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Razões para perseverar

No Semiárido, projeto tenta evitar o êxodo rural com incentivos à agricultura familiar e uma moeda social

Caatinga. A adoção de uma moeda social aquece o comércio e gera empregos dentro das próprias comunidades, favorecendo o desenvolvimento local – Imagem: João Vital
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Um projeto que mescla tecnologia de agricultura de baixa emissão de carbono (TecABC) e estímulo à economia local tem mudado a realidade do Semiárido de Alagoas, uma das regiões mais afetadas pela desertificação, segundo o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas de 2021. Com impacto sobretudo entre os mais jovens, mulheres e homens que tradicionalmente abandonavam a zona rural em busca de uma vida melhor na cidade grande passaram a receber capacitação para atuar como agentes de desenvolvimento local, com o objetivo de fortalecer a agricultura familiar e fixar essas pessoas no campo. Desde setembro de 2022, também começou a circular na região a moeda social Caatinga, que tem fomentado a economia dos municípios de Batalha, Jacaré dos Homens, Jaramataia e Major Isidoro, no sertão alagoano, a partir de uma parceria com o Projeto Rural Sustentável (PRS) Caatinga, fruto de uma cooperação técnica entre os governos britânico e brasileiro.

Por meio da formação socioambiental, do uso de tecnologia e de incentivo ao comércio local, as estratégias utilizadas têm despertado o interesse de toda uma geração rural até então sem perspectivas. “Juntamente com as práticas agrícolas tradicionais, o PRS Caatinga promove uma série de iniciativas para a capacitação de jovens, que são muito mais interessados em tecnologias da comunicação, com o uso de drones, vídeos, celulares. Além disso, o simples fato de o projeto oferecer instrumentos agrícolas mecanizados, como pequenos tratores e desenvolvedores de terras que eliminam o uso da força humana, tem despertado o interesse dos mais novos, porque o trabalho já não é mais tão braçal e há mais produtividade”, explica Pedro Leitão, coordenador-geral do PRS Caatinga. “Vamos fixar os jovens no campo a partir daquilo que o projeto pode envolvê-los, a tecnologia.”

Novas tecnologias e instrumentos agrícolas mecanizados também contribuem para fixar os jovens no campo

Executado pelo Instituto Irmã ­Dorothy, o curso de agente de desenvolvimento local prepara os jovens para desenvolverem alternativas e criarem condições de convivência com o Semiárido de forma sustentável, numa perspectiva de melhora de vida individual e coletiva, considerando o que o campo tem a oferecer. A ideia é de que esses jovens sejam protagonistas de sua própria história, criando projetos que interfiram positivamente na qualidade de vida social, econômica e ambiental da localidade. Ítalo Vinícius dos Santos, morador do quilombo Cajá dos Negros, em Batalha, é um dos que se formaram pelo programa e classifica como uma “dádiva” a oportunidade que teve para se qualificar e continuar trabalhando no campo.

“Não precisamos mais deixar nossas terras em busca de emprego no Sul do País. Recebemos incentivos para continuarmos no campo e agora contamos também com uma moeda própria que representa a força e a luta do agricultor, um grande estímulo para a localidade”, ressalta Santos, que, enquanto estudava, tinha direito a uma bolsa no valor de 200 Caatingas, correspondente a 200 reais, uma vez que a conversão da moeda social é de 1 por 1. Ao fim do curso, foi contratado pelo Fundo Nacional de Permanência na Terra (Funpet), banco comunitário criado pelo Movimento dos Trabalhadores do Campo (MTC), com investimento inicial de 100 mil reais.

“Tivemos um primeiro momento da Caatinga, quando foi lançada ano passado e circulou no comércio local no formato de cédula de papel. Agora, estamos na transição, migrando para uma moeda digital, que será utilizada com o auxílio de um aplicativo próprio. A pessoa vai lá no comércio, compra e paga com a Caatinga, o comerciante pode passar à frente para fazer circular o dinheiro local ou, então, se quiser, se dirige à sede do banco e faz a conversão para reais. Isto gera um grande benefício para a economia na nossa região, porque, nos municípios pequenos e, por vezes, nos bairros, o comércio tem pouco incentivo, o que contribui para que a pobreza continue, já que o pessoal recebe todo o dinheiro e vai gastar fora do município, sem aquecer o comércio ou gerar emprego. A moeda social é um importante investimento no desenvolvimento local”, destaca Adriano Ferreira, coordenador do Funpet e dirigente nacional do MTC. Além da agricultura familiar, essa região já está consolidada como uma importante bacia leiteira do sertão do estado.

Sustentabilidade. Os agricultores usam técnicas para mitigar gases do efeito estufa – Imagem: João Vital

Dados da Rede Brasileira de Bancos Comunitários, instituição correspondente ao Banco Central que regula as moedas sociais, dão conta de que existem no Brasil mais de 120 mil contas nos bancos que administram moedas sociais e cerca de 15 mil estabelecimentos comerciais recebem esse dinheiro. Cerca de 50 estabelecimentos do Semiárido alagoano estão cadastrados para receber a Caatinga. Instituição financeira garantidora da moeda social, o Funpet também trabalha com uma carteira de microcrédito para cooperativas e agricultores e disponibiliza a abertura de conta bancária de forma menos burocrática aos moradores dos quatro municípios onde a moeda circula. Segundo Ferreira, os créditos vão de 500 a 3 mil reais, com o objetivo de financiar insumos a juros de 1% ao mês e carência de dois meses.

A ideia é que a Caatinga possa contribuir com a sustentabilidade na produção agrícola do bioma que deu o nome à moeda social e que predomina no Semiárido, ao mesmo tempo que alavanca as atividades produtivas numa reorientação dos agricultores e em um trabalho de conscientização para a necessidade de redução das emissões de gases de efeito estufa. Pedro Leitão lembra que o preceito de uma moeda social é tornar o comércio fluente, dentro de uma lógica convergente entre produtores e comerciantes, beneficiando tanto quem vende quanto quem compra. “É uma boa ideia, mas precisa que haja dinâmica econômica e de consenso sobre o uso da moeda”, diz, lembrando ainda que uma moeda social é capaz de gerar um sentimento de identidade entre toda a população envolvida, sejam produtores rurais, sejam comerciantes ou consumidores.

O coordenador regional do PRS ­Caatinga, Francisco Campello, destaca o papel da cooperativa Cheiro da Terra, o braço executor do Funpet na comercialização dos produtos da agricultura familiar no Sertão alagoano a partir do uso da Caatinga. “A moeda entra para fortalecer esse processo de comercialização, fazendo com que os produtos saiam diretamente das comunidades para abastecer o mercado.” Ele lembra que o maior desafio das organizações que atuam no Semiárido é tornar possível a convivência na região, a partir de estratégias sustentáveis, resilientes e de baixo carbono, sem degradar o bioma Caatinga tão castigado pelo clima árido.

“Nosso objetivo é fazer com que a produção orgânica dos pequenos agricultores e a luta pela convivência estejam inseridas numa agenda maior, que é a questão climática, da conservação da biodiversidade e de combate à desertificação”, salienta ­Campello, acrescentando que a ideia de que a caatinga está condenada à seca e à terra rachada é ultrapassada. O gestor ressalta que o Semiárido é hoje um local de oportunidades e o jovem já entendeu isso, fazendo questão de continuar na localidade, se capacitar e seguir a tradição familiar no campo, a partir do uso das tecnologias. •

Publicado na edição n° 1263 de CartaCapital, em 14 de junho de 2023.

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