Política

PSB sacrifica liderança ambiental em nome da aliança com o PT na Amazônia

Candidata ao Senado por Rondônia até a semana passada, a ambientalista Neide Suruí teve sua candidatura retirada por decisão da Executiva Nacional do PSB

PSB sacrifica liderança ambiental em nome da aliança com o PT na Amazônia
PSB sacrifica liderança ambiental em nome da aliança com o PT na Amazônia
“Fizeram uma violência política de gênero", protesta Neidinha Suruí - Foto: Redes Sociais
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Em nome da aliança política do PSB com o PT pela reeleição de Lula e Geraldo Alckmin, uma das mais conhecidas vozes em defesa da Amazônia e seus povos tradicionais corre o risco de não ser ouvida nessa campanha eleitoral. Candidata socialista ao Senado por Rondônia até a semana passada, a ambientalista Neide Suruí teve sua candidatura retirada por decisão da Executiva Nacional do PSB, medida que atingiu também o jornalista Samuel Costa, candidato a governador, e a ex-juíza Rosângela Cipriano, outra candidata à senadora na chapa puro-sangue do partido.

A decisão, que teve o aval do presidente nacional João Campos, tem o objetivo de alinhar o PSB à candidatura ao governo do ex-deputado federal Expedito Netto, do PT, já apoiado por PV, PCdoB, PSOL e Rede. Diante da resistência da direção estadual em declarar apoio a Netto, a Executiva Nacional do PSB decidiu dissolver o diretório estadual em Rondônia, mas essa opção é denunciada pelos atingidos como uma intervenção “de cima para baixo” que fere as práticas de democracia interna tradicionais no partido.

Costa, que participou do debate na Band mesmo após a decisão nacional, garantiu que não irá “jogar a toalha” e afirmou que, se necessário, a direção estadual destituída dará entrada em ação na Justiça Eleitoral para manter as candidaturas: “Seguimos firme. Não cometemos nenhum tipo de ilícito e essa intervenção é natimorta. Será refutada ponto a ponto”.

Para além do debate sobre a necessidade de seguir ou não o candidato do PT já no primeiro turno em Rondônia, tem causado polêmica a suspensão da candidatura de Suruí, justamente em um dos estados brasileiros onde a floresta é mais agredida. Neidinha, como é conhecida, é uma personagem atuante na política socioambiental brasileira nas últimas décadas. Na COP30, sediada pelo Brasil no ano passado, ela foi um dos destaques em palestras e debates ao lado de sua filha, Txai Suruí, também ambientalista, que nos últimos anos ganhou projeção internacional após falar em eventos da ONU.

“Uma candidatura com esse perfil representa a força dos povos da floresta nos espaços de decisão política. É a possibilidade de transformar em propostas, leis e políticas públicas as lutas vividas diariamente nos territórios de Rondônia e de toda a Amazônia”, diz Sila Mesquita, coordenadora do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), rede que congrega centenas de organizações ambientalistas e movimentos sociais. Mesquita afirma que a candidatura de Suruí é necessária por nascer da “realidade das aldeias e comunidades” e de quem conhece os desafios da Amazônia “não só pelos documentos”.

“Foi uma violência política de gênero”

Suruí atribui a suspensão de sua candidatura à falta de visão política da direção nacional do PSB: “Não consigo ter outra resposta. Para mim, é falta de acreditar que se pode mudar esse cenário que aí está”. Suas posturas enquanto ativista, diz, também contribuíram: “Fizeram uma violência política de gênero. Acredito que a suspensão está relacionada à postura de uma mulher que defende os povos originários e o meio ambiente, que defende uma economia sustentável que beneficie a todos”. Ela afirma haver espaço para reverter a decisão: “Fizeram lambança, a pessoa que colocaram lá de Pernambuco para intervir e tomar decisões em Rondônia não tem a menor ideia do que está fazendo”.

