Política
Rachadinha eleitoral
Áudios apontam esquema de arrecadação na Sanepar para quitar dívida de campanha de Ratinho Jr.
O escândalo da Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) ganhou novo fôlego com a divulgação de áudios inéditos apresentados pela oposição na Assembleia Legislativa. As gravações, publicadas pelo site Diário de Maringá, revelam diálogos entre Rafael Malaguido, ex-gerente da estatal, e Jaime Antônio de Camargo Ferreira, ex-chefe de gabinete do atual secretário das Cidades, Guto Silva. Nos áudios, os interlocutores tratam da arrecadação de dinheiro entre funcionários da estatal para cobrir dívidas da campanha de reeleição do governador Ratinho Júnior. O material amplia de forma significativa a dimensão do caso ao detalhar valores, métodos, prazos, movimentações financeiras e mecanismos de pressão interna.
As gravações foram apresentadas pelo deputado estadual Arilson Chiorato, presidente do PT no Paraná e líder da oposição, que avalia tratar-se de um material decisivo para compreender a dimensão política do caso. “As conversas impressionam pela objetividade e naturalidade de como tratam a arrecadação de 4 milhões de reais”, diz o parlamentar. “Os interlocutores discutem valores parcelados, estabelecem datas, combinam horários e tratam a entrega de dinheiro em espécie como uma prática corriqueira.”
Há menções a saques bancários realizados por terceiros para viabilizar repasses, além de cuidados explícitos para evitar rastreamentos diretos. O tom das falas indica pressa, controle rigoroso de prazos e cobrança por resultados, o que reforça a suspeita de que os recursos não transitavam pelos mecanismos oficiais de financiamento eleitoral. Ao longo das gravações, surgem referências diretas a figuras centrais do governo, como o próprio governador Ratinho Jr., o secretário das Cidades, Guto Silva (PSD), pré-candidato ao governo do Paraná, e o ex-presidente da Sanepar, Claudio Stabile, entre outros nomes ligados à cúpula da administração estadual.
Em um dos trechos, os interlocutores mencionam a necessidade de levantar 200 mil reais para a campanha de Ratinho Jr. A articulação desse pedido é atribuída a Guto Silva, personagem recorrente nas denúncias já tornadas públicas. As falas sugerem que a solicitação não foi pontual, mas integrada a uma mobilização mais ampla, envolvendo diferentes atores e ocorrendo, inclusive, antes da formalização de nomeações dentro da estrutura do governo. O teor das conversas indica que contribuições financeiras estariam associadas a nomeações para cargos comissionados.
Outro ponto sensível revelado pelos áudios diz respeito ao receio em relação a depósitos bancários identificáveis. Três transferências específicas são citadas como potenciais problemas, e há preocupação de que determinadas movimentações financeiras pudessem comprometer terceiros. As conversas revelam um esforço claro para dissociar esses depósitos de qualquer vínculo direto com campanhas eleitorais, numa tentativa de construir versões defensivas diante de eventual apuração.
Em 2020, o Ministério Público do Paraná deflagrou a Operação Ductos para apurar denúncias de fraudes em licitações, superfaturamento e pagamentos por serviços não prestados à companhia de saneamento entre 2018 e 2019. O Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) apresentou denúncia criminal contra 26 indiciados. À época, a Sanepar informou ter afastado cautelarmente os servidores envolvidos. O processo ainda tramita na Justiça, sem sentença definida.
O governo do Paraná sustenta que os áudios se inserem no contexto dessa investigação, mas a associação é questionada pela oposição. Enquanto a Operação Ductos apurou crimes como fraude em licitação, peculato e falsificação de documentos, as gravações agora divulgadas tratam especificamente da arrecadação de recursos para quitar dívidas de campanha eleitoral, tema de natureza distinta e que aponta para outra linha de apuração.
Nos áudios, as conversas avançam para um terreno ainda mais delicado: o da chantagem. Em diferentes trechos, os interlocutores tratam as gravações como ativos de negociação. Há relatos sobre a posse de áudios que comprovariam pedidos de dinheiro e pressões internas, utilizados como forma de proteção pessoal ou de barganha por permanência ou retorno a cargos públicos. Em uma das falas, o uso desses grampos aparece como estratégia para garantir espaço dentro da administração, instaurando uma lógica de poder sustentada pelo silêncio ou pela ameaça de exposição.
As gravações sugerem que funcionários comissionados foram acionados para cobrir débitos de 4 milhões de reais
No desfecho do material divulgado, os interlocutores afirmam que 600 mil reais foram entregues “em mãos”, segundo relato atribuído a um terceiro. Embora o áudio não detalhe nomes, datas, locais ou circunstâncias, a simples referência amplia a dimensão financeira das suspeitas e reforça a necessidade de uma apuração rigorosa e independente. Cabe, no entanto, um questionamento relevante sobre a própria necessidade dessa arrecadação. Em outubro de 2022, o presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab, autorizou formalmente o pagamento de uma dívida da campanha de Ratinho Jr. no valor de 3,42 milhões de reais, determinando que a quitação fosse realizada por meio do diretório estadual do partido. Por que, então, houve uma arrecadação paralela envolvendo servidores?
Para o deputado estadual Requião Filho (PDT), pré-candidato ao governo do Paraná, “a suposta arrecadação de 4 milhões de reais precisa ser mais bem explicada, porque pode indicar sobreposição de pagamentos, duplicidade de quitação ou a existência de valores que não passaram pela contabilidade oficial da campanha”. Com a divulgação dos áudios, a oposição passou a articular medidas formais. Os parlamentares já acionaram o Ministério Público, a Polícia Federal e a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) para que o conteúdo das gravações seja analisado. Chiorato e Requião também encaminharam ofícios à Secretaria da Casa Civil do governo Ratinho Jr. e à Sanepar, solicitando acesso às informações.
Os parlamentares da oposição reconhecem que os áudios são, até o momento, os únicos documentos disponíveis, mas acreditam que a gravidade dos relatos justifica a abertura de investigação, incluindo a análise de movimentações financeiras, eventual quebra de sigilos e a oitiva dos citados.
CartaCapital encaminhou um e-mail à Secretaria de Comunicação do Paraná (Secom), solicitando posicionamento sobre os áudios e eventuais medidas adotadas em relação aos servidores indiciados pelo Ministério Público na Operação Ductos. Em resposta, a Secom reiterou que a denúncia do PT do Paraná é antiga e já teria sido apurada pela Sanepar e pelo MP, classificando o caso como “pauta velha, sem fato novo”. Sobre os servidores investigados, não fez qualquer esclarecimento. •
Publicado na edição n° 1395 de CartaCapital, em 14 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Rachadinha eleitoral’
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