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PT espera intervenção direta de Lula para destravar alianças estaduais no Nordeste

Em 2022, o presidente conseguiu eleger aliados em praticamente toda a região. Entenda as principais tensões

PT espera intervenção direta de Lula para destravar alianças estaduais no Nordeste
PT espera intervenção direta de Lula para destravar alianças estaduais no Nordeste
O presidente Lula durante cerimônia de anúncios relativos à segurança hídrica da Bahia, em 7 de fevereiro de 2025. Foto: Ricardo Stuckert/PR
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A cúpula do PT espera contar com a intervenção direta do presidente Lula para destravar os impasses que travam a montagem das chapas majoritárias em parte do Nordeste — região estratégica tanto para o projeto de reeleição quanto para a formação de uma base sólida no Senado.

Estão no radar Bahia, Maranhão, Pernambuco e Rio Grande do Norte. O Ceará também exige atenção redobrada, diante da possibilidade de o governador Elmano de Freitas enfrentar o ex-ministro Ciro Gomes. A Paraíba completa a lista de estados sob monitoramento.

Em 2022, Lula conseguiu eleger aliados em praticamente toda a região. A exceção foi Pernambuco, onde Raquel Lyra, então no PSDB, derrotou a petista Marília Arraes no segundo turno.

Os conflitos se repetem, com variações locais: divergências sobre nomes, arranjos partidários e estratégias para as disputas aos governos estaduais e às cadeiras no Senado. Tratada como prioridade pelo bolsonarismo — por ser a porta de entrada para pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal —, a Casa Alta também passou a ocupar posição central no cálculo petista. Onde faltam quadros competitivos, a orientação é apoiar candidatos de partidos que integram o arco de alianças do governo, como PSB, PP e PDT.

Bahia

É justamente o Senado que concentra o maior foco de atrito na Bahia. No estado governado pelo PT há quase 20 anos, o governador Jerônimo Rodrigues deve disputar a reeleição em uma chapa formada exclusivamente por petistas, ao lado dos ex-governadores Rui Costa e Jaques Wagner.

A decisão irritou o senador Angelo Coronel, aliado histórico do PT baiano, que esperava permanecer na composição para tentar a reeleição. Dirigentes do partido afirmam que pesquisas internas indicaram maior competitividade para uma chapa “puro-sangue” diante da candidatura de ACM Neto (União Brasil).

Como gesto de compensação, o PT chegou a discutir a entrega da vaga de vice ao PSD — hipótese que, por sua vez, tende a gerar atrito com o MDB, atual detentor do posto — ou a manutenção do comando da Assembleia Legislativa em um eventual segundo mandato. As conversas, porém, não avançaram e o risco de rompimento passou a ser tratado como real.

O presidente estadual do PT, Tassio Brito, tenta reduzir a temperatura. “Temos maturidade para buscar consenso. O presidente Lula confia na nossa direção política. Não se trata de uma chapa puro-sangue, mas de uma chapa de todos os partidos da base”, afirmou a CartaCapital.

Maranhão

No Maranhão, o impasse é mais profundo e envolve diretamente o Planalto. Por orientação de Lula, houve uma reunião recente entre o governador Carlos Brandão (PSB) e o vice Felipe Camarão (PT), última tentativa de reaproximação após o rompimento político entre Brandão e o ex-governador Flávio Dino. A proposta de uma “renúncia dupla”, que abriria espaço para um rearranjo eleitoral, foi rejeitada, segundo interlocutores das negociações.

Brandão já comunicou a aliados que pretende cumprir o mandato até o fim, inviabilizando uma candidatura de Camarão com a máquina estadual. O acordo firmado em 2022 previa que o governador disputaria o Senado, apoiando o petista na sucessão, mas Brandão passou a articular o nome do sobrinho, Orleans Brandão, atual secretário de Assuntos Municipalistas e presidente estadual do MDB.

