Política
Quem é Caroline Campagnolo, deputada que quer a denúncia de professores ‘doutrinadores’?
Definindo-se como “antifeminista, conservadora, cristã e de direita”, entrou na Justiça contra sua orientadora após ser reprovada no mestrado
A recém-eleita deputada estadual pelo PSL de Santa Catarina Ana Caroline Campagnolo, de 28 anos, ficou famosa em todo o País ao incentivar a denúncia de “professores doutrinadores”. Definindo-se como “antifeminista, conservadora, cristã e de direita”, teve uma carreira política meteórica: segundo a imprensa catarinense, é cotada para ser a futura secretária de Educação em Santa Catarina. A vida acadêmica inclui acionar a Justiça contra sua orientadora no mestrado.
Filha de um Policial Militar da reserva, evangélica, professora de história do município de Chapecó, oeste de Santa Catarina, Campagnolo é graduada pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó. Disputou pela primeira vez um cargo eletivo e jamais ocupou qualquer função pública.
“Eu tenho a sensação que ela construiu um personagem com o intuito de buscar um espaço na carreira política” afirmou uma colega de faculdade que falou a CartaCapital sob condição do anonimato. “Na sala de aula, nos debates ela era comedida, mas polêmica e muita agressiva nas redes sociais. Chegou a ter a página no Facebook suspensa em função de suas posições”.
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Depois de concluir o curso de História, estudou enfermagem na Universidade Federal Fronteira Sul, mas desistiu. Criada no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a quase totalidade dos alunos são oriundos de escolas públicas. “Ela dizia que os professores eram doutrinadores de esquerda. Daí, resolveu abandonar a universidade”, lembra a colega.
A partir de 2013, Campagnolo leva seu discurso para a internet ao criar um canal no YouTube. Fã do filósofo Olavo de Carvalho, sugere livros, resenhas e “obras clássicas” que considera fundamentais para o “crescimento cultural e que não são indicados na faculdade”. Defende o projeto da “Escola Sem Partido”, critica a política da “ideologia de gênero” e passa a nominar os integrantes da comunidade LGBT da cidade.
Neste mesmo ano, envolveu-se em outra enrascada que acabou nos Tribunais. Após ter seu projeto de mestrado selecionada pela Universidade do Estado de Santa Catarina – cujo título era “Virgindade e Família: mudança de costumes e o papel da mulher percebido através da análise de discursos em inquéritos policiais da Comarca de Chapecó – teve desentendimentos com sua orientadora, Marlene de Fáveri, ao acusá-la de “perseguição ideológica”. Alega ter sido vítima de “estresse emocional e sofrimento psíquico, situação de humilhação e sensação de cerceamento”.
Fáveri pediu afastamento e substituição da condição de orientadora da mestranda, alegando que não poderia orientar alguém que não acredita naquilo que estuda. A então mestranda seguiu adiante em seus estudos até maio de 2016, quando foi reprovada pela banca final da UESC. Foi aí que resolveu acionar a ex-orientadora na Justiça por danos morais. Em 5 de setembro último, o juiz André Alexandre Happke, do 1º Juizado Especial da Comarca de Chapecó, arquivou o processo. Julgou a ação improcedente por falta de provas.
Filiada ao PSL, Campagnolo passou então a arquitetar sua candidatura à sombra do ex-capitão e agora presidente eleito Jair Bolsonaro. Não sem antes transferir o domicílio eleitoral para Itajaí, no litoral catarinense. “Até agora ninguém sabe porque ela foi embora para Itajaí se sua base eleitoral é Chapecó. Um mistério”, reitera a amiga.
O discurso foi do antipetismo, o combate à corrupção, contra a ideologia de gênero, a favor da escola sem partido, comunismo e, naturalmente, a franquia ao uso de arma pelo cidadão comum. Durante a campanha, ela fez questão de posar com armas nas redes sociais. Campagnolo, que obteve 34.825 votos.
Até domingo 28 a fama virtual restringia-se ao seu Estado. Às 19:44 de domingo, porém, Ana Caroline publicou em sua página do Facebook um post incentivando os estudantes a filmar ou gravar “na semana do dia 29 de outubro (…) todas as manifestações político-partidárias ou ideológicas que humilhem ou ofendam sua liberdade de crença e consciência”.
Justificou a medida em função de “muitos professores doutrinadores estarão inconformados e revoltados com a vitória do presidente Bolsonaro” e, portanto, “não conseguirão disfarçar sua ira e farão da sala de aula uma audiência cativa para suas queixas político-partidárias”. Em outra mensagem, mais recente, ela justifica o ato como “promessa de campanha”.
As opiniões pelas redes sociais se dividiram. Comunidade acadêmica e adversários reagiram contrários, enquanto seus eleitores, a maioria dos comentaristas, apoiaram. No segundo turno das eleições, Jair Bolsonaro obteve 75,92% dos votos válidos em Santa Catarina. O governador eleito, comandante Moisés, do mesmo PSL, conquistou 71,09% – a maior votação da história catarinense.
Na segunda-feira 29, uma petição online com mais de 200 mil assinaturas de todo o País denunciava a medida, tratada como “tentativa de cerceamento dos professores”. O Ministério Público de Santa Catarina anunciou que vai apurar a conduta da deputada eleita. A 25ª Promotoria de Justiça de Florianópolis instaurou, de oficio, procedimento para verificar “possível violação ao direito à educação dos estudantes catarinenses para adoção das medidas cabíveis”.
Na segunda-feira 29 uma nova agressão envolvendo o nome da nova deputada: o diretório do PCdoB, em Florianópolis, recebeu uma encomenda pelo correio contendo panfletos com imagens de Ana Caroline de armas em punho. No alto, os dizeres: “petistas, não se metam com o Bolsonaro. Depois falam que não avisei”. Na parte externa do envelope veio colado um lembrete: “domingo as urnas encerram às 17 horas”. O número de Bolsonaro na eleição. O diretório registrou o Boletim de Ocorrência e constatou que o endereço do remetente, na vizinha Balneário de Camboriú, não existe.
Diretório do PCdoB em Florianópolis recebeu correspondência com imagens de Ana Caroline
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