Política

Por que, mesmo popular, Ratinho fracassa na missão de fazer um sucessor no Paraná

Após desistir do voo ao Planalto, o governador enfrenta a pior fase de seu projeto político, com Sandro Alex isolado nas pesquisas

Por que, mesmo popular, Ratinho fracassa na missão de fazer um sucessor no Paraná
Por que, mesmo popular, Ratinho fracassa na missão de fazer um sucessor no Paraná
O governador do Paraná, Ratinho Junior. Foto: Marina Ramos/Câmara dos Deputados
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Eleições 2026

O governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), chegou a 2026 em velocidade de cruzeiro: altos índices de aprovação e planos de conquistar a Presidência da República, contando com o favoritismo na disputa interna em seu partido. Agora, porém, vive os meses finais de seu mandato, não concorrerá a qualquer cargo e vê seu candidato ao Palácio Iguaçu ter um desempenho sofrível nas pesquisas. O que mudou?

A campanha eleitoral paranaense começará oficialmente com o senador Sergio Moro (PL) na dianteira das pesquisas, seguido de longe pelo deputado estadual Requião Filho (PDT) e pelo ex-prefeito de Curitiba Rafael Greca (MDB). Só então surge Sandro Alex (PSD), a aposta de Ratinho. Escolhas questionáveis do governador e um cálculo para 2030 podem ajudar a explicar esse cenário.

Há também uma espécie de “maldição” paranaense: governadores em segundo mandato não elegem sucessor. Começou com Jaime Lerner (1995-2002), que teve de entregar o poder a Roberto Requião (2003-2010). Este, por sua vez, viu Beto Richa governar entre 2011 e 2018.

Cabe uma explicação: Ratinho foi secretário do Desenvolvimento Urbano de Richa, mas concorreu em 2018 contra a então vice-governadora Cida Borghetti. Beto Richa teve uma postura errática diante de dois antigos aliados e, para piorar sua situação, foi preso a menos de um mês da eleição, por suspeita de fraudes em recursos para o programa Patrulha Rural.

Sandro Alex não era a única opção do governador para sua sucessão: também estavam na lista o presidente da Assembleia Legislativa, Alexandre Curi (PSD), e Greca, hoje distante de Ratinho. Segundo o cientista político Emerson Cervi, da Universidade Federal do Paraná, a decisão foi por um candidato que demonstra precisar de tempo para tentar se viabilizar eleitoralmente.

Curi e Greca, diz Cervi, não seriam prepostos de Ratinho: o deputado vem de uma família tradicional na política, enquanto o ex-prefeito tem uma trajetória eleitoral desde os anos 1980. “Ratinho tem problemas com isso porque sua expectativa é voltar daqui a quatro anos. Ele sabia que nenhum dos dois (Curi e Greca) dependeria dele para formar um grupo político. Cada um deles tem uma vida política própria.”

E por que Ratinho, o preferido do presidente do PSD, Gilberto Kassab, desistiu de buscar o Palácio do Planalto? Para Emerson Cervi, o medo de uma derrota acachapante pode ser a resposta. “É muito provável que ele tenha percebido que não haveria espaço para um terceiro nome que substituísse a preferência de Flávio Bolsonaro no eleitorado de oposição a Lula.”

Trata-se de um cálculo pragmático: Ratinho exerce mandatos desde 2003, mas tem apenas 45 anos. Tem, portanto, muito tempo pela frente. Ser eventualmente o terceiro colocado em uma eleição presidencial com 10% ou 15% dos votos poderia até ser positivo, mas haveria também o risco de ver sua candidatura minguar e brigar por migalhas com outros expoentes da “terceira via”. Isso o enfraqueceria para suas futuras empreitadas.

Agora, Sandro Alex tem dois meses para buscar uma reviravolta que, a esta altura, parece pouco provável. E nem mesmo a eventual confirmação de Cristina Graeml (PSD) como sua vice pode impulsionar sua chapa, projeta Emerson Cervi. Seria, a rigor, mais um erro de leitura do governador.

“Ratinho já perdeu os votos do bolsonarismo. O bolsonarista paranaense já não votou em 2024 no candidato de Ratinho”, diz o professor. Na ocasião, a extrema-direita se aliou a Graeml (então no PMB) para a prefeitura de Curitiba, mas Eduardo Pimentel (PSD), aliado do governador, venceu.

Ratinho Junior, então, atraiu Graeml para o PSD na expectativa de turbinar Sandro Alex na capital. “Mas faz pouco sentido, porque o bolsonarismo vai votar em Moro”, vaticina Cervi.

Confira as intenções de voto dos paranaenses, segundo o principal cenário da pesquisa Quaest divulgada na última segunda-feira 27:

  • Sergio Moro (PL): 39%
  • Requião Filho (PDT): 18%
  • Rafael Greca (MDB): 12%
  • Sandro Alex (PSD): 7%
  • Luiz França (Missão): 1%
  • Tony Garcia (DC): 1%
  • Indecisos: 15%
  • Branco/nulo/não vai votar: 7%

O instituto entrevistou 1.104 eleitores paranaenses entre 21 e 25 de julho. A margem de erro é de três pontos percentuais, com um nível de confiança de 95%. O registro no Tribunal Superior Eleitoral é PR-04818/2026.

A sondagem também indica que Moro tem 63% das intenções de voto da direita bolsonarista. O restante desta fatia se divide entre indecisos (15%), Greca (8%), Alex (7%) e até Requião (6%). O ex-juiz da Lava Jato ainda atinge 60% na direita não bolsonarista e 29% entre os “independentes”.

Moro e Requião têm um teto de votos relativamente baixo, afirma Emerson Cervi, mas o candidato do PL ostenta um piso mais elevado por reunir os eleitores lavajatistas — que garantiriam sua vitória para o Senado em 2022, ano em que o PL tinha outro candidato — e os bolsonaristas. Já o universo progressista no estado, pondera o professor, gira em torno de 20% a 25%, o que ilustra as dificuldades do pedetista.

Ainda assim, o jogo não está definido: 83% dos entrevistados pela Quaest não indicaram um candidato na pesquisa espontânea, modalidade em que o instituto não apresenta previamente a lista de postulantes. Neste recorte, 8% citaram Moro, seguido por Requião (3%), Alex (2%) e Greca (1%).

Uma certeza é que a campanha terá seu pontapé inicial em um cenário aparentemente paradoxal: 63% dos entrevistados pela Quaest disseram que Ratinho merece eleger um sucessor, 81% aprovam seu governo e 68% têm uma avaliação positiva de sua gestão, mas o governador e seu candidato terão uma montanha a escalar se quiserem de fato mudar a correlação de forças no xadrez eleitoral.

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