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Plano Z? Nada disso

Patrus Ananias garante que entrou na disputa para vencer as eleições em Minas Gerais

Plano Z? Nada disso
Plano Z? Nada disso
Lema de vida. “Não podemos servir a Deus e ao dinheiro”, afirma o petista – Imagem: Redes Sociais
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Eleições 2026

Indicado quase no fim do prazo de registro das candidaturas, o deputado federal Patrus Ananias rejeita o rótulo de plano Z do PT em Minas ­Gerais, colégio eleitoral decisivo na disputa presidencial. “Vou disputar e ganhar o governo”, afirma na entrevista a seguir. Ex-prefeito de Belo Horizonte e ex-ministro responsável pela implementação do Bolsa Família, Ananias relembra sua trajetória na militância e na vida pública, evita fulanizar o debate e promete submeter o pagamento da dívida estadual, na casa dos 200 bilhões de reais, à melhora das condições de vida da população. “Vamos abrir as contas públicas”, promete.

CartaCapital: O senhor imaginava disputar o governo de Minas neste momento ou o convite de Lula o surpreendeu?
Patrus Ananias: A possibilidade de governar Minas sempre esteve presente para mim. Sou apaixonado pelo Brasil e por Minas, que é um estado-síntese do País. Sempre tive uma relação profunda com a cultura mineira, sua história e os movimentos sociais. Claro que, quando o presidente Lula colocou essa possibilidade, meu coração ficou feliz.

CC: O senhor aceitou a candidatura para disputar de fato o governo ou para garantir um palanque para o presidente Lula?
PA: Vou disputar e ganhar o governo de Minas e, é claro, também criar um espaço político para o presidente Lula. É muito importante a reeleição dele juntamente com a nossa vitória aqui, para integrarmos o estado com o Brasil. É um sonho que me acompanha desde a juventude. Nosso projeto para Minas está vinculado ao projeto nacional.

Herança maldita. Zema deixa para trás uma dívida de 200 bilhões de reais – Imagem: Daniele Fernandes/TCEMG

CC: Segundo dados da pesquisa ­Genial/Quaest, o senhor tem uma rejeição de 35%. A que atribui esse índice?
PA: A rejeição no começo do processo eleitoral apresenta dados que podem ser modificados. Muitas vezes os eleitores manifestam rejeição por não conhecerem bem a história. Fui prefeito de Belo Horizonte, implantamos o orçamento participativo, políticas de segurança alimentar e assistência social. No Ministério do Desenvolvimento Social, implantamos e consolidamos o Bolsa Família e o Sistema Único de Assistência Social. Chego a esta altura da vida sem ter um processo, seja na área administrativa, seja na judicial. Tenho compromisso com a ética e absoluto respeito ao dinheiro e ao patrimônio público.

CC: Sua formação política tem forte influência cristã e da doutrina social da Igreja. Esse olhar ainda cabe na política brasileira?
PA: Cabe. É o que me inspira. Vim para a política por meio da tradição cristã, numa linha ecumênica e de respeito às diferenças. Comecei minha militância na Igreja. Ainda criança, em Bocaiúva, era coroinha. Depois vieram a Pastoral da Juventude e a Pastoral dos Direitos Humanos. Dom Hélder Câmara, Dom Paulo Evaristo Arns e Dom Pedro Casaldáliga me marcaram profundamente. Há princípios cristãos permanentes: ética, compromisso com os empobrecidos, bem comum e justiça social. Hoje vivemos numa sociedade em que o dinheiro passou a ser um valor absoluto. Lembro sempre o ensinamento de Jesus: não podemos servir a Deus e ao dinheiro. O dinheiro é um meio, não pode se tornar um fim em si mesmo.

“Tenho compromisso com a ética e absoluto respeito pelo dinheiro público”

CC: O senhor coordenou a implantação do Bolsa Família. O eleitor ainda vota movido por esse legado?
PA: Quando implantamos o Bolsa Família, nosso desejo era que os brasileiros ampliassem suas possibilidades, tivessem capacitação profissional e trabalho digno. Vinculamos o programa à educação e à saúde. Infelizmente, no governo que antecedeu a volta de Lula, ele foi usado de forma muito triste, política e eleitoralmente, e dissociado desses compromissos. Agora estamos recompondo isso. Espero fazer o mesmo em Minas, integrando políticas sociais, saúde, educação, capacitação para o trabalho e desenvolvimento regional.

