Política
Pronto para o futuro
Aos 74 anos, o BNDES se renova e reforça o papel de financiador do desenvolvimento brasileiro
Convocado pelo então presidente Getúlio Vargas para coordenar a comissão que viria a criar, em 1952, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico, naquela época ainda sem o “S” de social, o economista Celso Furtado foi um dos primeiros a imaginar uma instituição que, a partir da formulação e financiamento de grandes programas de desenvolvimento industrial e de infraestrutura, livrasse o País das amarras do subdesenvolvimento. Convertido em empresa pública em 1971, o banco tem sido, ao longo da história, fundamental para impulsionar a modernização brasileira.
Ao completar 74 anos, a instituição renova essa vocação e se apresenta como motor da transição energética e da digitalização, espelhado no programa Nova Indústria Brasil (NIB), que receberá um aporte adicional de 140 bilhões de reais até dezembro de 2026.Na segunda-feira 22, o seminário em comemoração ao aniversário do BNDES, com as presenças do presidente Lula, do vice Geraldo Alckmin, de empresários e de outras autoridades, teve como tema central o papel da instituição diante das transformações tecnológicas e geopolíticas. Sem abandonar o foco em infraestrutura e reforçando o apoio ao setor industrial, três novos caminhos foram destacados: transição energética, cadeia produtiva de minerais estratégicos e agenda verde. Recursos para isso não vão faltar, garante Aloizio Mercadante, presidente do banco, cujos ativos ultrapassaram, no fim de maio, a marca de 1 trilhão de reais. Desde o início do atual governo, o BNDES engordou o caixa em 350 bilhões de reais, retomando a relevância da instituição. “Mudamos a realidade e tivemos o segundo melhor resultado do sistema financeiro”, comemora.
Nos três anos e meio sob sua gestão, ressalta Mercadante, o BNDES viabilizou a injeção de 862 bilhões de reais de crédito na economia, dos quais 366 bilhões somente no ano passado, mais de 1 bilhão de reais por dia. “O nosso resultado recorrente é recorde histórico. Isso permitiu que o BNDES contribuísse muito para o superávit primário e transferisse 60 bilhões de reais ao arcabouço fiscal.” O presidente Lula afirmou que os resultados da instituição demonstram que “o Brasil não pode comportar mais aquele discurso atrasado”, contrapondo as competências privada e pública. “O que é público e funciona tem de continuar público e funcionando. O que é privado e funciona tem de continuar privado e funcionando. O que importa é que os dois produzam.”
Com o novo aporte de 140 bilhões (sendo 102,5 bilhões via BNDES e 37,5 bilhões por meio da Financiadora de Estudos e Projetos), a NIB alcançará mais de 750 bilhões de reais disponíveis entre 2023 e 2026. O montante será destinado prioritariamente a novos setores estratégicos, entre eles Inteligência Artificial, minerais críticos, fertilizantes, máquinas agrícolas, biofármacos, terapias avançadas e tecnologias duais (para uso militar e civil). “A ampliação para financiar esses setores reforça o compromisso do governo com uma nova etapa de desenvolvimento. São investimentos que fortalecem a soberania produtiva em áreas decisivas para o futuro”, avalia Mercadante. Secretário de Inovação do Ministério do Desenvolvimento, Uallace Moreira Lima pediu ao setor privado paciência com o tempo de maturação da NIB. “Estamos falando de uma política industrial que acabou de ser implementada, é algo estrutural. Investimentos em setores produtivos que demandarão muito tempo para ter resultado, desde que essas políticas permaneçam, dando garantia à continuidade dos investimentos.”
Nova Indústria Brasil terá aporte adicional de 140 bilhões de reais
A adequação da economia nacional à nova realidade ambiental do planeta compõe o perfil do “novo BNDES” imaginado pelo governo. Na atual gestão, o banco ofertou 14,1 bilhões de reais ao setor florestal. Os recursos são destinados a projetos na Amazônia, no Cerrado, na Mata Atlântica, na Caatinga, no Pantanal, nos Pampas e em ecossistemas costeiros e marinhos. A chamada Amazônia Azul é uma preocupação crescente da instituição, que está apoiando o Planejamento Espacial Marinho, compromisso assumido com a Organização das Nações Unidas. Até aqui, o programa BNDES Azul mobilizou 455 milhões de reais em projetos relativos a ilhas oceânicas, corais, bacias resilientes e manguezais. “O BNDES Azul e o BNDES Florestas são uma resposta estratégica do Brasil ao processo de aquecimento global”, afirma Tereza Campello, diretora socioambiental do banco.
No evento, a instituição de fomento e a Petrobras anunciaram uma parceria para apoiar iniciativas direcionadas à estruturação da cadeia de exploração e produção de minerais estratégicos vinculados às cadeias de transição energética e de óleo e gás. A parceria inclui projetos em execução e outros em desenvolvimento. Segundo Mercadante, “posicionar o Brasil nas cadeias globais de maior conteúdo tecnológico é uma prioridade do governo”. Para a presidente da petroleira, Magda Chambriard, os minerais críticos terão um papel central na economia brasileira nos próximos anos. “Queremos a Petrobras participando da cadeia global de fornecimento. Petrobras e BNDES têm histórias diferentes, mas trabalham juntos para estudar oportunidades de sinergias e contribuir para o desenvolvimento de tecnologia e conhecimento no setor de minerais estratégicos”, atesta a executiva.
O S de Social não foi esquecido. Por meio do Fundo Clima, o BNDES vai financiar 340 milhões de reais à Tembici Participações, para a aquisição de 85 mil bicicletas elétricas que serão alugadas a entregadores de plataformas digitais com custo 25% menor do que o atual nos 12 primeiros meses. A partir do 13º mês, o valor será 10% menor, ou seja, 85,50 reais. Se o entregador quiser comprar a e-bike, terá desconto e, caso queira arrendá-la, pagará 71,25 reais semanais e poderá ficar com a bicicleta nos fins de semana. •
Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pronto para o futuro’
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