Política
Pioneiros da resistência
Mapa do século XVII orienta pesquisadores na busca pelos mais antigos quilombos de Palmares
Símbolo da resistência dos africanos escravizados no Brasil, o Quilombo dos Palmares, na Serra da Barriga, em Alagoas, pode ganhar novos contornos históricos. Pesquisa conduzida pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), em parceria com a Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), indica que comunidades negras livres viviam de forma organizada nos municípios de Chã Preta, em Alagoas, e Correntes e Lagoa do Ouro, no Agreste pernambucano – localidades próximas a União dos Palmares, onde se situa a Serra da Barriga. A descoberta teve como ponto de partida documentos manuscritos no século XVII por cronistas da época, corroborados por mapas históricos encontrados recentemente na biblioteca da Universidade Harvard, nos Estados Unidos, que fazem referência ao período da ocupação holandesa no Nordeste.
De acordo com o arqueólogo Flávio Moraes, coordenador da pesquisa e professor da Ufal, os escritos dos cronistas subsidiaram os pesquisadores na reconstrução dos percursos que levavam aos possíveis quilombos. Os documentos descrevem tanto a organização das comunidades negras nesses territórios quanto as rotas usadas pelos exploradores do regime para chegar aos locais, sequestrar seus habitantes e escravizá-los, como ocorria com grande parte dos negros na época.
“Foi a partir daí que pudemos fazer interpretações para traçar esses percursos e chegar nos possíveis locais onde seriam as concentrações de mucambos, como eles definiam, e que nós chamamos de quilombos. Nos textos, eles descrevem que as incursões tinham o objetivo de desmobilizar e destruir essas comunidades”, explica Moraes. “Fizemos todo o percurso mencionado nos textos e, depois, uma espécie de conversão daquilo que eles chamam de milhas, e outras formas de designar as distâncias, para quilômetros”, completa, explicando que os mapas encontrados em Harvard confirmaram o que já estava posto pelos cronistas holandeses.
Na terça-feira, dia 20, os pesquisadores deram início ao trabalho de campo, a primeira fase do estudo, que eles chamam de prospecção. Antes, porém, a equipe já havia feito o reconhecimento desses territórios e identificado algumas alterações que aparentemente indicavam as paliçadas e os fossos, estruturas de proteção dos quilombos. O objetivo agora é confirmar esses achados por meio de uma exploração mais detalhada, incluindo pequenas aberturas no solo.
O documento foi descoberto recentemente em uma biblioteca da Universidade Harvard, nos EUA
“Na arqueologia, prospecção é a identificação e a caracterização do local para sabermos, por meio de evidências, qual é a dimensão da área, qual é a profundidade que os materiais se encontram, se estão próximos ou distantes da superfície”, diz Moraes. A previsão é de que essa primeira fase seja concluída até setembro deste ano. A etapa seguinte será a escavação ampla e sistemática, quando o foco será identificar como viviam aquelas pessoas. “Estamos bem esperançosos, mas, como a arqueologia é uma ciência de evidência, a gente não precisa só achar, precisa confirmar a existência.”
A pesquisa terá duração de 18 meses, com financiamento inicial de 300 mil reais da Fundação Cultural Palmares, um valor modesto diante da importância do tema. Guilherme Bruno, coordenador-geral do Centro de Informação e Acervo da Memória e da Cultura Afro-brasileira da Palmares, destaca que o estudo será desenvolvido por pesquisadores brasileiros e privilegia bolsistas negros. “Queremos fomentar a pesquisa de qualidade acadêmica que tenha o propósito de contar a história afro-brasileira a partir de uma cosmovisão própria e não eurocêntrica”, salienta.
Segundo ele, a expectativa é que o trabalho traga evidências materiais que resgatem objetos do passado e contem como essas pessoas viviam. “Nossa expectativa é que seja encontrada uma materialidade que resgate objetos do passado, que conte como foi essa história, para que a gente tenha consciência de que essas pessoas levavam vida muito complexa, cheia de desafios e obstáculos. A impressão que se tem quando lemos um livro de história é que essas pessoas eram fracas, estavam subjugadas, já nasceram escravas, quando, na verdade, elas foram sequestradas, torturadas e privadas de liberdade. A única forma de enfrentar isso era por meio da resistência organizada, com toda a questão da preservação de suas culturas e suas religiões.”
Flávio Moraes corrobora os argumentos de Bruno e lembra que a historiografia brasileira é hegemônica ao colocar o negro no lugar de escravizado, destinando-o à senzala e invisibilizando a cultura material desses povos, que também viviam em espaços de liberdade e resistência. “Essa pesquisa dará uma grande contribuição para o entendimento do lugar do negro na nossa história. Como resposta a toda essa estrutura racista que foi construída e que o coloca na condição de uma figura inferior, a gente vai tentar apresentar à sociedade que essa população também viveu em espaços de felicidade, de liberdade, de resistência, claro, com as angústias da perseguição que existiam naquele tempo histórico, mas que podia desenvolver suas atividades ali de forma livre”, defende.
“Na historiografia, não se contesta a existência de Palmares. Agora, do ponto de vista arqueológico, não temos evidências materiais que nos ajudem a entender de forma clara e detalhada como eles comiam, como viviam, como dormiam, como eram suas casas, como eram seus espaços de rituais de sepultamento. É isso que a gente quer descobrir”, conclui o arqueólogo. •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Pioneiros da resistência’
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