CC: Uma das críticas ao Bolsa Família é que o programa dificulta a contratação porque os beneficiários prefeririam viver do repasse público.
PA: É um preconceito em relação aos pobres. É uma visão que vem da escravidão. Vejo gente defendendo a jornada 6×1 – enquanto nós defendemos a escala 5×2 –, usando argumentos parecidos com aqueles utilizados para defender a permanência da escravidão: “Isso vai comprometer a economia”. Os pobres querem uma vida digna. Milhões de trabalhadores saíram do Bolsa Família quando encontraram possibilidade de trabalho. Temos de quebrar esse preconceito contra os pobres. São eles, trabalhadores e trabalhadoras, que no fundo mantêm o nosso País. Temos uma pobreza histórica. Até hoje, aproximadamente, 10% dos brasileiros são analfabetos. Portanto, incapacitados para o mercado de trabalho no qual estamos inseridos. Por isso implantamos o Bolsa Família com essa dimensão, vinculando com a educação, saúde, políticas de geração de emprego e de capacitação profissional. Os pobres são muito dignos. O povo brasileiro é um povo bom, trabalhador.

Patrimônio. O candidato descarta a privatização da Cemig, estatal de energia, e rechaça o Estado mínimo – Imagem: Luiz Santana/ALMG

CC: Políticos como Cleitinho e Nikolas­ Ferreira conquistaram enorme espaço por meio das redes sociais. O que esse fenômeno revela?
PA: Não fulanizo. Não quero julgar ninguém. Analiso a conjuntura. Vivemos uma situação desafiadora, com presença muito forte de uma direita extremada, golpista, que considero, pelas minhas conversas inclusive com eles, neofascista. São pessoas que não gostam do diálogo, não respeitam as diferenças e não têm compromisso com a democracia. Muitas vezes usam de forma perversa as redes sociais, fake news e Inteligência Artificial. Estou aberto ao diálogo com quem pensa diferente, mas nessa direita radicalizada e sectarizada, que tem sua referência na família do ex-presidente, não vejo um horizonte democrático e dialogante.

CC: Seus principais concorrentes defendem um Estado menor. Qual Estado o senhor defende?
PA: Quem defende o Estado mínimo está a serviço do grande capital. Quer privatizar tudo: saúde, educação, cultura. Não defendo a estatização de tudo e reconheço o espaço do setor privado, mas existem atribuições fundamentais do Estado. Precisamos de políticas públicas vigorosas na educação, saúde e segurança. Também vou defender a Cemig. Fui contra a privatização da Copasa. Existem serviços públicos que não podem ficar vinculados ao lucro, porque estão relacionados à vida dos cidadãos.

No caso das terras-raras, “defendo a industrialização, inclusive em parceria com o setor privado”

CC: E em relação à mineração, ao lítio, ao nióbio e às terras-raras?
PA: Essas riquezas devem ser exploradas para o bem do nosso povo. Não defendo estatização. Defendo que a industrialização aconteça no Brasil, inclusive em parceria com o setor privado. Temos de virar uma página da nossa história, parar de exportar matéria-prima para depois importar produtos industrializados. Queremos que essas riquezas sejam industrializadas aqui, gerando emprego, respeitando o meio ambiente e servindo ao desenvolvimento de Minas Gerais e do Brasil.

CC: Se eleito, o senhor herdará um estado com dívida superior a 200 bilhões de reais. Como pretende enfrentar essa situação?
PA: Primeiro, vamos abrir as contas públicas. É fundamental que o povo saiba exatamente qual a dívida e a situação do estado. Quem mantém a máquina pública, com seus impostos e tributos, tem o direito de saber para onde vai o dinheiro. Vamos conversar com o governo federal sobre essa dívida. Mas uma coisa está clara para mim, a prioridade não vai ser pagar essa dívida. Vamos acertar, negociar e conversar, mas ela estará subordinada à aplicação dos recursos públicos para garantir, em primeiro lugar, a vida e a dignidade dos mineiros. Isso significa educação, saúde, segurança pública, geração de trabalho, emprego e renda. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Plano Z? Nada disso’

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