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Por que até um vídeo da Embaixada alemã sobre nazismo é contestado?

Política

“Os alemães não escondem seu passado”, diz a primeira cartela de um vídeo publicado pela Embaixada da Alemanha no Brasil em sua página nas redes sociais. O objetivo era mostrar como os alemães nãose omitem sobre a barbárie do Nazismo, ao adotarem o lema “conhecer e preservar a história para não repeti-la”.

A peça lembra que é crime na Alemanha negar o holocausto, exibir símbolos nazistas e fazer a saudação “Heil Hitler”. “E quando o extremismo de direita volta a acontecer no País?”, questiona a embaixada. O vídeo lembra, então, uma declaração de Heiko Maas, ministro das Relações Exteriores. “Quando a saudação de Hitler hoje volta a ser mostrada em nossas ruas, isso é uma vergonha para o nosso país.”

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Pedagógico, o vídeo logo passou a ser contestado por alguns brasileiros. Em um dos comentários, um usuário do Facebook chama o holocausto de “propaganda sionista”. É rebatido pela própria embaixada: “O holocausto é um fato histórico, com provas e testemunhas que podem ser encontradas em muitos lugares da Europa.” Logo em seguida, um usuário reclama: “‘Extremistas de Direita’? O Partido de Hitler se chamava Partido dos Trabalhadores Socialista. Onde tem Extrema Direita?”.

O desejo de rebater a interpretação dos próprios alemães sobre seu passado não é algo exatamente novo no Brasil. Nos últimos anos, foram frequentes as tentativas de associar Hitler e o Nazismo à esquerda, por causa da denominação “Nacional Socialismo”.

Os seguidores de Jair Bolsonaro há muito tempo defendem essa tese. O candidato à presidência já chegou a defender Hitler como um “grande estrategista” que lutou “em defesa de seu povo”, em quadro do programa humorístico CQC. Em suas redes sociais, Eduardo Bolsonaro, filho do presidenciável e candidato à reeleição como deputado federal, afirmou que “o nazismo não é de direita, mas sim de esquerda”.

“O nazismo jamais poderia ser considerado de Direita, pois para isso precisaria ser a favor do liberalismo econômico, do capitalismo e do Estado reduzido,e isso nunca aconteceu”, escreveu o candidato.

Adolfo Sachisida, pesquisador do Ipea e ex-conselheiro econômico de Bolsonaro, gravou um vídeo em que seguiu a mesma linha.

Em 2016, afirmou em seu canal no Youtube que é  de esquerda quem prioriza o Estado em detrimento do indivíduo, a função social da propriedade em oposição à propriedade privada e o controle estatal de preços em lugar do livre mercado.

Assim, o pesquisador entende que Hitler, por defender a imposição do Estado sobre a economia, seria de esquerda. Para sustentar sua tese, o pesquisador recorre a uma comparação entre o PT e a legenda alemã. “O PT é a sigla do Partido dos Trabalhadores. Da mesma maneira, o partido nazista era uma sigla: Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães.”

É uma confusão comum tentar associar a direita apenas ao liberalismo econômico e apressadamente atribuir a um governo estatizante um viés de esquerda. Ocorre, porém, que o liberalismo econômico da direita vivia grande crise após a quebra da Bolsa de 1929. Regimes como os de Benito Mussolini, na Itália, e Hitler buscavam combater a desordem deixada pela crise econômica, mas também eram profundamente anticomunistas em seus discursos.

A perseguição aos comunistas e socialistas quando Hitler chegou ao poder e a tentativa de associar o judaísmo ao marxismo feita pelo nazismo deveria ser prova suficiente de como aquilo que o o ex-líder alemão menos queria era ser associado à esquerda de sua época.

Associar os conceitos de “direita” e “esquerda” dos anos 1930 e 1940 ao seu significado atual é o que os historiadores chamam de anacronismo, ou seja, analisar um fato histórico a partir do presente, e não com base nas condiçõoes históricas dos atores sociais.

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