Política
Poder de persuasão
Celso Amorim, assessor especial da Presidência, defende o incremento dos gastos militares do Brasil
Por ser pacífico, o Brasil não pode achar que estará imune a ataques externos. O alerta é do assessor internacional da Presidência da República, Celso Amorim. Na entrevista a seguir, o experiente diplomata defende um aumento nos investimentos em defesa, que chegaram a 1,4% do PIB, mas caíram para 1%. Segundo ele, há uma consciência crescente em vários setores, à esquerda e à direita, da necessidade de fortalecer o setor. De acordo com dados do Instituto de Estudos para a Paz de Estocolmo, em 2024 tínhamos apenas o 21º maior orçamento militar do mundo, queda de três posições no ranking em relação a 2023. Espanha, Holanda e Argélia superaram os gastos nacionais. O ex-chanceler também comentou a visita do presidente Lula à Casa Branca, marcada para ocorrer em março. A exploração de terras-raras estará na mesa, mas deveria ser tratada de modo preliminar, sem um acordo imediato, argumentou. E garantiu que o País não pretende renunciar à relação com os chineses, persistirá na diversificação de parceiros comerciais e insistirá nos projetos de integração sul-americanos, apesar do avanço da extrema-direita no subcontinente. “Ferrovias e fibra óptica não têm ideologia.”
CartaCapital: Como devemos interpretar os recentes ataques contra soberanias, o direito internacional e os organismos multilaterais? Isso é um sinal do quê?
Celso Amorim: Um sinal dos tempos. Tempos revoltos, tempos difíceis. Tempos para os quais não estávamos preparados. Muitos estavam preparados para a unipolaridade de um ou de outro. Mas, para esse absoluto rompimento de todas as regras internacionais, não estávamos.
CC: Já se pode falar no fim da ordem internacional?
CA: Não sei se existiu claramente uma ordem internacional. Havia uma ordem presumida e frequentemente não respeitada. Mas o fato é que existiam algumas regras. A existência dessas regras, ainda que violadas, levava os países a ajustar suas políticas ou se aproximar delas. Era um pouco mais previsível. Hoje vivemos uma total imprevisibilidade. Há o interesse nu e cru.
“Não podemos ser um país indefeso”
CC: Como o Brasil deve inserir-se diante desse contexto?
CA: Quando estamos num terreno movediço, o melhor é não fazer muito movimento. Encontrar alguém que queira lhe dar a mão. Não podemos nos agitar demais. Tampouco podemos achar que é possível sair sem nenhum esforço. Temos de encontrar um caminho que possa envolver mais de uma coisa, como parcerias. A verdade é que já vínhamos fazendo a diversificação. Quando foi iniciado o debate sobre a criação da Alca, os Estados Unidos eram o destino de 24% de nosso comércio e a China, 1%. Se tivéssemos feito aquele acordo, hoje ele seria de 40%. Se esse fosse o nosso cenário atual e os EUA tivessem imposto tarifas, não teríamos a quem recorrer. Fizemos bem, portanto, em diversificar o comércio. Claro, os EUA sempre serão um grande mercado, importante para alguns produtos específicos, inclusive para a Embraer. Hoje, o Brasil importa mais do que vende para o mercado norte-americano.
CC: As reservas de terras-raras pode ser um trunfo do Brasil nessa relação bilateral?
CA: Ter recursos naturais pode ser um trunfo, mas também uma danação. Hugo Chávez citava um presidente venezuelano que falou na “maldição do petróleo”. Não acredito na maldição das terras-raras, até por conta da pluralidade de atores e das negociações para que o uso do produto ocorra também no Brasil. Temos dito isso aos chineses. Não basta fazer carro elétrico na Bahia. Tem que fazer a bateria no Brasil. Inclusive, na indústria de defesa, não se pode viver sem esses minerais. Logo, reatores para submarinos dependem de material crítico e temos de ter a capacidade de usá-los. Se vendermos tudo, fica difícil.
CC: Por isso não entramos na aliança de minerais críticos proposta pelos EUA?
CA: Faz sentido ser cauteloso. Nessa área de terras-raras, o que temos de ter é um planejamento para o uso interno.
Agenda. A exploração de terras-raras é um dos temas que estará na mesa durante o encontro entre Lula e Trump – Imagem: Daniel Torok/Casa Branca Oficial
CC: Nesse contexto, na viagem do presidente Lula aos EUA, o Brasil quer fazer um acordo sobre terras-raras?
CA: Na minha opinião pessoal, podemos ter um acordo muito preliminar, de estudo, sobre quais áreas podem ser usadas e onde não se pode. Mas não fazer um acordo para vender, ainda que ligeiramente beneficiado no Brasil.
CC: O encontro marcará uma normalização das relações entre os dois países?
CA: Espero que sim. Na verdade, do nosso lado nunca houve uma anormalidade. Mas a imprevisibilidade é uma questão real. O próprio presidente Donald Trump diz que parte do poder provém da imprevisibilidade. É como entrar num jogo de xadrez e descobrir que o bispo vale mais que a rainha.
CC: O Conselho da Paz proposto por Trump é uma ameaça ao multilateralismo e à ONU?
CA: Há duas partes. O capítulo sobre Gaza e um anexo, a carta do Conselho da Paz. O documento é totalmente inaceitável. É como se ele fizesse uma reforma do Conselho de Segurança da ONU. Mas, em vez de aumentar os integrantes permanentes de cinco para dez, ele reduzisse de cinco para um. Ele mesmo. Acho que essa não é a reforma do Conselho de Segurança da ONU que queremos. A parte de Gaza, se for um consenso, se participar a Autoridade Palestina, outros Estados, se realmente tiver propósitos nítidos de, digamos, procurar a paz na região, a busca, a criação de dois Estados… Mas estamos vendo, dia a dia, o contrário.
