Política
Poder de dissuasão
Após a invasão da Venezuela pelos Estados Unidos, o governo Lula planeja dobrar os gastos em Defesa
“Temos investido em tudo, mas a Defesa fica com as sobras. Precisamos investir de forma compulsória ou nunca teremos uma Defesa do tamanho que a sociedade precisa.” A queixa, verbalizada pelo ministro José Múcio Monteiro, é a face mais evidente da pressão exercida pelo comando das Forças Armadas para que o governo federal amplie os aportes no setor. Um primeiro movimento nessa direção ocorreu no fim de 2025, quando o Senado e a Câmara, em acordo com o Ministério da Fazenda, aprovaram o Projeto de Lei Complementar 204/25, que exclui da meta fiscal 5 bilhões de reais anuais destinados à área até 2031.
Após a entrada em operação do primeiro caça Gripen montado no Brasil, conclusão de um projeto de parceria entre a Embraer e a empresa sueca Saab iniciado em 2013, no governo de Dilma Rousseff, Lula planeja anunciar novos investimentos em Defesa ainda este ano, ao menos enquanto a legislação eleitoral permitir. Alguma urgência, nesse caso, é recomendada. Com armamentos e equipamentos defasados em número e tecnologia, o Brasil é apenas o sexto colocado na América do Sul em gastos no setor, em termos proporcionais ao PIB. Segundo especialistas consultados por CartaCapital, o País tem um longo caminho a percorrer para se adequar a um mundo em crescente tensão geopolítica e propenso a uma nova corrida armamentista, com tecnologias cada vez mais inovadoras.
O ministro da Defesa afirma ter levado a Lula uma proposta de investimentos, elaborada pelo comando das três Forças, com projetos que somam 800 bilhões de reais para os próximos 15 anos. Desse montante, a maior parte vai para a Marinha, seguida por Aeronáutica e Exército. “Na Marinha, precisamos investir em submarinos, fragatas e baterias antiaéreas. A Aeronáutica precisa investir em novos aviões e bases”, diz Múcio. “O presidente sabe que é importante para defender nossa soberania. Em 2024, o mundo gastou 2,78 trilhões de dólares em equipamentos de Defesa.”
O comando das três Forças entregou ao presidente um plano de investimentos de 800 bilhões de reais
Solicitado pela reportagem, o conteúdo do documento entregue a Lula não foi disponibilizado pelo Ministério da Defesa. Fontes do Executivo afirmam, porém, que as propostas de modernização tecnológica listadas visam prioritariamente áreas como proteção de fronteiras, defesa cibernética e inteligência militar. Entre os equipamentos e armamentos, é destacada no documento a necessidade de aquisição de aeronaves, navios, veículos blindados terrestres, radares e peças de artilharia de campanha ou antiaérea. Além da renovação da esquadrilha aérea, com a incorporação dos novos caças Gripen, o governo busca acelerar a construção de submarinos movidos a propulsão nuclear, outro programa badalado que custa a virar realidade.
Graças à articulação entre governo e Congresso, os 30 bilhões de reais extras a ser investidos pelos próximos seis anos darão às Forças Armadas a capacidade de avançar em alguns programas considerados prioritários. A proposta aprovada pelos parlamentares proíbe o contingenciamento desses recursos e determina que pelo menos 40% deles sejam aplicados diretamente na “ampliação da capacidade de Defesa”.
Um programa a ser impulsionado é o Sistema Integrado de Monitoramento de Fronteiras (Sisfron), que gera um fluxo contínuo de dados por meio de radares, aeronaves remotamente pilotadas e sensores térmicos, ópticos e eletromagnéticos. Em implantação desde 2012, o programa até agora cumpriu apenas duas das nove fases de expansão previstas – uma em Mato Grosso do Sul e outra no Amazonas – e sofre com sucessivos adiamentos.
Artilharia reforçada. O Exército prevê o desenvolvimento de um míssil tático de cruzeiro capaz de atingir um alvo a 300 quilômetros de distância – Imagem: Redes Sociais Exército Brasileiro
O prazo inicialmente estipulado para a entrada em operação do novo sistema era 2021 e, agora, está previsto para 2039. No entanto, a ideia do governo e do Exército é encurtar esse prazo e, com os recursos adicionais, deslanchar ainda este ano outras três fases do Sisfron em faixas de fronteira em Roraima, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Paraná e Santa Catarina.
Outra meta é acelerar nos próximos meses a implantação do novo programa de produção de foguetes de artilharia de longo alcance e elevada precisão, batizado de Fogos, que substituirá o programa Astros, também em vigor desde 2012. O novo programa, que prevê o desenvolvimento de um míssil tático de cruzeiro capaz de atingir um alvo a 300 quilômetros de distância, com margem de erro de apenas 9 metros, ficou prejudicado pelo pedido de recuperação judicial feito pela fabricante Avibras.
Além de absorver o antigo Astros, o Fogos terá duas vertentes voltadas a sistemas de artilharia de campanha e defesa antiaérea. Esse último item incluirá a compra ainda este ano de um novo sistema de artilharia antiaérea, no valor de 3,4 bilhões de reais, desenvolvido pela Itália, que permitirá, segundo o Exército, a “incorporação de tecnologia inédita na América Latina para a interceptação de drones e mísseis de cruzeiro inimigos”.
Hoje, o Brasil gasta apenas 1% do PIB em Defesa, menos que vizinhos como Equador e Bolívia
Um terceiro projeto de modernização das Forças Armadas a ser acelerado com a verba extra é a aquisição de 96 novos veículos blindados Centauro II-BR, que, além dos canhões de 120 mm, têm tração 8×8, potência de 720 cavalos e blindagem capaz de suportar minas terrestres, munições cinéticas de alta pressão e outros tipos de explosivos. Dois protótipos já foram incorporados e o valor total do contrato de produção firmado com o consórcio Iveco-OTO Melara é de 5 bilhões de reais.
