parte de um arranjo político para levar o então presidente da Assembleia Legislativa, Rodrigo Bacellar, do União Brasil, ao Palácio Guanabara. A ideia inicial do governador e de outras lideranças do PL, como o senador Flávio Bolsonaro e o deputado federal Altineu Côrtes, era que Bacellar fosse o candidato da direita ao governo estadual em outubro e disputasse a eleição já no exercício do cargo. A aliança, porém, se rompeu, e Bacellar – que chegou a ser preso – foi afastado da presidência da Alerj no mês passado, após alertar outro deputado, Thiego Silva, conhecido como TH Joias (MDB), sobre uma operação da Polícia Federal. TH é suspeito de envolvimento com o Comando Vermelho.
Com Pampolha e Bacellar descartados, a vacância no Palácio Guanabara levará à realização de eleições indiretas, o que tem provocado atritos tanto à esquerda quanto à direita. No PL, o embate entre Castro e Flávio Bolsonaro se intensificou na última semana. O governador defende lançar o chefe da Casa Civil, Nicola Miccione, um quadro técnico que não disputaria a reeleição em outubro, embora isso seja permitido ao governador-tampão pela Justiça Eleitoral. Já o senador, que até prova em contrário será candidato à Presidência da República, quer que o nome do bolsonarismo ao governo estadual em outubro dispute desde já a eleição indireta e concorra à reeleição.
O presidente precisa de um palanque sólido no estado, mas teme traição e cobra apoio a Benedita da Silva para o Senado
O nome preferido de Flávio é o deputado estadual Douglas Ruas (PL), policial e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson. Ligado às forças de segurança e à frente da Secretaria de Cidades, responsável pela distribuição de verbas aos municípios, Ruas é visto no partido como o candidato mais competitivo para enfrentar, em outubro, o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (PSD), que lidera as pesquisas com folga.
Parlamentares fluminenses do PL, embora não afirmem isso publicamente, veem na movimentação de Castro uma possível traição ao partido. Segundo relatos feitos à reportagem, ao articular o nome de Miccione em detrimento de Ruas, o governador estaria, na prática, cumprindo um acordo informal com Paes, que confirmou neste mês sua candidatura ao Palácio Guanabara e, por ora, corre em raia única. Com Miccione no mandato-tampão, o prefeito do Rio evitaria enfrentar nas urnas um adversário já no exercício do cargo. Um assessor do PL afirma que Castro e Paes vêm, nas últimas semanas, enviando recados velados a Ruas e a Altineu Côrtes – líder do partido na Câmara e com base eleitoral também em São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado – no sentido de que serão, respectivamente, governador e senador. Conforme a mesma fonte, a mensagem inclui o aviso de que, caso Ruas insista na candidatura agora, ambos trabalhariam contra ele e sua família nas eleições municipais de 2028.
Na outra ponta do espectro político, a leitura sobre o suposto acordo entre Castro e Paes é semelhante. Incomodados com o que consideram fortes indícios de uma possível traição do candidato do PSD a Lula – com quem Paes promete dividir palanque no Rio –, setores do PT passaram a articular nos bastidores a candidatura do ex-deputado estadual e ex-presidente da Alerj André Ceciliano, atualmente secretário de Assuntos Legislativos do Ministério das Relações Institucionais. Com trânsito entre partidos de centro e de direita, Ceciliano calcula já contar com 22 votos entre os 36 necessários – maioria simples – para vencer a eleição indireta na Alerj. Esse número pode crescer caso se confirme uma aliança com Bacellar, que, apesar de afastado e politicamente submerso desde o fim do ano passado, segue influente e já sinalizou a Ceciliano apoio na votação.
Freio. “Eleições indiretas só se disputam quando há condições de vitória”, diz Quaquá – Imagem: Redes Sociais/Prefeitura de Maricá
No PT, a empreitada de Ceciliano conta com o apoio de nomes de peso, como os deputados federais Lindbergh Farias e Benedita da Silva. Pré-candidata ao Senado, Benedita teme ser abandonada por Paes. Com Flávio Bolsonaro fora da disputa por uma das cadeiras na Casa Legislativa, a corrida torna-se mais aberta, e o mínimo de reciprocidade que Lula espera do prefeito do Rio é um apoio concreto a Benedita – até porque a formação de uma bancada robusta de centro-esquerda no Senado é a segunda prioridade do PT nas próximas eleições, atrás apenas da reeleição do presidente. Paes, por sua vez, demonstrou preocupação com as articulações em torno de Ceciliano e disse a interlocutores não ter dúvida de que, se eleito para o mandato-tampão, o petista acabaria se lançando candidato à reeleição em outubro.
As desconfianças mútuas levaram à realização de uma reunião fora da agenda entre Lula e Paes, em Brasília, em 15 de janeiro. No encontro, que incluiu uma conversa reservada de cerca de uma hora, o prefeito teria reiterado apoio à candidatura do petista à reeleição e prometido engajamento na campanha de Benedita. Lula, por sua vez, afirmou a Paes que a manutenção da aliança entre ambos no Rio é fundamental para que o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, recue da intenção de lançar à Presidência da República o governador do Paraná, Ratinho Júnior, também do PSD, ou o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, do Republicanos.
Apesar das promessas e juras de fidelidade, a desconfiança em relação a Paes permanece elevada em setores do PT no Rio. Após o encontro com Lula, o prefeito não ajudou a distensionar a relação ao desconversar sobre o apoio a Benedita. “Eu disse ao presidente Lula que seria uma honra apoiar a deputada, mas disse também que vou buscar a aliança mais ampla possível.” Ao mesmo tempo, Paes participa das articulações para lançar a candidatura ao Senado do deputado federal Pedro Paulo (PSD), seu braço-direito. O prefeito disse não ter dúvida sobre o apoio a Lula, mas acrescentou que não pretende nacionalizar a disputa estadual. “Não será o Lula que vai governar o Rio se eu ganhar”, declarou.
“Não vamos embarcar em aventuras”, reage Washington Quaquá, ao enfatizar que a prioridade é garantir a reeleição de Lula
Ao lado do prefeito da capital, estão petistas influentes, como o vice-presidente nacional do PT e prefeito de Maricá, Washington Quaquá, e o ex-ministro Celso Pansera, representantes da ala que controla a maioria dos diretórios do partido no estado. Quaquá descarta a candidatura de Ceciliano: “Eleições indiretas só se disputam quando há condições de vitória. Não é o caso. A Alerj é majoritariamente de direita. Não vamos fazer alianças com setores envolvidos com a criminalidade para embarcar em aventuras”.
O prefeito de Maricá diz que vai intensificar o diálogo com o PSD e outros aliados: “Paes estará no mesmo palanque de Lula e do candidato do PT ao Senado no Rio. Será fundamental para vencermos o bolsonarismo e garantir o quarto mandato de Lula”.
Pré-candidato a deputado federal, Pansera avalia que arriscar a aliança com Paes agora não traria ganhos à campanha. “Até onde sei, Ceciliano não discutiu isso com a direção estadual nem com a bancada da Alerj.” Para vencer no Rio, “epicentro do bolsonarismo”, acrescenta, é preciso ampliar o leque da aliança em torno de Lula. “Paes tem um palanque forte que pode nos dar uma vitória após mais de uma década”, previu.
Procurado por CartaCapital, Ceciliano afirmou não querer se pronunciar no momento, mas disse estar “disposto a trabalhar pelo que for melhor para a candidatura de Lula”. Benedita da Silva e Lindbergh Farias não responderam até o fechamento desta reportagem. •
Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rede de intrigas’
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