Os ambientalistas alertam sobre o desperdício da oportunidade de amplificar a voz de Suruí em todo o estado durante as semanas de campanha e propaganda eleitoral no rádio e na tevê. Rondônia, onde Jair Bolsonaro obteve 70% dos votos no segundo turno em 2022, se destaca pelos crescentes desmatamentos, garimpos ilegais e outras atividades criminosas, além de ser proporcionalmente o segundo estado com maior número de feminicídios no País: “Neide simboliza a defesa dos territórios indígenas e comunidades tradicionais contra invasões, desmatamento, garimpo e exploração predatória, além da valorização das mulheres indígenas e não indígenas como protagonistas”, diz Mesquita.

A dirigente do GTA afirma que, mais do que uma simples questão de composição ou arranjo político, a suspensão da candidatura de Suruí pode ser compreendida como uma reação dos setores que exploram predatoriamente a floresta: “Sua candidatura representa a defesa da floresta em pé e de um modelo de desenvolvimento baseado na sustentabilidade e no respeito aos povos amazônicos. Por isso, seu afastamento levanta questionamentos sobre a influência de setores que ainda defendem interesses incompatíveis com a proteção ambiental e com os direitos dos povos da floresta”.

O veto a Suruí é também um sinal das resistências enfrentadas à esquerda e à direita por mulheres indígenas quando decidem ocupar os espaços de poder: “A suspensão não atinge apenas uma candidata. Ela pode enfraquecer a representatividade indígena, feminina e socioambiental na política de Rondônia. Por isso, é fundamental exigir transparência sobre as razões da decisão, respeito às instâncias democráticas e participação das bases e comunidades envolvidas”, cobra Mesquita.

Outro lado

Procurada por CartaCapital para comentar as razões da intervenção em Rondônia, a Direção Nacional do PSB afirma que a resolução contrária à candidatura de Neide Suruí foi editada em estrito cumprimento ao estatuto partidário. “Embora tenha sido exaustivamente buscada uma solução pacífica, a antiga gestão permaneceu até às vésperas do prazo final para definição de candidaturas sem observar as orientações político-eleitorais definidas pelo Partido para as Eleições de 2026”, diz a nota encaminhada à CartaCapital.

“Importante ressaltar que o estatuto garante a possibilidade de modificação da comissão provisória estadual a qualquer tempo, como era o caso da Direção Estadual em Rondônia. De todo modo, foi assegurado o contraditório e ampla defesa à direção destituída, que exerceu seu direito por meio de recurso partidário, o qual será brevemente apreciado na próxima reunião da Executiva Nacional”, acrescenta o texto.

Faltou sensibilidade, avalia Carlos Minc

Integrante da direção do PSB no Rio de Janeiro e uma das figuras mais conhecidas do partido, o deputado estadual Carlos Minc, que foi ministro do Meio Ambiente no segundo governo Lula, afirma que a suspensão de Suruí espelha a contradição do PSB entre estratégia nacional, estratégia regional e valorização de figuras simbólicas: “O partido tem que ter uma estratégia nacional, mas às vezes o custo disso é muito elevado. Poderia haver uma composição de fazer aliança com o PT para o governo, mas manter a candidatura da Neidinha ao Senado. Talvez tenha faltado essa sensibilidade”.

Os nomes confirmados para o Senado na chapa de Expedito Netto são a jornalista e ativista dos direitos humanos Luciana Oliveira, do PT, e o consultor político e teólogo Aires Mota, presidente do PV em Rondônia. Suruí afirma respeitar os demais candidatos, mas diz que poderia “equilibrar a luta” no Congresso Nacional, hoje amplamente desfavorável às forças progressistas: “A maioria está há muito tempo na política. O que realmente mostraram?”.

Ainda falando na condição de candidata, faz questão de frisar, a mãe de Txai diz que é a única a propor uma verdadeira mudança para Rondônia: “Eu defendo uma economia sustentável, a periferia, a cultura do estado, o trabalhador rural. Sou mulher e tenho coragem de defender a paz e propor uma política diferente, uma gestão que realmente inclua essa maioria que é minorizada pelos que estão no poder”.

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