É um avanço, mas será preciso muito mais que os 30 bilhões de reais até 2031 para dotar o Brasil de uma Defesa forte. São urgentes os investimentos nas forças terrestres, mas a Aeronáutica também demanda a aquisição de novas aeronaves de transporte KC 390, além da entrada em operação das 15 unidades prometidas do F39 Gripen. A Marinha pede 20 bilhões de reais apenas para dar continuidade a projetos estratégicos, como o desenvolvimento de submarinos ou o projeto Tamandaré, de construção de fragatas. “Caso não haja a renovação dos meios navais, a Marinha poderá perder até 40% de sua frota nos próximos dois anos”, diz, em nota, o comando da Força.
Professor de Geopolítica da Escola Superior de Guerra, Ronaldo Carmona diz que os investimentos precisam ser endereçados a “uma reforma estrutural que leve a um incremento substancial da nossa capacidade de Defesa”. A prioridade deve ser acelerar a conclusão, hoje prevista para 2035, dos novos submarinos movidos a propulsão nuclear. “Será um instrumento de dissuasão por excelência”, explica Carmona. A capacidade de defesa antiaérea de média e alta altura, hoje inexistente no País, precisa de radares e mísseis. “Nacionais, não estrangeiros, como costuma acontecer”, ressalva. Nesta área, avalia o especialista, o Brasil precisa possuir não só mísseis de cruzeiro, como o MTC do Exército, em fase final de testes, mas também “ambicionar o desenvolvimento de mísseis balísticos hipersônicos, como nos ensinam as guerras atuais”.

Carmona destaca ainda a necessidade de investimentos no desenvolvimento de drones de todas as classes, inclusive de grande porte e alcance com Inteligência Artificial integrada. “Com o Gripen estamos dando um passo importante, ainda que partes críticas dele, como a aviônica, sejam de origem israelense. Mas será preciso ter uma ambição maior, a de possuirmos um caça furtivo nacional de quinta geração.”
Outra necessidade apontada pelo professor é a conquista de autonomia em sistemas de navegação análogos ao GPS desenvolvido pelos Estados Unidos. “Em poucas semanas será divulgado um estudo inicial, conduzido pelo GSI e o MCTI, visando o GPS nacional. A interoperabilidade das três Forças no Brasil é muito baixa em comparação com as principais Forças em nível mundial, que atuam em completa integração operacional”, afirma.
Se não houver renovação, a Marinha poderá perder até 40% de sua frota nos próximos dois anos
Doutor em História pela Universidade de Paris e autor de O Que Fazer com o Militar (2024), Manuel Domingos Neto diz que é “vexaminoso” o Brasil não dispor de autonomia na produção de aviões e mísseis balísticos intercontinentais. “Com o dinheiro e o tempo perdidos com o caça sueco, que não servirá para eventualmente enfrentar os EUA, porque suas turbinas ficariam sem manutenção, adiamos a busca de capacidade aérea própria”, lamenta. Ele avalia ser necessário um investimento sério nas comunicações satelitais e na capacidade aeronaval. “As características do País e as guerras em curso demonstram isso. Quem dispõe de hipersônicos e sistemas de inteligência para guiá-los fica em vantagem. Uma frota de submarinos também é importante. Temos uma grande costa e um volumoso comércio externo”, explica.
Com um efetivo de 374,5 mil praças e oficiais nas Forças Armadas, o Brasil gastou, em 2024, com investimentos em defesa 124 bilhões de reais, cerca de 1% do PIB. Fica atrás dos vizinhos Colômbia (3,4%), Uruguai (2,3%), Equador (2,2%), Chile (1,6%) e Bolívia (1,4%). Está em trâmite no Senado um projeto, de autoria do senador Carlos Portinho, do PL, que determina a destinação mínima de 2% do PIB. A ideia tem a simpatia do governo, que estuda apresentar projeto próprio ao Congresso. “Lula está correto ao garantir verbas para o setor fora do limite do arcabouço fiscal, pois a situação tensa na geopolítica mundial exige esforço redobrado para garantir a defesa das nossas fronteiras”, diz Celso Pansera, ex-ministro de Ciência e Tecnologia.
Baixo custo. Os drones se mostraram ferramentas extremamente eficazes nas guerras assimétricas contemporâneas – Imagem: Xmobots/Exército Brasileito
Pansera lembra que o investimento em defesa transborda para outras áreas e propicia tecnologias que beneficiam a humanidade como um todo. “A internet e o GPS, por exemplo, são instrumentos originalmente criados para sistemas de defesa, mas que hoje em dia são fundamentais para o desenvolvimento social e econômico.” Segundo Manuel Domingos Neto, não adianta aprovar orçamentos militares “se o Brasil não tiver uma política de defesa nacional verdadeira, o que demanda uma reforma militar e iniciativas transversais e simultâneas”. Sem isso, acrescenta, “entregaremos a nossa soberania”.
Carmona afirma ainda que o foco dos novos investimentos deve ser a eliminação de vulnerabilidades, dentre elas a enorme dependência de material militar estrangeiro, sobretudo da Otan e de Israel. Isso diminui a autonomia nacional em tecnologias críticas de defesa. “Devemos criar capacidades concentradas para a efetiva dissuasão e capacidade de retaliação. Algo que faça com que o custo de uma agressão ao Brasil desencoraje uma grande potência a agir contra nós”, conclui o professor da ESG. •
Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Poder de dissuasão’
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