Queiroga diz que mudou de ideia sobre Luana Araújo e irrita senadores: ‘Mente para se agarrar ao cargo’

'Dá tristeza ver um cidadão com mais de 30 anos de carreira na medicina se sujeitar a mentir desse jeito', criticou Alessandro Vieira

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Política

O ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, disse nesta terça-feira 8 que a decisão de não oficializar a nomeação da médica infectologista Luana Araújo para um cargo na pasta partiu dele, e não de outras instâncias do governo de Jair Bolsonaro. A declaração foi feita à CPI da Covid.

 

 

Na semana passada, em depoimento à comissão, Araújo afirmou que o convite para que ela assumisse a Secretaria Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 não se concretizou porque seu nome “não iria passar pela Casa Civil”.

Nesta terça, Queiroga apresentou outra versão. “Eu entendi que, naquele momento, a despeito da qualificação que a doutora Luana tem, não seria importante a presença dela para contribuir para harmonização desse contexto. Então, no ato discricionário do ministro, decidi não efetivar a sua nomeação”, justificou.

“Eu volto a esclarecer: não houve óbices formais da Secretaria de Governo e da Casa Civil. Não houve óbices formais”, insistiu Queiroga.

A contradição enervou senadores da CPI. Alessandro Vieira (Cidadania-SE), titular do colegiado, escreveu nas redes sociais que “dá tristeza ver um cidadão com mais de 30 anos de carreira na medicina se sujeitar a mentir desse jeito para se agarrar a um cargo de ministro”.

“Queiroga tenta assumir a negativa de nomeação da Dra Luana como opção sua. Ele mesmo apontou para o presidente em declaração anterior”, criticou Vieira.

O presidente da comissão, Omar Aziz (PSD-AM), também se incomodou com a nova postura de Queiroga. “Vossa Excelência esteve aqui e disse que tinha autonomia no ministério, convida uma pessoa para trabalhar com o senhor. Se o senhor não quisesse ela, não teria nem encaminhado para a Casa Civil. Depois que o senhor encaminha para a Casa Civil é que o senhor vai ver que tem divergência?”, perguntou.

No dia 12 de maio, Luana Araújo chegou a ser anunciada por Queiroga para integrar o Ministério da Saúde. Após dez dias no posto, entretanto, a infectologista foi avisada pelo próprio ministro de que não permaneceria.

Em seu depoimento à CPI da Covid em 2 de junho, Araújo criticou a difusão do inexistente ‘tratamento precoce’, baseado em medicamentos comprovadamente ineficazes contra o novo coronavírus. “Quando eu disse que um ano atrás nós estávamos na vanguarda da estupidez mundial, eu infelizmente ainda mantenho isso em vários aspectos, porque nós ainda estamos aqui discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se a gente estivesse escolhendo de que borda da Terra plana a gente vai pular, não tem lógica”.

Questionada na ocasião pelo relator da CPI, o senador Renan Calheiros (MDB-AL), se a sua continuidade no Ministério da Saúde foi inviabilizada por sua defesa da ciência e por seu repúdio ao uso de remédios ineficazes, a infectologista respondeu que “se isso aconteceu, é extremamente lamentável, trágico”.

“Eu abri mão de muitas coisas pela chance de ajudar o meu País. Não precisava ter feito isso. Os senhores acham que as pessoas, de fato, que têm interesse de ajudar o País e competência a fazer isso, neste momento, se sentem muito compelidas a aceitar esse desafio? Não se sentem. Então, infelizmente, a gente está perdendo”, acrescentou.

Para Aziz, o fato de a indicação de Luana Araújo não receber o aval do governo de Jair Bolsonaro sinaliza que Queiroga mentiu em seu primeiro depoimento à CPI, em 6 de maio.

“É inacreditável que alguém formada por uma das melhores universidades do mundo seja vetada. O ministro Queiroga disse aqui pra nós que teria autonomia para nomear quem ele quisesse. Já está provado que não é verdade, ele mentiu aqui para a gente”, criticou Aziz após o depoimento de Araújo.

Luana Araújo se formou em Medicina pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e fez pós-graduação na Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos.

Em sua primeira oitiva, Queiroga garantiu que Bolsonaro lhe deu autonomia para formar a sua equipe no Ministério da Saúde. “Recebi autonomia para isso e todos os meus secretários foram escolhidos conforme critérios técnicos”, declarou.

 

Militares

Questionado nesta terça-feira sobre a ostensiva presença de militares em cargos no Ministério da Saúde, nomeados durante a gestão de Eduardo Pazuello, Queiroga disse que a “militarização” ou a “desmilitarização” do ministério não é sua prioridade.

“O Ministério da Saúde é imenso, tenho preocupação sobre vacinação, não fico contando militar e não militar”, declarou o ministro. Ele afirmou que “ficarão os que têm competência”.

 

‘Capitã Cloroquina’

No depoimento, o ministro da Saúde também disse que a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na pasta, Mayra Pinheiro, não trabalha em temas ligados ao tratamento da Covid-19.

Conhecida como “Capitã Cloroquina”, Pinheiro defende o uso de medicamentos sem eficácia no combate ao novo coronavírus. Na gestão de Pazuello, foi responsável por elaborar o aplicativo TrateCov.

Queiroga tornou a dizer que não há “evidência comprovada” sobre a eficácia desses medicamentos para pacientes com Covid-19.

 

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