CC: Uma parte do BRICS está no Conselho da Paz. Qual o papel do bloco hoje?
CA: O BRICS não é um bloco. É um grupo e os interesses nem sempre são coincidentes. Temos de ter a consciência de que não se trata de um bloco rígido. Mesmo entre os participantes originais existem diferenças. No caso dos novos, acontece até mais. Temos de usar o grupo como um fórum que é útil até para convencer os demais países de nossas posições. Mas não um bloco com uma armadura, como era a Comunidade Europeia. É um fórum de discussão, de coordenação de posições, temos o Banco do BRICS, importante para financiar projetos que outros não financiariam. Tem muita coisa em conjunto que podemos fazer.
“Nossa questão é ter diversidade” nas relações externas. “Ter alternativas”
CC: Como o senhor avalia o impacto do avanço da extrema-direita na América do Sul e como isso impacta os projetos de integração regional?
CA: Ferrovia e fibra óptica não têm ideologia. Ideologias podem ser transportadas por elas. Mas elas, por si, não têm ideologia. Precisamos continuar com nossos projetos de integração física. Reconheço que acordos separados do Mercosul com os Estados Unidos ou qualquer outro país causam certo tremor no bloco. Mas não abandonaria todo o projeto de integração. O Brasil tem uma estrada da qual faltam apenas 200 quilômetros na Guiana para que possamos chegar ao Caribe. Ligar os portos não é apenas importante para alcançarmos o Pacífico. Internamente, isso também é importante. Estamos fazendo no século XXI a integração que a América do Norte fez no século XIX.
CC: Os Estados Unidos falam abertamente, em sua nova estratégia de defesa nacional, na retomada da ideia de uma Doutrina Monroe. E tem como foco expulsar a influência chinesa da região. Como o Brasil deve agir?
CA: O Brasil vai continuar mantendo excelentes relações com a China, um grande investidor que tem trabalhado na transferência de tecnologia. Tem nos oferecido alternativas, por exemplo, com a possibilidade de satélites para georreferenciamento. A China tem entendido que não pode apenas comprar matéria-prima e mandar produtos manufaturados. Eles sabem que precisam investir no Brasil em produtos que tenham beneficiamento no País e transferência de tecnologia. Não vamos abandonar um mercado que representa 35% de nossas exportações. Não há hipótese. Acho que existe, da parte dos EUA, certo respeito pelo Brasil. No caso do Brasil, não será tanto por pressão, mas oferecer alternativas. Elas podem ser interessantes ou não. Mas vamos ver e ter de decidir.
CC: Há risco de uma ingerência externa nas eleições brasileiras?
CA: Risco existe. Mas não necessariamente da parte do presidente Trump. A extrema-direita norte-americana continua, no entanto, muito organizada e atua em combinação com a extrema-direita de outros países, até mesmo da Europa. A divulgação de notícias falsas e o uso indevido da internet são coisas que não podemos garantir. Acredito que as medidas necessárias estão sendo tomadas para proteger as nossas urnas e o sistema eleitoral. E não creio que o presidente Trump, como tal, entrará nessa jogada.
Tecnologia. O submarino nuclear, um dos investimentos recentes em defesa – Imagem: Marinha do Brasil/Ministério da Defesa
CC: Trump não entraria nesse jogo por ter entendido a importância do Brasil?
CA: Alguns mais sofisticados nos EUA sabem que não podem adotar com o Brasil a mesma atitude que adotam com países pequenos e médios. Não é por amar mais o Brasil. Mas por isso ter um custo elevado, seria mais trabalhoso. Preferem outra tática e, se isso nos trouxer coisas positivas, ótimo. Não temos nada contra os EUA. Aprendemos muito com eles e gostaríamos de ensinar um pouco, talvez, a serem menos belicosos. Mas a nossa questão é ter diversidade. Assinamos o acordo entre o Mercosul e a União Europeia para manter essa diversidade de parcerias. Nós queremos ter alternativas. Por isso o presidente Lula está na Índia, um país de grande importância em áreas sofisticadas.
CC: O êxito dos EUA na Venezuela abre um precedente perigoso na região?
CA: É condenável o que aconteceu, foi totalmente errado. Não estou dizendo que com o Brasil ocorreria, mas não podemos ficar a vida toda confiando no fato de que, por sermos um país pacífico, ninguém vai nos atacar nem nos criar um problema. Há uma consciência crescente de vários setores, de direita e de esquerda, de que é preciso reforçar os investimentos em defesa. Fizemos aportes importantes no fim do segundo mandato de Lula e no início do governo de Dilma Rousseff, em submarinos e em outros setores. Mas temos muito a fazer ainda na área de defesa antiaérea e muitas outras coisas que precisam ser desenvolvidas. Não podemos ser um país indefeso. Isso partiu dos EUA, mas poderia ter partido de outro. Mostra uma vulnerabilidade que precisa ser atendida.
CC: O senhor acredita que esse investimento ficou prejudicado com o impeachment de Dilma Rousseff e, depois, no governo de Jair Bolsonaro?
CA: Nosso investimento em defesa estava longe de ser o ideal. Estava em torno de 1,4% do PIB e caiu para 1%. Isso afeta todos os setores. Precisamos ser honestos e saber que os gastos de 1,4% não são suficientes. Precisamos pensar em ter uma defesa eficaz. Precisamos aumentar um pouco, garantindo que vá para investimentos ou manutenção de aparelhos. Não para pensões. •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Poder de persuasão’
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