A maior preocupação do Planalto é o crescimento do ex-prefeito Lahesio Bonfim (Novo), que pode se beneficiar da fragmentação do campo governista. Lula defende que Brandão dispute o Senado — o que o obrigaria a deixar o governo em abril —, mas o governador resiste, justamente para não dar visibilidade a Camarão. Auxiliares avaliam como remota uma candidatura petista e veem o cenário caminhar para uma composição com o PSD, em torno do prefeito de São Luís, Eduardo Braide.

Pernambuco

Em Pernambuco, a disputa se nacionalizou. O embate opõe o prefeito do Recife, João Campos (PSB), à governadora Raquel Lyra (PSD). O partido de Gilberto Kassab aparece como fiel da balança: o apoio à reeleição de Lula pode ser condicionado ao alinhamento do PT com Raquel no estado, em um contexto em que o PSD não trabalha com candidatura presidencial própria.

A maioria do PT pernambucano, contudo, defende apoio a Campos, que preside o PSB nacional e deve transformar o estado em prioridade da legenda como contrapartida ao apoio ao projeto lulista. Há setores que admitem dois palanques para Lula, caso Raquel se comprometa com o presidente. Independentemente da definição, afirma Carlos Veras, a prioridade local é a reeleição do senador Humberto Costa.

Rio Grande do Norte

No Rio Grande do Norte, a sucessão da governadora Fátima Bezerra ganhou contornos inéditos após o vice Walter Alves (MDB) anunciar que não assumirá o Executivo quando a petista deixar o cargo para disputar o Senado. A decisão abre caminho para uma eleição indireta na Assembleia Legislativa, cenário visto com apreensão pela possibilidade de o bolsonarismo controlar o governo às vésperas do pleito.

Fátima apoia seu secretário da Fazenda, Cadu Xavier, para o governo. No Senado, pesquisas indicam a liderança de Styvenson Valentim, com a segunda vaga disputada entre a governadora e Zenaide Maia. A relação entre as duas se deteriorou após o PT lançar candidatura própria em São Gonçalo do Amarante em 2024, contra o marido da senadora.

Paraíba

Na Paraíba, a Federação Brasil da Esperança ainda não decidiu se apoiará Lucas Ribeiro (PP) ou o prefeito de João Pessoa, Cicero Lucena (MDB). O impasse reflete divisões internas: o PCdoB defende Ribeiro, o PV se aproxima de Lucena e o PT segue rachado. A tendência é que a Executiva Nacional dê a palavra final. Para o Senado, o desenho mais provável inclui Joao Azevedo (PSB) e Veneziano Vital do Rego.

Alagoas

Alagoas também deve entrar no radar direto de Lula. A disputa pelo governo tende a se concentrar entre o ministro Renan Filho (MDB) e o prefeito de Maceió, Joao Henrique Caldas (PL). JHC, reeleito em 2024 com 83,25% dos votos, governou a única capital nordestina vencida por Jair Bolsonaro em 2022. Apesar do discurso alinhado à direita, se aproximou de Lula quando sua tia, Marluce Caldas, concorreu a uma vaga no STJ.

No Senado, o embate colocará frente a frente Renan Calheiros e Arthur Lira, líderes dos dois principais grupos políticos do estado. É a primeira vez que disputam o mesmo cargo. Outros nomes, como Marina JHC e o deputado Alfredo Gaspar, surgem como potenciais fatores de desequilíbrio.

Sergipe

Em Sergipe, o governador Fabio Mitidieri (PSD) já oficializou sua chapa, mas deve ser chamado para conversar com Lula até o fim de fevereiro. Em jogo estão o apoio à reeleição do presidente e a possível recomposição da aliança com o PT, rompida em 2020. Mitidieri apoiou Lula em 2022, apesar da resistência do diretório petista local. À época, enfrentou Rogerio Carvalho, que agora buscará a reeleição.

À reportagem, o governador descartou mudanças na chapa formada pelo deputado Jefferson Andrade como vice e pelos pré-candidatos ao Senado Andre Moura e Alessandro Vieira.

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