Diversidade

‘Quilombo nos Parlamentos’ apresenta candidaturas comprometidas com a agenda antirracista

Idealizado pela ‘Coalizão Negra Por Direitos’, a iniciativa encampa mais de 100 pré-candidatos em todas as regiões do País

Representantes da Coalizão Negra por Direitos durante o evento de lançamento das pré-candidaturas para as eleições de 2022 - Foto: Reprodução
Representantes da Coalizão Negra por Direitos durante o evento de lançamento das pré-candidaturas para as eleições de 2022 - Foto: Reprodução
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Uma iniciativa histórica, que uniu 100 negros e negros, de mais de 18 estados do País, em torno de uma ação suprapartidária nacional contra o racismo – e dispostos a ocupar o Congresso Nacional e as Assembleias Legislativas de seus estados. 

Esta é um resumo do projeto ‘Quilombo nos Parlamentos’, lançado nesta segunda-feira 6. A proposta foi idealizada pela Coalizão Negra Por Direitos, que reúne mais de 250 organizações lideradas por e para pessoas negras.  

“Só aumentar a candidatura negra, não é suficiente. Nós precisamos eleger essas candidaturas. Sem dúvida que o partido é o principal instrumento, ele ainda determina candidatos que têm chance e os que não têm chance”, afirma Douglas Belchior (PT-SP), representante da Coalizão e idealizador da iniciativa, em entrevista a CartaCapital.

“Se o campo progressista, se a esquerda como um todo, for realmente responsável com o discurso antirracista, precisa dar apoio a candidaturas negras”, provoca Belchior. “Esse é um bom teste pra medir o nível da sinceridade ou da hipocrisia do campo progressista e das esquerdas em relação ao tema racial”. 

O lançamento, na Ocupação Nove de Julho, em São Paulo, contou também com a participação de outras grandes lideranças e referências do movimento, como Sueli Carneiro, filósofa e feminista negra; Milton Barbosa, um dos fundadores do Movimento Negro Unificado (MNU); a socióloga Vilma Reis, colunista de CartaCapital e pré-candidata a deputada federal (PT-BA) e Carmen Silva, líder do Movimento Sem Teto do Centro de São Paulo e pré-candidata a deputada estadual (PSB-SP).

Fruto de uma conquista coletiva

Durante o evento, não faltaram referências à cultura afrobrasileira. Da espada de São Jorge no pé do palco aos discursos que reverenciaram às memórias e ensinamentos de Zumbi dos Palmares, Dandara, Marielle Franco e outros tantos.

A presença de tantas lideranças de cada região do país, destacaram os participantes, era marco de um longo processo coletivo para que eles pudessem estar ali, pleiteando espaço na política institucional. 

“Somos nós, mulheres negras, que empurramos a esquerda para a esquerda. Nesse processo, desde 2020 que nós da Coalizão Negra, a gente vem fazendo diferentes estratégias para ampliar a presença de ativistas do movimento negro nas Casas Legislativas”, disse Monica Oliveira do Movimento Negro Unificado (MNU) e do Observatório Negro do Recife.

Entre essas conquistas, está a divisão proporcional do fundo eleitoral entre candidatos negros e brancos, confirmada pelo STF em 2020. Como consequência, houve um aumento histórico de candidaturas negras naquele ano, que tiveram a maior proporção e o maior número de candidatos negros já registrados pelo TSE.

O tema, contudo, não é motivo apenas de celebração, mas também da preocupação com as chamadas ‘candidaturas laranjas’ –que se candidatam formalmente, não fazem campanha, e nem buscam voto, servindo a outras candidaturas como moeda de troca eleitoral.

A necessidade do protagonismo da população negra, que compõe 54% da população brasileira, também foi um dos destaques do discurso do ex-presidente Lula. “Precisamos contar para a sociedade brasileira uma narrativa não apenas do nosso passado, mas tentar construir uma narrativa daquilo que precisamos construir com a participação do movimento negro. Ocupando todos os espaços que temos direito. E os negros mais ainda.”

Contaminado pela Covid, ele gravou um vídeo exibido no telão. “Queremos negros nos concursos em todas as repartições públicas. O nosso país tem que ser resultado da nossa cor. E negros e negras não são minoria, são maioria”.

Eleger mas, sobretudo, proteger

Anielle Franco, diretora do Instituto Marielle Franco, também presente no evento, recordou o assassinato da sua irmã, a vereadora Marielle Franco e relembrou que a presença de pessoas negras, ao colocarem suas agendas no espaço político, requerem maior proteção. “Quero celebrar as mulheres negras enquanto elas estão vivas. Não basta elegermos, temos que cuidar. Que a gente tenha muitas mulheres e homens negros eleitos, mas que a gente não deixe de vigiar e de cuidar dos nossos e das nossas”.

As ameaças de morte marcam, inegavelmente, a legislatura dessas candidatas. Mas isso não intimida ou enfraquece essas lideranças. “Nós vamos continuar efetivando a ocupação de espaço no poder para subverter o poder com outra ética, com outra estética, com outra lógica”, destacou a deputada Mônica Francisco (PSOL-RJ). Para elam o fazer político a partir da vivência negra é o grande destaque das eleições de 2022. “Não fazemos nova política. A gente faz política de outras formas.” 

O projeto também contou também com a campanha “O voto antirracista derrota Bolsonaro” que consiste na criação de comitês, de qualquer tamanho, para mobilizar o seu entorno sobre as candidaturas negras da sua região. Os comitês têm o apoio da Coalizão.

Camila da Silva

Camila da Silva
Repórter e Produtora de CartaCapital

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