Política
Radar de tubarões
Pernambuco retoma, após 11 anos, projeto para monitorar os animais nas praias da Grande Recife
Estado com o maior número de ataques de tubarões do Brasil, Pernambuco voltará a monitorar esses predadores nas praias da Região Metropolitana do Recife, área que concentra a maioria dos casos registrados. É o que prevê um edital lançado este mês pelo governo estadual, cujas inscrições seguem abertas até o início de março. Em 9 de janeiro, a advogada Tayane Dalazen foi mordida por um tubarão-lixa durante um mergulho em Fernando de Noronha, arquipélago que já conta com esse tipo de controle. Com duração de 24 meses, o projeto terá investimento de 1 milhão de reais e atuará em 33 quilômetros de litoral entre os municípios de Cabo de Santo Agostinho, onde está situado o Porto de Suape, e Olinda, abrangendo também as praias de Boa Viagem e Piedade, locais onde os incidentes são mais frequentes. A previsão é de que o programa comece a ser executado a partir de maio deste ano, 11 anos após ter sido interrompido, em 2015.
Entre 1992 e janeiro deste ano, foram registrados 81 ataques de tubarões em Pernambuco, sendo 67 no litoral continental e 14 em Fernando de Noronha, resultando em 26 mortos e 55 feridos. Segundo a Secretaria Estadual de Meio Ambiente, o monitoramento permitirá desenvolver campanhas de conscientização para o uso seguro das praias. O controle das espécies será realizado por meio de redes acústicas, telemetria e sistemas de alerta quase em tempo real, utilizando abordagens não letais, baseadas em evidências científicas e comunicação preventiva. De acordo com o engenheiro de pesca Paulo Oliveira, professor da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), o trabalho consiste na captura do animal, que será marcado e devolvido ao mar. Os tubarões receberão chips, que serão identificados por receptores submersos ao longo do trecho monitorado.
O projeto também prevê a integração de dados com modelagem oceanográfica e sensoriamento remoto de variáveis ambientais, envolvendo não apenas pesquisadores, mas também comunidades pesqueiras, usuários do litoral e equipes operacionais. A partir disso, serão criadas plataformas digitais integradas para análise, visualização e comunicação preventiva. “Quando a gente fala em monitoramento, está querendo desvendar o comportamento de vida do animal, neste caso dos tubarões. O pulso emitido com a marcação pode ser captado por estações dentro d’água, fazendo com que, sempre que esse animal, em seu deslocamento, passar próximo aos receptores, os equipamentos transmitam a informação de que ele passou ou está naquela região”, explica Oliveira, acrescentando que esse acompanhamento será capaz de identificar, por exemplo, os horários e épocas do ano em que eles estarão mais próximos ou afastados da costa.
Com 81 ocorrências desde 1992, o estado concentra cerca de 60% dos ataques registrados no País
“Todas essas informações serão repassadas à população, para que os banhistas utilizem o mar de forma mais consciente. Os dados também devem subsidiar políticas públicas voltadas para a educação ambiental”, diz o pesquisador. Com base nas informações levantadas, a Secretaria de Meio Ambiente, de Sustentabilidade e de Fernando de Noronha pretende criar o Plano de Ação Estadual para Pesquisa e Monitoramento de Tubarões em Pernambuco. “O monitoramento na Região Metropolitana é essencial para entendermos melhor o comportamento desses animais, proteger o ambiente marinho e garantir mais segurança para a população”, afirma o secretário Daniel Coelho. “Ao levar a ciência para o centro da gestão pública, o governo reforça o compromisso com decisões responsáveis, que salvam vidas, preservam a natureza e promovem uma convivência mais harmônica entre seres humanos e tubarões.”
Segundo Oliveira, dentre as espécies mais comuns de tubarões no litoral pernambucano, as mais agressivas e predadoras são o tubarão-tigre e o cabeça-chata. “Apesar de incidentes com tubarões não serem fenômenos exclusivos de Pernambuco, é importante explicar que esses episódios ocorrem devido a questões específicas de cada local. A grande maioria está associada à degradação generalizada dos ecossistemas costeiros, deixando o oceano inadequado para esses animais viverem”, destaca o engenheiro de pesca. É o caso do Porto de Suape, em Pernambuco. “Tínhamos um estuário que foi impactado, houve supressão da vegetação.”
Fazendo um paralelo com outras regiões que possuem grandes empreendimentos, mas não registram incidentes com tubarões, o pesquisador explica que fatores oceanográficos, como o relevo da topografia submarina, também podem atrair os animais para a beira da praia, aproximando-os de áreas frequentadas por banhistas. “As praias do Recife e da Região Metropolitana têm como característica serem profundas, mesmo próximas à costa, o que acaba servindo de corredor para várias espécies de peixes, inclusive tubarões, em seus processos de migração e alimentação”, diz, citando a Praia de Boa Viagem, onde, na maré alta, é comum a presença de tubarões logo após os corais, que ficam na beira da praia. “Esta é uma região muito profunda, mesmo situada logo após a primeira linha de recifes, bem perto de onde os turistas costumam tomar banho.” •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Radar de tubarões’
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